
Iniciativas decorreram nos dias 26 e 27 de março
“Os primeiros dois anos em Portugal foram os mais complicados, a receção que eu tive, sendo generosa, foi aceitável, percebi muito cedo que muita gente me julgava antes mesmo de me conhecer e não só por eu ser brasileira, ser uma menina parda, de descendência africana, traz camadas de desafios e preconceitos que nem todos precisam enfrentar, a xenofobia esteve presente, sim, mas aprendi uma lição valiosa, não podemos calar-nos e aceitar o desrespeito, mas também é preciso agir com inteligência suficiente para que não prejudique o nosso percurso”. Este o testemunho de Isabeli, jovem aluna do 11º ano no agrupamento de escolas Bordalo Pinheiro que partilhou a sua história no evento “Calçar os sapatos do outro”, do Grupo de Apoio à Inclusão do Aluno Estrangeiro. Quando entrou na escola, no final do 1º período, no 8º ano, “os grupos da minha turma já estavam formados e as regras, que para vocês eram óbvias, para mim eram um mundo novo”, disse, partilhando que “no primeiro dia de aula armei um problema apenas por responder a uma questão sem levantar o braço, não era falta de educação, era um costume diferente de onde eu vinha, ali eu senti-me perdida pela primeira vez, logo no primeiro dia já tinha sido excluída da turma”. No final deixou uma mensagem: “dêem o benefício da dúvida, não julguem pelo sotaque, caraterísticas físicas, ou um braço que não foi levantado na hora certa. A adaptação é uma via de mão dupla, eu fiz a minha parte, aprendi a portar-me e a respeitar esta cultura, mas o ambiente também tem que estar aberto para que não só vivamos a escola, mas sim façamos parte dela”. Já Tabitha, jovem da Letónia conta que teve “um processo de integração muito fácil”, salientando o acolhimento e afeto que existe em Portugal por oposição com a frieza e distância das pessoas na Letónia. Ainda assim, no primeiro de dia de aulas “não percebia nada de português, vinha de saltos altos e toda arranjada porque lá o primeiro dia de escola é um dia de festa, vamos todos arranjados e levamos flores para os professores”. O apoio de docentes e colegas e a escolha de uma escola pública foram fundamentais, defende. Apesar das dificuldades linguísticas e de ser “muito tímida, fiquei surpreendida com a abertura das pessoas e o quão rápido me senti incluída”. Estes foram apenas dois dos testemunhos partilhados por estudantes numa das cerca de 50 atividades dos Dias do Agrupamento, a 26 e 27 de março, envolvendo mais de 1900 alunos de 10 escolas (com 358 estrangeiros, de 32 nacionalidades). O diretor, Jorge Pina, salientou o cruzamento entre as vertentes lúdica e pedagógica. “Este ano houve uma adesão muito grande e um aumento exponencial no número de atividades”, disse, destacando ainda a transmissão em streaming como reforço do espírito de agrupamento. Entre outras, houve a possibilidade de conhecer o que faz cada área, de experimentar a simulação de um centro de saúde e de ouvir a partilha de percursos de ex-alunos. A semana terminou com o jantar do Patrono e homenagem aos nove profissionais que se reformaram.







