InícioSociedade“Diferentes caracteres tipográficos, contam uma História”

“Diferentes caracteres tipográficos, contam uma História”

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Isabel Castanheira

O que é a cultura? É o conjunto de características espirituais, materiais, intelectuais e afetivas distintas, que caracterizam uma sociedade.

Os países, as cidades, as vilas, os lugarejos, as pessoas, o património e os factos são (também) dados a conhecer pelo que deles é deixado em memória.

Deste modo, a lembrança permanece, são recordados os factos e é construída uma história.

Tudo e todos se movimenta, se transforma, se modifica, renasce ou morre.

E esta agitação suscita os factos que intimamente vão constituir a história global. Na maioria dos casos os relatos chegam até nós integrados em textos, publicados em livros…

Dando continuidade a esta linha de pensamento, o meu texto debruça-se sobre os inúmeros livros que sobre / e tendo por tema as Caldas da Rainha se escreveram, se escrevem e se escreverão… Obras de história, viagens, crónicas sociais, poesia, teatro, científicos, religiosos, etc, etc…

Porque não sou poeta (e triste fico) não poderei começar melhor do que evocar a obra de um poeta, nosso contemporâneo; Pedro Mexia, que na obra “Duplo Império”, no seu poema “Pó”: afirma que: Os livros ficam, valem mais que tudo. Porque amo os livros, e no dizer do poeta, os livros valem mais que tudo…
Caldas da Rainha é uma cidade culturalmente fértil, ainda que por vezes, se nota uma certa inépcia, quando diferentes ideias se confrontam, e o resultado é nada; mas isso são contas de um outro rosário…

Dada a riqueza da informação, no que concerne à bibliografia caldense, é-me impossível – por questões de espaço – referenciar todos os factos que fazem com que Caldas da Rainha seja diferenciada da maioria das cidades de média dimensão existentes no nosso país.

Por tal facto, faço a promessa que quando se festejar o duplo centenário da Gazeta das Caldas, terminarei essa informação. Terei então memórias para tal?

Por agora, lembrarei aqueles que o espaço me permitir.

Quis o acaso, que a Rainha a quem a cidade deve a sua existência esteja por uma feliz coincidência, intimamente ligada à história do livro em Portugal. E isto porquê? Porque foi

D. Leonor de Lencastre a responsável pela impressão da primeira obra em língua portuguesa, executada em Lisboa, pelo processo tipográfico. Intitulado “Vita Christi” é uma obra em quatro volumes, embelezada com material iconográfico trazido para Portugal por um dos impressores encarregados pela Rainha D. Leonor da execução da obra: ou Valentim Fernandes, ou Nicolau da Saxónia.

Andemos, que se faz tarde: Lembram-se do poeta satírico que tirava colchões de dentro das cabeleiras das senhoras? Esse mesmo: Nicolau Tolentino de Almeida, que dedicou às Caldas da Rainha, cinco poemas de fino recorte literário.

Gil Vicente, o senhor dos ditos irreverentes, coloca o seu “Auto de S. Martinho”, a ser visto na pequena e bela jóia arquitectónica existente no traçado urbano: a Igreja de Nossa Sra. do Pópulo.

E agora para onde me viro eu, pois já cheguei aos 2993 caracteres?

Não posso deixar de lembrar Hugo Pratt, o misterioso (ou místico?) autor italiano de banda desenhada, que numa das suas obras, “Poesias Eróticas”, nos oferece uma jovem adolescente de Caldas da Rainha. Mistério nunca desvendado.

E o que farei com a indicação dos restantes autores dos livros que cobrem as minhas prateleiras? Será que com um tipo de letra de tamanho menor, me sobra espaço?

Esperança frustrada. Ficam para o ano de 3026…

Nestes tempos de novas tecnologias, recorrerei a um pequeno truque: será possível publicar a informação dos escritores caldenses na página online da Gazeta das Caldas. Será tal possível? Proposta feita, problema resolvido.

Tantos autores! O espaço falta-me…e o tempo também! Está na hora de mandar este texto para a redação do jornal, se é que quero corresponder ao que foi combinado.

Mas antes, antes… nesta altura em que ânimos exaltados discutem se a Praça da Fruta deverá ou não ser coberta, recomendo a leitura de um texto escrito. Pergunto: qual será o escritor que, em 1957, deu à estampa um livro, em que num dos capítulos o autor analisa a hipótese do mercado caldense: ser aberto ou fechado? Velhas disputas caldenses, em competição com o carcomido assunto do aeroporto de Lisboa.

