
Durante mais de 20 anos Heraldo Maurício trouxe combustíveis do Golfo Pérsico
Nas Caldas mora alguém que durante duas décadas se dedicou a transportar petróleo do Golfo Pérsico. Falámos com Heraldo Maurício Baptista, que nos contou como é o Estreito de Ormuz, recordando o seu trajeto de vida.
Nascido em 1933, no Algarve, foi para Lisboa com 14 anos. “Fiz o curso industrial na escola Machado Castro e comecei a trabalhar nos estaleiros navais Parry & Son”, nas docas secas em Cacilhas. Depois casou, foi para a tropa (no Trem Auto, “que já cá estava aquela coisa dos motores”) e, no final do serviço militar, regressou aos estaleiros. Fez o exame de motorista de navios e foi trabalhar a dirigir os ferries entre Cacilhas e Lisboa. “Os ferries eram de hora a hora”, conta, frisando que “na altura ainda não havia a ponte” 25 de Abril, inaugurada em 1966. “Havia sempre um barco que ficava de serviço em Cacilhas durante a noite e eu fiquei lá várias vezes”, nota, esclarecendo que este garantia resposta às emergências, como trazer ambulâncias para Lisboa.
Depois foi para a Escola Náutica tirar o curso de Máquinas, embarcando logo de seguida, no início da sua aventura na Soponata, empresa que se dedicava ao transporte de combustíveis e que tinha mais de uma dezena de navios tanque. Começou como praticante, “que só fui um mês”, em 1961, e foi subindo, até chegar a chefe de máquinas, dez anos depois. Durante mais de uma década foi essa a sua função, reformando-se aos 53 anos, em 1981.
Este algarvio andou em quase todos os navios da empresa, mas quando se tornou chefe de máquinas ficou no Ortins Bettencourt, uma embarcação com 273 metros de comprimento por 42 metros de largura e com 40 tripulantes. Tinha uma equipa de oito, com um primeiro, um segundo e dois terceiros, bem como dois fogueiros e dois chegadores. Traziam o crude de portos como Iraque, Irão, Kuwait, Qatar, Dubai ou Arábia Saudita e descarregavam em Lisboa, Leixões ou no estrangeiro, como Grécia. México era também um dos locais de abastecimento. As viagens ao Golfo Pérsico demoravam um mês para cada lado e não se esquece do medo quando quando o mar se agitava, principalmente, no Cabo da Boa Esperança e nas tempestades de verão do Golfo Pérsico.
Do Estreito de Ormuz recorda os vários portos para carregar, com diferentes qualidades de combustível, para diversos fins. Ormuz “é um estreito, muito desértico” e a maior parte dos portos fica localizado a quilómetros das cidades. Recorda também os pipelines que trazem o petróleo do Iraque, por exemplo. “Todos os dias há navios a carregar, é um movimento que é uma coisa louca”, realça, admitindo que lhe causou estranheza o fecho, imaginando quantos navios estão presos no estreito e frisando uma particularidade: é que estão carregados com combustíveis comprados a diferentes preços.
Por lá “era tudo fácil e disciplinado, tinham um cais onde atracávamos e depois o navio era abastecido com recurso a mangueiras”, conta. “Os portugueses eram muito bem-vistos”, recorda, notando que o facto de cumprirem os horários era fundamental. “Um dia ou dois depois de sair de Lisboa já tínhamos o horário de carregamento marcado e já estava pago, que não fiavam”.
Heraldo Maurício mora nas Caldas há mais de 10 anos, porque a esposa, Maria de Jesus Maurício, era de Salir do Porto, onde nasceu a filha do casal. “A minha mulher fez muitas viagens comigo, usufruíamos de 12 ou 14 horas onde parávamos e uma das vezes andou dois meses”, lembra, a sorrir. ■










