É com um editorial em grande destaque com a linguagem da época, na primeira página da edição de 25 de maio de 1974, que é dada a notícia de uma das primeiras alterações na grande mudança que se viveu na Gazeta das Caldas. A tal mudança de que temos vindo a falar e que permitiu ao jornal viver em Liberdade nos últimos 50 anos.
“Como oportunamente foi noticiado, é outra a Direcção e outro o Corpo Redactorial da Gazeta“, lê-se. “Tem sido sobejamente repetido que a queda do regime fascista não implica o aniquilamento da mentalidade por ele construída. Muitos de nós fomos criados vendo, ouvindo e lendo apenas uma versão da realidade – a que convinha ao regime, que nem sempre (ou quase nunca!…) servia os interesses do Povo Português”, acrescentam. “Propomo-nos mostrar a realidade em todas as suas dimensões em ordem a formar pessoas que saibam fazer, honesta e conscientemente as opções, a vários níveis, que lhes permitam viver livres”, explicam, esclarecendo que “a este jornal interessam os problemas urgentes das populações de todo o Concelho e não apenas da cidade. É urgente que nos debrucemos sobre os problemas das nossas aldeias que, até agora, têm sido praticamente esquecidos! Recebemos a colaboração efetiva ou simples opiniões de pessoas de todas as ideologias desde que interessadas no esclarecimento honesto da população”.
SUBSTITUIÇÃO DO DIRETOR
Na edição anterior de 22 de maio havia sido noticiada a “substituição do Director”, informando que “o actual director deste jornal pediu a exoneração do seu cargo à Empresa Gazeta das Caldas, Lda proprietária do periódico”. Recorde-se que a Cooperativa Editorial Caldense, que hoje detém o jornal, obviamente, ainda não existia. É uma filha da Liberdade.
“A empresa convidou Adérito da Silva Vieira Amora para dirigir o jornal, tendo sido aceite o convite. A transmissão de funções efectuou-se ontem. Assim, a partir de agora Gazeta das Caldas tem novo director, de cuja responsabilidade é já a próxima edição”.
CAMINHO PARA A PAZ

“25 de Maio de 1974 é para portugueses e guinéus um dia de esperança: esperança de que o diálogo franco e sereno fará calar de uma vez para sempre, o fogo das armas na martirizada Guiné. A guerra que os fascistas portugueses provocaram é não só injusta como insensata. Injusta porque combate o direito do povo guinéu à autodeterminação e independência – que aliás lhe é reconhecida internacionalmente e por largas correntes políticas portuguesas. É uma guerra insensata porque após 13 anos de luta acesa só um obcecado não percebe que nenhuma solução militar existe para o conflito. Os fascistas provocaram a guerra ao recusarem o diálogo desde o início oferecido pelo P. A.I.G. C.- (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) Portugal libertado terminá-la-á com o franco e honesto diálogo com os dignos representantes do povo da Guiné. Como pano de fundo destas negociações temos: a declaração unilateral da independência dos nacionalistas africanos, em Setembro de 1973, reconhecida já «de direito» por mais de 80 países. A decisão de Portugal de conseguir realmente a paz, reconhecendo o direito de autodeterminação e independência a todos os povos; maciças manifestações na Guiné e em Cabo Verde, de apoio ao P. A. I. G. C.; declaração publicada na quarta-feira num vespertino emanada de soldados portugueses na Guiné exigindo o fim imediato da guerra”, lê-se no artigo que termina com a seguinte questão: 25 de Maio de 1974: um dia de esperança; 25 de Maio de 1975: um dia de festa?”
OS OBJETIVOS DO MDP

“1. O Movimento Democrático Português que assenta fundamentalmente na unidade da acção de democratas de várias tendências tem como uma das preocupações principais reforçar a sua capacidade de mobilizar e de se projectar sobre as mais largas camadas da nossa população.
2. O Movimento Democrático Português, como aliás o demonstrou largamente durante a vigência do regime fascista, tem importante papel a desempenhar em vários planos: a) – Como factor de aglutinação dos antifascistas de várias tendências ou sem tendência definida, unido: no objectivo comum de construir uma sociedade verdadeiramente democrática; b) Como instrumento de politização e organização de portugueses, a quem o fascismo impediu o exercício dos direitos de cidadania e de participação na vida política; c) como meio de preparação e intervenção dos cidadãos nos diversos sectores da vida pública nacional por forma a assegurar a uma efectiva participação na constituição no aparelho de estado democrático; d) embora não constituindo um partido nem uma plataforma ou frente acordada entre as diversas tendências ou partidos, cabe ao Movimento Democrático Português um papel fundamental no reforço da unidade anti-fascista, condição básica para o triunfo definitivo e irreversível sobre o fascismo e para a instauração duma sociedade democrática.
3. O Movimento Democrático Português tem como objectivos imediatos de acção: a) – O desmantelamento do aparelho de estado fascista; b) – A defesa e consolidação das liberdades democráticas; c) – A luta pelo fim da guerra colonial e pela abertura de negociações com os movimentos de libertação na base do reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e independência; d) A luta pela efectiva elevação do nível e das condições de vida do povo português, em especial das camadas trabalhadoras, combatendo o domínio dos monopólios, a submissão ao imperialismo e pela independência nacional.
4. A luta em torno desses objectivos deverá ser conduzida por forma a assegurar a dinamização do processo democrático e a participação activa dos portugueses na construção de uma sociedade, através de uma intervenção cada vez mais ampla, mais consciente e mais organizada dos cidadãos na vida do país. 5. A destruição do aparelho fascista e a construção de uma sociedade democrática devem ser asseguradas através de uma cooperação efectiva sobre diversas formas entre as forças democráticas e o Movimento das Forças Armadas. Essa cooperação, que é garantia da completa destruição do aparelho fascista e dos focos contrarevolucionários deve revestir diversas formas, nomeadamente na consolidação das liberdades e no reforço da vigilância democrática e popular.
O MDP informa que no próximo domingo, efectua-se uma reunião na freguesia do Landal pelas 15.30 horas à qual pede a comparência de todos os habitantes da referida freguesia. Idêntica reunião se realiza no mesmo dia pelas 21.30 no Salão Paroquial de Salir de Matos. O Movimento Democrático Português, informa a população de Caldas da Rainha, que a sua sede funciona na Travessa da Cruz Nova, 10-2º onde se poderão reunir todos os democratas desta cidade”.
O ENSINO

