
Por Jorge Mangorrinha
Está iminente a demolição do antigo posto de combustível no lugar de São Cristóvão, no limite do concelho das Caldas da Rainha. A cidade conheceu forte desenvolvimento nas décadas de 40–60, pelo que este posto, agora encerrado, se integra no território ligado às antigas Estradas Nacionais e ao crescimento rodoviário. A sua implantação reflete a lógica típica da época, ou seja, o recuo em relação à via pública, uma área de manobra e a presença destacada na paisagem.
Os antigos postos de combustível apresentam características arquitetónicas e simbólicas muito próprias, refletindo a ideologia nacionalista e a estética oficial da época. Durante o Estado Novo, o combustível era estratégico para o desenvolvimento industrial e para a mobilidade crescente. Empresas como a SACOR (Sociedade Anónima Concessionária de Refinação de Petróleos em Portugal), fundada em 1937, tiveram papel central na distribuição de combustíveis. O regime valorizava a ordem, a autoridade e a identidade nacional, valores estes que também se refletiam na arquitetura pública e comercial.
Os postos combinavam linhas simples e geométricas (influência modernista) ou elementos do estilo “Português Suave” promovido pelo regime (uso de azulejos, telhados tradicionais, galo em ferro no topo do telhado, esculturas). Este posto nas Caldas da Rainha inclui-se na segunda das vertentes estéticas, incluindo uma área para restaurante. Na sua dimensão simbólica, os postos não eram apenas funcionais, porque representavam modernidade e progresso tecnológico, expressavam controlo estatal indireto sobre setores estratégicos e integravam a estética disciplinada e nacionalista do regime. A imagem transmitia estabilidade, ordem e eficiência — conceitos centrais do Estado Novo.
Alguns postos da antiga SACOR e de outras companhias sobreviveram, embora muitos tenham sido demolidos ou adaptados. Após o 25 de Abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, várias infraestruturas foram nacionalizadas e mais tarde integradas na Galp Energia.
À escala europeia em regimes autoritários ocidentais, enquanto Portugal adotou uma estética mais discreta e tradicionalista, Espanha privilegiou uma imagem mais institucional e a Itália destacou-se pela vanguarda arquitetónica e experimentalismo.
Concluindo, nesse tempo, os postos eram pensados como pequenas “estações de modernidade” integradas na paisagem urbana ou nas novas estradas nacionais. Vários destes edifícios perderam a função original, mas este que refiro manteve-se, embora pouco cuidado. Presentemente, são estudados como exemplos de arquitetura utilitária do século XX, expressões da estética oficial do regime, marcos da modernização rodoviária portuguesa, embora raramente classificados.
Urge que a Câmara Municipal das Caldas da Rainha analise este caso como mais uma iminente perda patrimonial e se entenda com o proprietário, a quem eu transmiti este meu ponto de vista aquando do meu exercício de vereador (2001-2005), dando uma perspetiva diferente de intervenção no local. E a casa não veio abaixo.












