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O Mar também pode ser Caminho

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António José Correia
Ex-Autarca

Escrevo-vos de Matosinhos, em pleno Dia Mundial dos Oceanos.
Foi aqui que a frota do Caminho Português de Santiago à Vela chegou após percorrer grande parte da costa portuguesa. Trata-se da segunda edição deste itinerário marítimo dos Caminhos de Santiago, depois da edição inaugural realizada em 2022. O projeto resulta de uma parceria entre a Rede das Estações Náuticas de Portugal/Fórum Oceano e a ANC – Associação Nacional de Cruzeiros, envolvendo as estações náuticas costeiras ao longo do percurso. A edição de 2026 reúne 18 veleiros e cerca de 80 nautas-peregrinos, que partiram da Estação Náutica de Vilamoura rumo à Galiza. Mais do que uma viagem marítima, este é um caminho de encontro entre territórios, comunidades e pessoas ligadas ao mar.
O Dia Nacional do Pescador, assinalado a 31 de maio, foi vivido no mar. A frota largou muito cedo da Estação Náutica de Cascais e chegou ao Porto da Nazaré já ao final da tarde. A receção preparada pela Estação Náutica do Oeste foi memorável. Com o envolvimento da Comunidade Intermunicipal do Oeste, do Município da Nazaré, do Clube Naval da Nazaré e de diversos parceiros, os nautas-peregrinos puderam conhecer alguns dos sabores mais genuínos da nossa região. A sardinha assada e uma rica sopa de peixe, preparada com a colaboração da Docapesca, foram protagonistas de um jantar de convívio que celebrou o mar, os pescadores e a hospitalidade das comunidades costeiras.
Mas a passagem pelo Oeste foi muito mais do que gastronomia.
Os participantes visitaram o Forte de São Miguel Arcanjo, espaço onde se cruzam história, espiritualidade, património e surf. Através do Centro Interpretativo ali instalado, ficaram a conhecer melhor o fenómeno das ondas gigantes da Nazaré e o trabalho científico associado ao Canhão da Nazaré. No dia seguinte, Dia Mundial da Criança, a praia da Nazaré acolheu atividades de sensibilização para a literacia do oceano. Foi particularmente gratificante ver crianças e nautas-peregrinos partilharem experiências e refletirem sobre a importância de conhecer, respeitar e proteger o mar. Afinal, o futuro do oceano começa também na educação das novas gerações.
Ainda na Nazaré, a AIFE promoveu uma ação de capacitação em segurança marítima através de um simulacro de salvamento com participação dos próprios nautas-peregrinos.
Ao longo da viagem, o calendário pareceu navegar connosco. Celebrámos o Dia Nacional do Pescador no mar, rumo à Nazaré. Vivemos o Dia Mundial da Criança na praia da Nazaré. Assinalámos o Dia Mundial do Ambiente na Ria de Aveiro. E chegámos a Matosinhos em pleno Dia Mundial dos Oceanos.
Quatro datas. Quatro mensagens. Um único mar.
Por isso, associámos também esta edição do Caminho à sensibilização para a sustentabilidade dos oceanos e para a valorização da água. Contámos com o envolvimento de várias entidades gestoras de sistemas de abastecimento, – Águas do Algarve, EPAL e Águas do Tejo Atlântico -recordando que a qualidade da água que consumimos todos os dias está intimamente ligada à qualidade dos rios, dos estuários e do oceano.
Hoje, ainda, a frota seguirá para Viana do Castelo e depois para a Galiza. No final, os nautas-peregrinos percorrerão ainda os últimos quilómetros a pé até Santiago de Compostela. Aqueles que comprovarem pelo menos 100 milhas náuticas navegadas e cinco quilómetros percorridos a pé poderão receber a tradicional Compostela.
Entre Vilamoura e Santiago navega-se por mar. Mas navega-se também por valores: cooperação, sustentabilidade, segurança, cultura, amizade e espiritualidade.
Porque o mar também pode ser caminho. ■

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