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As Cidades e as Estações

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Paula Ganhão
Gestora de Projetos

Nunca me ocorreu ouvir As Quatro Estações, de Vivaldi, como uma reflexão sobre as cidades. Sempre pensei naquela música como um retrato da natureza. Até me aperceber de que nenhuma das quatro estações tenta durar para além do tempo que lhe pertence.
O verão não chega de repente, nem o inverno acontece num único dia. Primeiro muda a luz. Depois o vento. As sombras deslocam-se devagar, as tardes encurtam ou alongam-se quase sem darmos conta. Só mais tarde percebemos que a estação já é outra. A natureza nunca parece ter pressa. Também nunca resiste ao tempo.
Cada uma aceita a seguinte sem nostalgia nem resistência. É por isso que nenhuma se atrasa.
Pergunto-me se não teremos desaprendido essa serenidade.
Há cidades onde ainda se sente esse ritmo. Não porque tenham deixado de se transformar, mas porque não têm pressa. Uma praça continua a ser um lugar para ficar e não apenas um espaço por atravessar. A demora ainda faz parte da arquitetura.
Vivemos, porém, como se existisse apenas uma estação possível: a da primavera. Mais habitantes. Mais construção. Mais investimento. Mais visitantes. Como se uma cidade fosse tanto melhor quanto mais conseguisse acrescentar. Como se parar fosse um fracasso e abrandar um sinal de derrota. Como se o outono fosse sempre uma ameaça e nunca a estação da colheita.
Mas nenhuma árvore cresce até ao céu.
Talvez seja por isso que continua de pé.
Há um instante quase invisível em que aumentar deixa de significar melhorar. Não chega com estrondo. Instala-se aos poucos, como mudam as estações. Os números continuam a subir, enquanto outras coisas desaparecem quase sem darmos conta: o sino da igreja que marcava as horas, o café onde já sabiam o que íamos pedir, o jardim onde ainda era possível ficar sem sentir que havia sempre outro destino mais urgente.
Uma cidade começa a perder-se quando deixa de amadurecer e se limita a crescer.
Uma cidade não se mede apenas por quantos visitantes recebe, mas por quantos consegue acolher sem deixar de ser casa para quem nela vive. Nem por quanto constrói, mas por aquilo que escolhe não substituir. Porque também há futuro naquilo que permanece. Há lugares que não precisam de ser maiores para serem melhores. Precisam apenas de continuar a ser reconhecíveis.
Volto então a Vivaldi.
Nenhuma das quatro estações procura prolongar-se para além do seu tempo. A música não perde força quando muda de andamento. É precisamente isso que lhe dá beleza.
Há cidades que nunca chegam ao outono.
E um dia deixam de reconhecer a primavera.

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