
Caldense fez síntese sobre a Revolução, tema que continua a interessar a investigadores nacionais e estrangeiros. Na edição bilingue onde se conta como foi o início da Democracia, dá-se a conhecer o 16 de março. Obra é apresentada no próximo domingo, 26 de abril, às 17h00, no Céu de Vidro
O historiador Luís Nuno Rodrigues acaba de lançar “Brevíssima História sobre a Revolução dos Cravos”, onde sintetiza os factos sobre a Revolução. E nesta obra destaca-se um dos aspetos que muito contribuiu para o desenrolar dos acontecimentos e que foi a enorme participação cívica. Durante muito tempo, a história do 25 de Abril “foi contada de cima para baixo”, disse o historiador. Só que, nos últimos anos, “a investigação académica tem sublinhado a importância dessa dimensão popular a nível urbano e rural”.
“A população tinha acumulado tensão ao longo dos anos da ditadura e, como tal, na revolução registou-se uma explosão de ativismo”, disse o investigador relembrando que no 25 de Abril se notou grande mobilização da população em ações nas ruas, nos campos nas fábricas e nas escolas. Houve ainda, nas primeiras eleições, uma votação inequívoca pois “mais de 90% dos eleitores foram votar num ato de grande participação cívica, tal como se voltou a repetir no ano seguinte”, destacou o professor catedrático do ISCTE.
Apesar de ser uma síntese, não faltam explicações sobre o que foi o Movimento dos Capitães e a descrição de como se vivia no país antes da Revolução. “Era um Portugal de um só partido, de rejeição da democracia e falta de respeito pelos direitos fundamentais”. Para o autor vivia-se uma grande repressão da qual resultaram “dezenas de mortos e mais de 30 mil presos políticos”.
Luís Nuno Rodrigues explicou que o que se vai passar por terras lusas, entre 1974 e 1976 “é uma verdadeira disputa pelo futuro político do país”.
Logo após a Revolução “não era linear que resultasse num regime de democracia representativa como aquele que temos hoje”. Havia quem queria regressar ao dia 24 de abril, outros que se inspiravam nos modelos da Europa de Leste e da União Soviética e até quem queria um regime presidencialista centralizado como foi a figura do general Spínola. “Não havia unanimidade no país e, por isso, o processo não foi linear”, disse o historiador.
Ao fim de dois anos, com a Constituição, a visão que triunfa para o futuro da sociedade portuguesa foi a da democracia representativa e que se que se mantém até hoje”.
Entre os fatores que contribuíram para tal desfecho conta-se o contexto internacional pois vivia-se a Guerra Fria, tempos marcados pela rivalidade entre os EUA e a União Soviética. Só que a Revolução dos Cravos ocorre num momento muito particular deste conflito – na chamada détente, isto é, no desanuviamento, da tensão. É também um período marcado por uma certa aproximação entre as duas metades da Europa. Este clima retirou o ímpeto de qualquer tentativa de intervir em Portugal. O investigador considera que os modelos teóricos que defendiam não encaixavam em terras lusas, isto é, “Portugal não iria ser nem um Chile nem uma Cuba”. E quem vai assumir maior protagonismo nesta altura são os países da Europa Ocidental. “Estes perceberam o que estava em jogo em Portugal e foram concedendo apoios para a normalização e evolução do país para um sistema de democracia representativa tal como existia nos seus países.
“E não era apenas Portugal pois as ditaduras de Espanha e da Grécia também tinham os seus dias contados”, disse o autor acrescentando que o que acontecesse por terras lusas poderia condicionar a evolução das situações naqueles dois países.
Neste livro síntese também se dá a palavra às dimensões militar e política. Luís Nuno Rodrigues destaca que “os primeiros tiveram a coragem e são eles que continuam a conduzir o processo, apesar de também se encontrarem divididos”.Também os partidos políticos passam a ter grande importância e a cena política é também marcada pelo regresso de lideres como Mário Soares e de Álvaro Cunhal do exílio.
Forma-se então o PPD/PSD e todos vivem dias de captar militantes, redigir os programas e fazer os seus primeiros congressos. A narrativa da transição para a democracia ainda terá mais um momento, o do 25 novembro que para o investigador “é relevante mas não é de todo equivalente à Revolução”.
E nesta obra, também traduzida para inglês, não falta menção ao 16 de março, momento que o historiador também inclui nesta sua obra síntese e nela conta o que se passou nesse dia “na nossa cidade”. É um acontecimento que Luís Nuno conhece bem e que já escreveu sobre o momento quando fez a biografia do General Spínola. Tratou-se de “uma saída em falso de uma parte do MFA – dos setores mais ligados ao general Spínola – e que procuraram antecipar-se ao resto do movimento”. Os militares tentaram que o golpe tivesse um pendor mais spinolista mas não foram acompanhados… Os militares do RI5 acabaram cercados pelas forças do governo e acabariam presos. De qualquer forma, para o académico, “foi um momento importante “pois serviu para os militares do MFA “perceberem que precisavam de um planeamento e de uma organização mais eficaz”. Trabalho este que foi feito nas semanas seguintes e que praticamente não teve qualquer resistência e conduziu à Liberdade.
Este livro, um desafio proposto ao autor pela editora Tinta de China, para celebrar o 52º aniversário da Revolução tem outro objetivo: de chegar aos jovens que queiram saber mais sobre os acontecimentos. “Hoje em dia quem tem 50 anos já nasceu após 25 de Abril”, relembrou o autor.
Já a edição em inglês quer chegar ao público internacional. “A Revolução Portuguesa teve muito impacto na diplomacia, nos governos e nos meios de comunicação social”, disse o historiador que ainda lembrou que houve muita gente entre europeus, brasileiros, americanos e norte-americanos que quis vir a Portugal, naquela altura, para viver “uma espécie de turismo revolucionário”.
A obra dirige-se também para quem visita hoje o Quartel do Carmo “e que nota que ali se passou algo”. Desta forma, turistas curiosos poderão beneficiar de uma síntese dos acontecimentos, fundamentada em estudos académicos e que permite perceber melhor o que se passou em Portugal em 1974 e 75.
Luís Nuno Rodrigues referiu também o cientista político, Samuel Huntington que diz que a Revolução Portuguesa foi a que permitiu a terceira grande vaga de democratização do mundo. Depois de Portugal, as revoluções prolongaram-se pela Europa do Sul depois continuaram na década seguinte na América Latina e a partir dos anos 80 na Europa de Leste. “São 15 a 20 anos muito marcados por esse acontecimento inaugural que é a Revolução portuguesa. A sua dimensão pacífica também é salientada, comparativamente a outros processos revolucionários”, disse o caldense.
A obra que o autor pretendeu que fosse acessível mas baseada nos últimos estudos académicos ainda inclui os antecedentes da Revolução, bem como os dois anos que se seguem até à aprovação da Constituição que acontece em abril de 1976.
Este livro foi apresentado a 20 de abril, no ISCTE, por Helena Carreiras, a investigadora e reitora daquela universidade e por Inácia Rezola, a responsável pelas celebrações dos 50 anos da Revolução. A 24 de abril “Brevíssima História sobre a Revolução dos Cravos” foi debatida na Fnac do Chiado e, no próximo domingo, dia 26 de abril, às 17h00, será apresentada na terra natal do historiador. A apresentação decorrerá no Céu de Vidro, no Parque D. Carlos.












