InícioCulturaCrónicasQue imprensa regional teremos daqui a 20 anos?

Que imprensa regional teremos daqui a 20 anos?

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David Vieira
Técnico de Comunicação

O jornalismo regional atravessa um tempo de mudança profunda. A era digital já não é promessa. É realidade. Mas o que virá depois? Que jornalismo teremos daqui a vinte anos?
As respostas não são simples, mas uma certeza permanece, a de que o jornalismo continuará a ser necessário. Essencial, diria. A questão é saber se a imprensa regional saberá reinventar-se para continuar a sê-lo.
No estudo “Imprensa Regional: O Jornalismo de Proximidade em Portugal na Era Digital”, da autoria de Paulo Monteiro, da Universidade Católica, é dito que a sobrevivência dos jornais locais dependerá da sua capacidade de se adaptarem tecnologicamente sem perderem a sua essência, ou seja, a proximidade, assunto que já aqui abordei há uns artigos atrás. A tecnologia, por si só, não salvará a imprensa regional. Mas pode ajudá-la a reencontrar o seu público e o seu propósito, se for usada com inteligência, propósito e ética.
Daqui a 20 anos, estou em crer que a imprensa regional será inevitavelmente digital. As redações serão pequenas, mas mais colaborativas e tecnológicas. A inteligência artificial ajudará a recolher dados, a personalizar conteúdos e a otimizar alguns processos. No entanto, continuará a ser o olhar humano que fará a diferença. O olhar que escuta, interpreta e dá sentido. O jornalismo é, e continuará a ser, uma atividade humana. Ponto.
Os modelos de negócio também mudarão. As assinaturas digitais substituirão as vendas em papel. O papel será um nicho. A publicidade local migrará para plataformas online. Surgirão novas formas de financiamento, como o crowdfunding, os eventos, as parcerias e até cooperativas de leitores. Mas nenhuma inovação técnica será suficiente se faltar o essencial, que é a relevância, a confiança e a comunidade.
E há ainda a questão da identidade. A imprensa regional é, há décadas, um espelho do território e das suas gentes. Conta o que acontece, mas também o que somos. É memória coletiva. É pertença. É raiz. Num tempo globalizado, em que tudo tende a parecer igual, os jornais locais preservam o que é único, este sentido de lugar. E sem esse sentido, também a democracia perde chão.
A imprensa regional que resistir será aquela que souber combinar tecnologia com identidade. Que use as redes sociais não apenas para divulgar, mas para dialogar. Que aposte em formatos multimédia sem abdicar do rigor. Que se mantenha próxima, mesmo num mundo cada vez mais distante.
O futuro da imprensa regional não será o regresso ao passado, mas a reinvenção do seu papel, que continua a ser o de contar o que somos, onde estamos e para onde queremos ir.

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