Início Opinião Da sardinha ao oceano – e às pessoas que fazem o mar

Da sardinha ao oceano – e às pessoas que fazem o mar

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A crónica deste mês vai ser assim como uma “caldeirada”. Dá para perceber que abordará vários assuntos e inclui também a nossa sardinha.
No passado dia 4 de maio abriu oficialmente a safra da sardinha. Para comunidades costeiras como Peniche e Nazaré, este é sempre um momento especial. Não apenas pelo significado económico e social da pesca, mas também porque a sardinha continua a ser um símbolo maior da nossa identidade marítima.
Nos últimos anos, esta espécie tornou-se também um exemplo internacional de gestão sustentável dos recursos do mar. Depois de um período difícil, a sardinha ibérica recuperou o selo MSC — certificação internacional de pesca sustentável — graças a uma articulação exemplar entre armadores, pescadores, administração pública e comunidade científica. Um sinal de que é possível conciliar atividade económica, conhecimento científico e sustentabilidade ambiental.
Esta semana, no Oceanário de Lisboa, participei na estreia do documentário científico “Gorringe – O Gigante do Atlântico”, dedicado à extraordinária montanha submarina localizada ao largo da costa portuguesa. A expedição, organizada pela Fundação Oceano Azul — entidade com que colaboro desde 2018 —, a bordo do antigo bacalhoeiro “Santa Maria Manuela”, releva “a importância de alinhar conhecimento científico, sensibilização e ambição política para proteger eficazmente o oceano”.
Curiosamente, a sardinha utilizada para iscar os equipamentos científicos onde estavam instaladas as câmaras subaquáticas era sardinha de Peniche, fornecida por uma empresa do concelho. Um pequeno detalhe que simboliza bem a ligação entre o nosso território, o mar, a pesca e a ciência.
A estreia ganhou ainda maior simbolismo por coincidir com os 100 anos de David Attenborough. Lembrei-me, inevitavelmente, da sua participação no documentário “Ocean”, que aqui referi numa crónica anterior. Tal como esse extraordinário trabalho cinematográfico, também “Gorringe”, realizado por Nuno Sá, nos desafia a olhar o oceano como património vivo da humanidade.
Mas o mar também se constrói nos clubes.
Este fim de semana, Portugal alcançou um extraordinário terceiro lugar na Taça do Mundo de Canoagem, realizada na Hungria, conquistando três medalhas de ouro — mais duas para a conta de Fernando Pimenta — e uma de bronze.
Mas importa lembrar: estas medalhas começam muito antes dos grandes palcos internacionais. Começam nos clubes náuticos, nos treinadores, nos dirigentes, nas famílias e na persistência silenciosa de quem acredita.
Por cá, o Centro de Canoagem do Oeste, do qual sou associado e atleta, celebrou os seus 24 anos de atividade. O CCO desenvolve formação permanente na Lagoa de Óbidos/Foz do Arelho e na Albufeira da Barragem do Rio São Domingos, na Atouguia da Baleia.
Que o diga Kevin Santos, atleta “nascido” no CCO e campeão europeu em várias disciplinas de velocidade.
O exemplo do Kevin mostra-nos algo fundamental: não há grandes atletas sem clubes fortes. E não há clubes fortes sem reconhecimento público e apoio financeiro adequado, nomeadamente dos municípios. Qualquer euro investido nestas estruturas terá sempre um retorno social, educativo e desportivo multiplicado.
Entretanto, à semelhança do que aconteceu em 2022, faço parte da equipa organizadora do Caminho Marítimo de Santiago. No próximo dia 31 de maio — Dia Nacional do Pescador — os 20 veleiros participantes, provenientes de Cascais, farão escala na Nazaré, largando depois rumo à Figueira da Foz.
A Estação Náutica do Oeste e os seus parceiros estão a preparar um programa de acolhimento aos nautas-peregrinos, com destaque para o Dia Mundial da Criança.
E porque o mar é também cultura, inovação e futuro, deixo igualmente o convite para participarem na 1.ª Bienal do Mar de Peniche, que decorrerá de 22 a 31 de maio, promovida pelo Município de Peniche e pela Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar. A convite do Presidente da Câmara Municipal, terei a honra de desempenhar funções de comissário do evento.
Entretanto, aproveite: a sardinha fresca já chegou.
E o Pirilampo Mágico também já anda por aí. O lançamento nacional da campanha organizada pela FENACERCI decorreu esta semana no Oceanário de Lisboa, onde também marquei presença. Uma campanha à qual estive ligado desde o seu início. Comprando o Pirilampo, ajudará a iluminar vidas, muitas delas apoiadas por instituições da nossa região.

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