Um médico das Caldas na Grande Guerra

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Fotografia de Fernando da Silva Correia
Fotografia de Fernando da Silva Correia, militares portugueses posando junto a um comboio. Do álbum “Na frente de Champagne - Aire-sur-la Lys - Boulogne e Calais”.

No passado dia 9 de Abril de 2018, assinalaram-se os cem anos da Batalha de La Lys, aquela que maior número de militares portugueses vitimou durante a Primeira Guerra Mundial. Constituindo esta batalha um dos assuntos mais polémicos da participação portuguesa no conflito, e tendo o Doutor Fernando da Silva Correia escrito sobre ela, a melhor forma de conhecer a sua perspectiva é recorrendo às suas próprias palavras.
Na edição de 9 de Abril de 1926 da Gazeta das Caldas, numa notícia com o título “O 9 de Abril após a Guerra”, o autor mostrou como os “antigos combatentes” celebravam “a realização do esforço máximo a que foi obrigado o nosso exercito em França.”
Para o Doutor Fernando da Silva Correia era necessário “comemorar” La Lys (como comumente é referida a batalha), em que o Capitão Roma, o Capelão Padre Lopes de Melo, o Tenente medico António Zúquete e “tantos e tantos outros heróis houve”.
“Nas Caldas também ha alguns herois. Não foram esses, é certo, que ganharam para o seu estandarte municipal a Torre e Espada. Mas o seu esforço, modesto e obscuro, foi desinteressado e digno, com os olhos postos na Patria. Algumas cruzes de guerra atestam o que fizeram. Alguns oficiais e sargentos do Regimento de Infantaria 5 merecem as homenagens de todos os caldenses no dia 9 de Abril. Alguns paisanos que na guerra se distinguiram egualmente as merecem. Os herois com quem nos encontramos dia a dia, falando a nossa linguagem, tendo a vida vulgar, perdem assim o nimbo que só a ausencia e a morte iluminam. Pois bem, eu venho hoje trazer a minha homenagem a todos eles e vou distinguir um, precisamente o mais humilde. O modesto capataz de manobras da estação do Caminho de Ferro, Francisco Sertorio dos Santos, é esse heroe. Tem a cruz de guerra portugueza, a medalha militar inglesa, a medalha de Leopoldo II da Belgica e a Fourragère da Torre Espada.”
Conta como este segundo-cabo, incumbido de “reconstruir uma linha férrea destinada á passagem de tropas de reforço”, trabalhou ininterruptamente, enquanto “as granadas inimigas destruíram mais duma vez o seu trabalho”, o que permitiu o término da linha. “Muito simples de contar, mas no tempo dessa guerra, no meio dum bombardeamento continuo, era mais difícil cumprir o seu dever do que na comodidade da nossa casa, agora que a guerra já lá vai ha 8 anos.”
Joana Beato Ribeiro