
Obra com 100 crónicas assinala o centenário e foi escrita por um primo que foi viver para a “mítica” casa desta figura nacional do concelho das Caldas, na Cruz Quebrada, quando tinha 18 anos
Luís Alves Milheiro, de Salir de Matos, tinha apenas 18 anos quando em 1981 foi viver com o seu primo, José da Felicidade Alves, e a sua esposa, para a Cruz Quebrada. “Viver com eles foi extraordinário”, recorda o autor do livro “Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade – Cem anos – cem crónicas”, que foi lançado no passado dia 28 de março, no Centro Cultural e Recreativo de Salir de Matos. “Não é que eu vivesse mal com os meus pais, mas é outra coisa e aquela liberdade que eu tinha, ter as chaves de casa, entrar e sair à hora que queria, de me tratarem como adulto”, lembra, notando o crescimento “a nível humano” que experienciou, mas também “os exemplos” de Felicidade Alves. “Tinha um humanismo, um sentido do respeito pela opinião do outro, pelo pensamento do outro que vem de sempre”.
O autor recordou que o livro de Ana Gomes sobre esta figura lhe deu “mais motivação para escrever, porque à medida que ia lendo o livro queria conhecer mais coisas”, até porque “nós lá em casa, quando vivi com ele, não era que fosse um tabu, mas nunca falámos do caso de Belém, falávamos de outras coisas”.
O seu primo era alguém que “não tinha medo das palavras, nem tinha medo de ser provocador, até gostava” e “até gostava de alguma polémica”.
Durante a apresentação a sua tia Ilda, que viveu na Calçada do Galvão, no número 13, numa casa que ficou conhecida como a Casa da Amizade, no período a seguir a Felicidade Alves ser excomungado, recordou a sopa rica de feijão “no dia dos encontros políticos, nos anos 70, com o padre Fanhais, o padre Abílio e o padre Jesuíno, cada um levava uma coisa e fazia-se as misturadas”. No final das conversas sobre política, “havia a Cantilena do Padre Fanhais”, recordou.
Ilda recorda “uma pessoa com humor e de facto, sem medo”, lembrando um episódio, “quando ele saiu de Caxias” e telefonaram a perguntar como estava. Recorda-se de “ele, bem-disposto, a dizer: “Ó, pá, ‘tás a perguntar e sabes que os cabrões – exatamente esta palavra -, estão a ouvir do lado lá, o que é que queres que eu te diga? Eu vou dizer: umas férias muito boas, vou dizer abaixo todo este sistema e não sei o quê para ir para lá outra vez?”.
Lembra-se também de este lhe mostrar que tinham o telefone sob escuta e o barulho que fazia quando esta era ligada. Mas também não esquece as três vezes que a PIDE foi a casa do padre, a última das quais em que acabou detido. “Estavam vestidos de uma forma que pareciam empregados bancários”, recorda.
O autor recordou também quando a PIDE colocava os carros com antenas perto da casa de Felicidade Alves e este “abria as janelas e punha um disco do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira muito alto, mesmo para eles ouvirem”.
Sobre o Cardeal Cerejeira considerou-o como quem “causou tudo”, ignorando as conclusões da comissão com cónegos que criou para investigar, suspendendo-o “sem sequer tentar falar com ele” e excomungando-o de seguida. Descreve ainda a tentativa de reconciliação deste como “absurda”, sugerindo que este se divorciasse, quando “o casamento foi uma coisa tão positiva para ele”, aponta, notando que o facto de Elisete ser psicóloga e a sua personalidade calma, deram ao primo equilíbrio.
O autor partilhou ainda a particularidade de, durante a sua investigação, ter encontrado um postal enviado ao padre pela sua mãe, mas escrito pela mãe do autor com oito anos, dado que a progenitora do padre não sabia escrever. Ia a pé, “dormia lá e escrevia para ela responder”, depois, quando a mãe do padre “vinha para a Praça, de manhã, eu ia com ela”, contou a própria, durante a apresentação.
A antropóloga Teresa Perdigão apresentou este livro, que “tem muito desta família” e falou “dos entremeados e dizeres dos Alves”, mas também da teimosia, referida na obra. “É um livro de Salir de Matos, é um livro de nós todos, é verdade, mas também desta família”, frisou, considerando que “é uma viagem na qual o autor quis, declaradamente e deliberadamente, intrometer-se”.
Durante a sessão foi ainda lembrado o seu percurso enquanto “professor brilhante” e como autor, recordando-se ainda que o pároco rezava a missa em Salir de Matos, quando vinha de férias, “e as pessoas aqui da aldeia, agora vila, gostavam de o ver, ele vinha sempre muito apressado com a sua batina, a correr” e vinham pessoas das Cruzes, Trabalhias e Barrantes para assistir às homílias.
Teresa Perdigão notou ainda que o Largo Padre José Felicidade Alves foi inaugurado em 2006, ou seja, há 20 anos, e destacou o pioneirismo desta figura, dado que nos anos 50 do século passado, “celebrava a missa voltado para os crentes, era o único em Portugal, foi um visionário”. E também “dava comunhão às pessoas de pé, porque ele era, sobretudo, pela igualdade, pela fraternidade, pelo apoio aos mais desfavorecidos.
Pedro Maldonado Freitas partilhou “as longas conversas no Vale da Quinta”, com um “homem extraordinário”, “extremamente inteligente” e “profundamente católico, mas profundamente ecuménico, que não punha etiquetas às pessoas, ouvia toda a gente, acolhia o pensamento, era um homem fraterno” e era “brilhante, extremamente lúcido e objetivo, com o pensamento estruturado de uma forma que impressionava pela coerência”.








