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Início Opinião A entrosga e o carreto: arquivo de práticas e memória

A entrosga e o carreto: arquivo de práticas e memória

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Entre as partes de um moinho, encontram-se a entrosga e o carreto. A primeira recebe a força e o movimento dos elementos, a água ou o vento (ar), e a segunda multiplica-o, aumentando a produtividade do engenho e do moleiro.
Quando ouvi esta explicação, na primeira aula da formação “Escola de Moleiros” – iniciativa do Geoparque e da ETHO -, não pude deixar de a relacionar com o meu próprio caso. Enquanto procuro identidade, sinto-me, por vezes, uma “entrosga” que recebeu força e movimento de elementos passados, mas gostaria mais de ser um “carreto”, multiplicando tudo isso para que os caldenses (e não só) sentissem o peso da sua ancestralidade e das práticas que, associadas aos nossos antepassados, podem ainda ser recuperadas.
Achei até que esta ideia ligava perfeitamente com o 15 de maio e os temas desta edição da Gazeta: criatividade, cultura e identidade (caldense). Ao descobrir um pouco mais sobre Molinologia, tenho a convicção de que existe pouca criatividade em nós, para além daquela que pomos em prática sempre que multiplicamos o que recebemos. Culturalmente, um moinho cumpre hoje em pleno a palavra, mantendo a relação com a atividade agrícola, de que depende a ação transformadora que realiza. E identidade (não só caldense) é o que procuramos e devemos preservar quando nos referimos a este ofício. Preservar será neste contexto uma palavra de ordem, porque muitos dos moinhos do Oeste estão em ruínas, e mais do que manter uma paisagem bonita e única, quanta história e identidade perdemos quando um moinho não moí e quando a memória desse ofício desparece de um lugar? Garanto que, em pouco tempo, serão raros aqueles que lembrarão a importância deste ofício, por exemplo, na minha aldeia – o Reguengo da Parada -, em que um dos seus centros, a Associação, foi construída num lugar de moinhos.
O edifício é uma questão relevante, mas já mencionei a tarefa mais difícil, morosa e de constante dedicação: o estudo da prática. Essa prática que, como um arquivo, reúne tudo o que é imprescindível à preservação de uma identidade. No caso dos moinhos, falamos de um alargado conjunto de saberes – o know-how –, aliado a um profundo conhecimento dos elementos naturais e das especificidades do engenho.
Um moinho sem moleiro não serve o seu propósito, um arquivo sem arquivista é como se não existisse. E, aparentemente desconexos, estes dois campos compõem duas faces da mesma moeda. Os etnólogos que iniciaram a coleção do Museu Nacional de Etnologia, cujo arquivo tenho tido a felicidade de trabalhar, sabiam-no bem. Daí que tenham registado, fotografado e filmado as práticas associadas a muitos dos objetos que recolheram, em Portugal e no estrangeiro. Só me ocorre uma palavra, que assim se torna repetida por aqui: mediação. O acesso aos espaços, aos documentos e ao conhecimento obriga à mediação, a partir da qual se pode (e deve) alargar a identidade que nos pertence como caldenses, portugueses e cidadãos do mundo e que, quem sabe, desconhecemos.
A entrosga e o carreto, relembram-me este mês, como não podia deixar de ser, aquele moleiro que me deixou precisamente há 10 anos e de quem gosto particularmente: o meu avô Francisco João Beato (1939-2016). Termino com um verso de José Mário Branco com que me identifico, “Fazer de cada perda uma raiz”.

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