E finalizo, plagiando Cavaleiro de Oliveira: Agora direis que sou doido com as coisas da minha terra, assim senhores eu o confesso. A cronista é uma fingidora, porque finge tão completamente, que chega a pensar que é verdade, o que na verdade mente…

 

“Quando a Arte se cruza com a Saúde”

Célia Antunes

A arte assume múltiplas dimensões e formas de atuação: pode ser entendida como área profissional, como experiência pessoal de fruição e envolvimento, mas também como educação pela arte, afirmando-se como uma poderosa ferramenta terapêutica. É precisamente nesta última dimensão que a arte se cruza de forma mais profunda com a saúde, sobretudo em contextos de doença, onde o indivíduo é desafiado a (re)construir-se emocionalmente, socialmente e profissionalmente.

E é neste sentido que o Projeto ‘OlhaTe’ nasce com a missão de apoiar doentes oncológicos através da arte e do Bem-Estar. Parte da convicção de que é possível (re)posicionar a vida quando se criam condições para olhar para dentro, reconhecer competências e descobrir novas formas de Ser e Fazer. Ao unir arte e saúde, o ‘OlhaTe’ ajuda a provar que, mesmo na doença, há vida — O cancro é uma catástrofe individual e, como qualquer catástrofe, requer reconstrução e um novo posicionamento. Para essa transformação, a arte é uma ferramenta essencial. O desafio deixa, então, de ser apenas “curar”, passando a ser reaprender a viver — ao novo ritmo do corpo e da mente. É neste ponto que a arte se cruza, de forma natural e poderosa, com a saúde, abrindo caminho a um novo (re)posicionamento na vida.

Como refere Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz (2006): “Cada um esconde dentro de si muito mais do que aquilo que alguma vez poderá explorar. A não ser que criemos as condições que nos permitam descobrir os limites do nosso potencial, nunca saberemos o que vai dentro de nós.” É precisamente essas condições que, no ‘OlhaTe’, procuramos criar.

A doença oncológica é mais do que um diagnóstico clínico. Representa uma rutura profunda na vida de quem a atravessa. O cancro acarreta limitações físicas, um intenso desgaste emocional e uma redefinição quase inevitável da identidade pessoal, familiar, social e profissional. Altera a forma como o indivíduo se vê e como é visto, modifica rotinas, expectativas e projetos de vida. Os participantes são convidados a explorar o seu potencial criativo, fortalecer a autonomia, adotar estilos de vida mais saudáveis e recuperar a confiança. A experiência demonstra que pessoas acompanhadas, quando se tornam ativas, criativas e empreendedoras, contribuem não só para a sua própria qualidade de vida, mas também para o equilíbrio das comunidades onde se inserem. A arte e o Amor revelam-se aliados fundamentais. Iniciei o ‘OlhaTe’ pela reflexão e experiência pessoal, mas sempre procurei sustentá-lo numa base científica. Nesse percurso, frequentei o curso “Viver a Arte, Voltar à Vida”, no ISPA — um nome que parecia já sintetizar o espírito do ‘OlhaTe’. E como referiu a formadora, a Dra. Isabel Andrea, Psicóloga Educacional, pós-graduada em Ciências da Educação e especialista em Atividades Lúdicas e Expressivas: “A Educação pela Arte resgata o potencial criativo do homem, buscando a psique saudável e estimulando a autonomia e a transformação interna para a reestruturação do ser”.

 

“Uma Cidade onde nos tratamos pelo Nome: Comércio e Arte com Identidade”

Marcos Pinto

Vivo nas Caldas da Rainha há cerca de 25 anos. Cheguei vindo de uma realidade muito diferente, de uma cidade industrial como Paços de Ferreira, onde o ritmo é outro, onde a produção dita muito do dia a dia. Quando aqui cheguei, deparei-me com algo que ainda hoje valorizo profundamente: uma cidade onde as pessoas se conhecem, onde se anda na rua e se é tratado pelo nome, onde há vida nas ruas.

Essa proximidade é, para mim, uma das maiores riquezas das Caldas da Rainha. E é também o ponto de partida para falar da relação entre arte e comércio.

As Caldas não é apenas uma cidade com comércio. É uma cidade com identidade. Uma cidade onde a arte está presente de forma natural, quase sem esforço. E isso não é de agora — vem de trás, da visão de Rafael Bordalo Pinheiro, que percebeu que a criação artística e a atividade económica podiam — e deviam — caminhar lado a lado.

Enquanto comerciante e, hoje, como presidente da ACCCRO, acredito muito nessa ligação. Porque o comércio, tal como o vivemos nas Caldas da Rainha, não é apenas vender. É receber pessoas, é criar relações, é dar vida à cidade. E quando juntamos a isso a arte, tudo ganha outra dimensão.