PLENÁRIO NA PRAÇA DE TOUROS

A VIDA SINDICAL
Por esta altura, no primeiro mês pós-Revolução dos Cravos, encontramos intensa atividade sindical, espelhada nas páginas da Gazeta.

Lemos também que “na reunião de 22 do corrente, os Caixeiros dos Armazéns de Produtos Químicos e Farmacêuticos do Distrito de Leiria decidiram por unanimidade: «Adesão incondicional à movimentação efectuada pelos Caixeiros de Lisboa. Foi decidido que no sábado, dia 25 de Maio, começariam a praticar a «semana americana de 40 horas, independentemente das decisões anteriormente tomadas pelo Sindicato dos Caixeiros de Lisboa e Grémio dos Armazenistas dos Produtos Químicos e Farmacêuticos do Sul, que defendiam à semana americana de 42,5 h, a começar em 1 de Junho” e que “os Cabeleireiros do concelho de Caldas da Rainha, reunidos em Assembleia no Grémio do Comércio, decidiram encerrar aos sábados a partir das 13 horas. Esta decisão entra em vigor já no dia 25 de Maio”.

Ainda neste tema, o jornal anuncia uma “Conversa sobre Sindicalismo”, orientada pelo bancário Daniel Cabrita, a realizar às 21h30 do dia 27 de maio, no Teatro Pinheiro Chagas.
NÃO COMA A EMBALAGEM
“Não coma a embalagem” é o título de um interessante artigo bem da época publicado no dia 25. “Minha Senhora, estamos num grande e “bom” supermercado. Será indiscrição fazermos-lhe uma pergunta?
-Que pensa deste ou daquele produto com que nos martirizam de manhã à noite com dezenas de reclames?
A Senhora dirá: É muito cremoso, barra-se muito bem e tem uma embalagem muito prática.
Quem não conheça este novo e maravilhoso produto poderá até pensar tratar-se duma nova massa lubrificante.
Mas não, para esses, nós esclarecemos: Trata-se de um produto para as pessoas comerem.
É realmente de admirar que haja quem o confunda com coisas que não são para as pessoas comerem.
Ou não serão as embalagens e a cremosidade as propriedades mais importantes dos alimentos? (Há até quem coma a embalagem).
Ou não serão os reclames os primeiros a indicarem-nos aquilo que devemos comer, beber, fumar, etc?
E no novo dicionário especialmente criado por essas empresas encontramos: Devemos quer dizer que: devemos mesmo, somos obrigados a senão muito simplesmente, eles mudam de reclame, que é o mesmo que dizer: mudam de táctica para nos impingirem esses mesmos produtos.
E quem não conhece essas tácticas? Desde aqueles que nos dizem que os homens másculos e dinâmicos só fumam isto, bebem aquilo, usam este ou aquele creme de barbear ou têm um bruto carro de marca X, e aproveitam para tal figuras populares entre nós cujos interesses estão longe, tão longe dos nossos.
Até àqueles que exploram a sensibilidade da mulher como mãe dizendo-lhe, (mentindo-lhe) que este ou aquele produto é o melhor para a sua família apenas porque é o mais saboroso.
Ou ainda aqueles que nos convencem que os comprimidos é que curam as dores, habituando as pessoas apenas a aliviar as dores e a consumir cada vez mais comprimidos na mira de curarem os seus males.
E quem não conhece a táctica de nos deixarem na incógnita durante muito tempo para só nos dizerem de que artigo se trata depois de toda a gente andar a falar do assunto.
Conclusão lógica e evidente a tirar: O que lhes interessa é que consumamos cada vez mais e mais, criando a cada passo novos produtos que não faziam falta nenhuma antes de existirem, mas que depois entram na vida das pessoas, e passaram a ser de primeira necessidade.
Fazem mal? Não interessa.
Poluem os rios, os mares e a atmosfera? Não faz mal.
Dão lucro? À isso sim. Isso é verdadeiramente importante.
Primeiro eles, depois eles, e só depois eles. Sim, porque carga d’água é que a seguir viriam os interesses do público?”, questiona.

Para a semana trazemos mais artigos Escritos a Chumbo, até lá!













