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Arquivar um “remédio” para as Caldas

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

Remédio para uma das “causas do mal” caldense, assim apresentou Fernando da Silva Correia a Misericórdia na Gazeta em 1927. A partir desse artigo, sabemos que a Comissão Municipal de Assistência decidira pôr cobro ao problema da mendicidade, desviando da “esmola colectiva” e “tirando dessa penuria e desse espectaculo os pobresinhos que, em magotes, aos sábados” se arrastavam pela cidade. Para tal, organizou duas subcomissões: uma encarregada de elaborar o cadastro dos “indigentes” e “necessitados”, composta pelo Tenente Mendes de Nazaré, o Engenheiro Martins Pereira e João Montez; outra para planear a “organização da assistência”, a que pertenciam Rui Forsado e os médicos Francisco Henriques de Avelar e Fernando da Silva Correia.
Nessa primeira reunião, participaram vários membros da Comissão de Assistência, podendo ser nomeados, além dos já mencionados, José Saudade e Silva, Júlio Lopes, Emídio de Jesus Coelho, João Martins e José Gomes, sendo presidente o Coronel Soeiro de Brito. Conhecer estes nomes não me parece de somenos, pois a identidade também se baseia na memória das pessoas e dos seus contributos para a comunidade. E quando temos por base a leitura e análise dos documentos, posteriormente apresentados como conhecimento pelos historiadores, é bem mais fácil nomear os principais responsáveis pela cidade tal como a conhecemos. Ou não celebrasse este ano a Misericórdia caldense, saída do labor, do empenho e da dedicação de alguns destes homens (e também mulheres, menos nomeadas, mas presentes), 98 anos de existência.
Ainda que o arquivo da Misericórdia não seja uma total novidade nestas crónicas, desta vez trago-o para vos falar da ação da sua Comissão Instaladora, em jeito de homenagem e para dar testemunho desta necessidade de personalizar um momento crucial da vida caldense: a sua afirmação como cidade.
Em fevereiro de 1928, reunidas estas subcomissões, foi aprovado o projeto de estatutos, tomando posse a Comissão Instaladora. Esta, ainda nesse mês, discutiu a criação de uma Junta de Inspeção aos necessitados da qual Fernando da Silva Correia foi responsável (não esqueçamos que era delegado de saúde) e João Montez ficou encarregue de encontrar uma casa para refeitório dos pobres. Em março, essa Junta inspecionou 36 das 108 pessoas incluídas no cadastro dos mendigos, incapacitados de trabalhar (idosos ou não).
A crescente inscrição de sócios justifica que a abertura da época termal fosse acompanhada da inauguração do refeitório da Misericórdia, instalado provisoriamente no Hospital de Santo Isidoro, tendo colaborado com a iniciativa os funcionários dessa instituição e sido utilizado um fogão cedido por José Paulo Santos. No próprio dia 15 de maio, a título de exemplo, o almoço foi sopa de feijão e arroz com peixe frito.
A primeira Assembleia da Misericórdia ocorreu em julho de 1928, depois de aprovado o seu compromisso, passando a existir corpos gerentes, que deram continuidade à ação desta Comissão até hoje. Numa cidade de interesse turístico e recém-criada, a Comissão Instaladora efetivou uma ideia antiga, numa altura em que, atravessando uma crise financeira generalizada, a realização do I Congresso das Misericórdias (1924), começa a renovar o papel assistencial que readquiririam durante o Estado Novo. Como escreveu Pires Machado, neste jornal, “Aperfeiçoemo-nos moralmente pelo exercicio do bem (…) a felicidade está ali.” ■

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