Uma montra pode ser mais do que uma exposição de produtos — pode contar uma história. Um espaço comercial pode ser mais do que um ponto de venda — pode ser um ponto de encontro, de criatividade, de identidade local.

Mas esta relação não é de sentido único. A arte também precisa do comércio. Precisa de espaços, de visibilidade, de sustentabilidade. Precisa de estar próxima das pessoas, no dia a dia, e não apenas em contextos mais formais.

Nas Caldas da Rainha, temos uma oportunidade que nem sempre valorizamos como devíamos. Temos artistas, temos tradição, temos comércio de proximidade e temos uma cidade com escala humana. Falta-nos, muitas vezes, cruzar mais estes mundos.

A ACCCRO nasceu com esse espírito de união. E é esse espírito que faz sentido recuperar e reforçar. Criar pontes entre comerciantes e artistas, trazer a arte para dentro do comércio e levar o comércio a valorizar mais a criatividade que existe à sua volta.

Num tempo em que tanto se fala de globalização e de comércio online, aquilo que nos distingue é precisamente isto: a autenticidade, a proximidade, a identidade. E isso não se replica — constrói-se, todos os dias, na rua, nas lojas, nas pessoas.

Acredito que o futuro do comércio nas Caldas passa muito por aqui. Por sermos capazes de manter o que temos de mais genuíno, ao mesmo tempo que inovamos e nos adaptamos.

Porque, no fundo, é simples: quando o comércio se liga à arte, torna-se mais humano. E quando a arte se aproxima do comércio, torna-se mais próxima das pessoas.

E nas Caldas da Rainha, é exatamente isso que faz sentido.

 

“Da Contemplação à Ação”

Sandra Roda

Cresci entre o Parque D. Carlos I e o Museu José Malhoa, locais com uma paisagem moldada pelo e para o ser humano.

Foi o meu interesse pela causa ecológica que me motivou a questionar o antropocentrismo e o impacto das nossas ações coletivas e individuais sobre o meio ambiente. Ao longo da minha infância, foram marcantes na minha formação e projeto gráfico que desenvolvo – Ativista por Natureza – campanhas como: “Salvem o Lince e a Serra da Malcata” (1979), o Grupo Lobo e o “Festival pela Vida contra o Nuclear” em Caldas da Rainha.

É inegável que a arte sempre teve uma relação estreita com a natureza. Desde os primeiros registos visuais até às práticas contemporâneas, a natureza tem sido simultaneamente objeto de contemplação, recurso simbólico e alvo de crítica.

Após a 2ª Guerra Mundial, em contraciclo com a profunda fragmentação da natureza que justifica a sua exploração e deterioração sem limites nem culpa, a consciencialização ambiental ganhou terreno. O movimento ecológico foi expondo e elevando a causa ecológica à esfera pública e política, através de estudos, conferências, manifestos e protestos.

Nas décadas de 60 e 70 do Século XX, a causa ganhou visibilidade mediática e a arte, que já se vinha transformando de forma radical nas suas práticas, questionando o sistema político, social, cultural e ambiental vigente, usando o espaço público, intervindo diretamente na natureza, envolvendo comunidades e levando a agenda para as galerias e museus. Desde então, muitos artistas, profissionais e amadores, têm-se aliado diretamente às organizações e ações que se disseminam rapidamente pelo mundo, ajudando a elevar a consciência ecológica e a ilustrar as reivindicações deste movimento.

Um exemplo disso é o evento precursor do movimento ambiental moderno: o primeiro “Dia da Terra”, em 1970, nos EUA. Esta ação levou milhares de pessoas à rua, envolveu políticos, escolas, associações e artistas, com o objetivo de congregar a sociedade em torno do tema e dar-lhe identidade. Houve espaço para todas as manifestações artísticas, mas foram os elementos visuais que lhe conferiu uma identidade que perdura na memória coletiva. Surge o símbolo de ecologia pelas mãos do cartunista e designer Ron Cobb. O cartaz do evento é de autoria de Robert Rauschenberg, que desde a década de 50, desenvolvia montagens que refletiam a tensão entre mundo natural e artificial – “Monogram” (1955), uma cabra empalhada envolvida por um pneu, é um bom exemplo da sua obra. O cartunista e designer Walter Kelly, colocou a sua personagem POGO num cenário cheio de lixo acompanhado da famosa frase “We have met the enemy and he is us”.

Hoje em dia, a relação entre arte e ambiente está cada vez mais estreita, as organizações apropriaram-se das práticas artísticas como ferramentas de comunicação e reflexão, e o espaço de produção e exposição artística elaboram, hoje, longos programas curatoriais dedicados ao tema. Acredito que, a arte não cura o mundo mas ajuda a transformá-lo.

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