
David Vieira
Técnico de Comunicação
A imprensa regional vive um dos momentos mais decisivos da sua história. A transição digital, que há poucos anos parecia apenas uma tendência, é hoje uma condição de sobrevivência.
E, como em todas as transições, há quem a veja como uma ameaça e quem a encare como uma oportunidade. Eu prefiro vê-la como um desafio, daqueles que exigem coragem. Visão. Sentido de missão.
O jornalismo de proximidade, que aqui já falei e que tem sido a espinha dorsal da democracia local, enfrenta hoje uma dupla pressão: a tecnológica e a económica. Por um lado, os hábitos de leitura mudaram, o público migrou para os ecrãs e a economia da atenção tornou-se um bem essencial em si mesmo. Por outro, os modelos tradicionais de receita, como a publicidade e a venda em papel, estão em queda acentuada. Mas o problema não está apenas na tecnologia. Está na forma como a usamos, na forma como nos adaptamos e na forma como comunicamos com os leitores.
Pedro Jerónimo e Hélder Bastos, da Universidade do Porto, num estudo sobre “Jornalismo de proximidade em transição para a Internet”, explicam que os primeiros jornais regionais portugueses a chegar à Internet limitaram-se, na sua maioria, a replicar a edição impressa. O potencial interativo, multimédia e participativo da rede foi, durante anos, subaproveitado. A transição digital ficou muitas vezes pela superfície. Mudou o suporte, mas não mudou o paradigma. É como colocar o jornal de sempre dentro de um ecrã, mais leve, mas igual.
Hoje, penso que o desafio é outro. A digitalização não pode ser apenas técnica. Tem de ser cultural. Tem de passar por novas linguagens, por formatos mais próximos das pessoas, por estratégias que liguem o jornal ao território também no digital. O leitor quer sentir-se parte, quer poder comentar, participar, sugerir temas. A Internet oferece essa possibilidade. A questão é se estamos dispostos a escutar.
A transição digital pode ser uma ameaça, sim, para quem não muda. Mas é também uma oportunidade única de renovar a relação com o leitor, de chegar a novos públicos, de rejuvenescer equipas e de repensar o modelo de negócio. A tecnologia pode ser aliada, desde que esteja ao serviço do jornalismo e não o contrário.
A imprensa regional tem de continuar a fazer o que sempre fez melhor, que é contar histórias próximas com verdade, rigor e independência. Só que agora fá-lo num novo espaço, mais rápido, mais imprevisível, mas também mais livre.
A mudança é inevitável. O que não é inevitável é desistir de acompanhar o tempo.
Força.










