Início Opinião Corredor: Correr por gosto não cansa, mas custa

Corredor: Correr por gosto não cansa, mas custa

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As portas abrem e eu entro a medo. Não porque não conheça os cantos à casa, não, eu entro a medo porque, independentemente dos planos que faça, perco sempre mais do que devia. É um jogo que não foi feito para eu ganhar. Os árbitros estão lá do alto do seu pedestal a olhar para mim, mais um pontinho ao fundo que vai a jogo, esfregam as mãos porque sabem que eu não tenho hipóteses.
Que posso eu fazer? Eles decidiram as regras sem mim. Apito de partida e lá vou eu: faço o sprint, desvio-me dos obstáculos, rastejo pela lama, tento fazer as melhores escolhas que consigo, escapo-me a alguns vícios, submeto-me a outros. Faço essa maratona toda, para chegar à meta final com um resultado completamente viciado. Não é justo. E por mais que tente, não vou conseguir ganhar. Mas justiça nunca esteve nos planos deles
Ir ao mercado não tem que ser assim. O azeite que corre nos pratos dos portugueses não é fio de ouro e, ainda assim, sinto-me a comprar o relógio mais luxuoso da loja, tal é o corte que faz na minha carteira. É um jogo do qual não conseguimos escapar, afinal se olhares para cima lá estão eles, olham para nós do pedestal de onde decidiram em conjunto que vamos pagar por tudo isto. Mas nem eu nem tu encomendámos estas guerras.
Há uma verdade ensurdecedora: quando corre mal estamos sempre cá para pagar a continha, mas quando está tudo bem lá no alto, é só mais uma quinta-feira para todos — daquelas com happy hour depois do trabalho, pizzas e ténis de mesa, claro.
Mas vale de algo eu barafustar assim no corredor dos frescos? Não vou levar presunto, vou levar fiambre. Passei nos ovos, sinto-me numa distopia bizarra em que decido qual o nível de crueldade que vou tolerar das galinhas hoje. Será que escolho as biológicas? Ou as criadas no campo? Ou ambas? Ou então, aquele que nem menciona nada de nada, indica-nos o mais provável cenário, que de resto deve ser igual em todas, presas, num armazém, atoladas.
Elas e nós. De mãos atadas.
E a culpa não é do azeite, eu sei disso. Nem dos ovos, nem das latas de atum, nem dos iogurtes, nem do pão. Mas eu olho para eles e olho para o papelinho com o preço e explodo. Os culpados são quem nos gere como se de assets nos tratássemos — números num qualquer inventário. Alguém sabe mexer em Excel? O governo aparenta ser craque. Mas não cai do céu este escalar de preços, alguém tem que ser chamado à praça pública e responsabilizado. Rebentem as folhas de cálculo! Os vulneráveis precisam de respostas e medidas firmes que os protejam. Não precisamos de uma reforma laboral, precisamos que o salário não se esvazie com a renda.
Para quem implora tanto que o deixem trabalhar, parece estar a faltar aos turnos todos. A sorte é que a folha de ponto é só para alguns. Mas o resultado está à vista: um país a empobrecer, a qualidade dos serviços a regredir, os ricos a enriquecer. A fórmula conhecemo-la bem, não é a primeira vez que nos é servida. Mas parece que algures entre o
corredor das conservas e o dos congelados deixámos que isto aconteça e, pior, não exigimos mudança. Quando é que parámos de sonhar por um país melhor? Porque é que aceitamos tão facilmente que nos fod@m a vida?
Pois bem, a maratona chegou ao fim. Cá estou de novo na meta final, volto com menos coisas do que queria. É a vida.

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