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Guardiões da Memória

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

“Os moleiros são, de facto, os guardiões da memória”. Esta é uma das ideias que encerra o documentário “Por terras de moleiros”, realizado pelo Geoparque Oeste e apresentado no CCC no passado dia 25 de junho. Após o seu visionamento e já concluída a (breve) formação “Escola de Moleiros”, fiquei com mais certezas sobre a situação atual dos moinhos no Oeste: é, em simultâneo, boa e má.
Nas Caldas da Rainha, a ausência dos seus moinhos e moleiros no documentário, assume, para mim, um carácter sintomático de uma desvalorização, somente contrariada por casos singulares, como o Moinho das Boisias, em Alvorninha. Parece-me igualmente sintomático, que, apesar do título do documentário, a “Escola de Moleiros” tenha ficado envolta nalguma névoa, perante as delícias da padaria que saboreámos. Alegra-me, no entanto, que este documentário, com imagem e testemunhos magníficos, tenha deixado irrevogável nota do valor patrimonial dos moinhos do Oeste e do saber único e complexo dos moleiros.
Com os seus testemunhos relacionei a reflexão de Didier Eribon sobre “destino social”, ficando claro que o dos moleiros era, sem sombra de dúvida, de pobreza. Hoje, estes negócios de família estão à mercê de demasiados fatores e nem sempre a preservação do saber-fazer ou da história têm entrado na equação. Concordo plenamente que nem todos os moinhos se podem manter (exclusivamente) dedicados à moagem, mas poderiam aliar um projeto pedagógico, que mostrasse às gerações futuras o peso deste ofício na paisagem e na vivência de um oeste que a carolice de alguns não quer deixar desaparecer.
Entre estes, não encontro o meu avô Francisco, que poderia ter feito muito mais pelo seu ofício e paixão, mas dele aproximo a moleira que mais admiro, a Fátima Nunes do Moinho do Boneco. Ambos asmáticos, envidaram esforços para continuar uma tradição familiar, ainda que a Fátima tenha levado mais longe a sua valorização. A ela e aos restantes formadores, em especial, ao Francisco Jacinto e ao Jorge Martins, expresso a minha profunda admiração e deixo publicamente o meu agradecimento em nome de todo o Oeste.
O meu colega Frank sugeriu uma pergunta profunda na nossa última sessão: “em quem me tornei?” Não se referia ao curso, mas se assim fosse, eu responderia: tornei-me aspirante a moleira. Moleira será certamente impossível, mas hoje vejo -não olho – as nuvens, sinto a direção do vento, avalio a dimensão de uma vara, os dentes de uma entrosga, os fúseis de um carreto e sei qual o toque do cabresto, do sarilho e da farinha. Não esquecerei rapidamente o som do cadelo a correr a mó em andamento, a adrenalina de apanhar um moinho e, como me aconteceu, arrancar uma jarra ou ainda o cheiro, único e já tão longínquo na minha infância, da farinha de milho a ser ensacada, que reavivei na Moagem do Sr. Joaquim Constantino. Obrigado pela experiência única, por ter feito convosco o que gostaria de ter feito com o meu avô, por esse Oeste fora!
Que o “destino social” não retire aos moleiros o seu papel de guardiões, porque, de outra forma, como se preserva (est)a memória que apela aos cinco sentidos? 

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Edição #5650

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