
A nova comandante da PSP nas Caldas, Cátia Santos, fala em entrevista à Gazeta das Caldas das mudanças em termos de segurança agora que a cidade é casa do Presidente da República, mas salienta que este já era um território seguro. O percurso profissional e as prioridades que aponta para a Divisão que agora comanda são alguns dos temas desta primeira entrevista
É a nova comandante da PSP nas Caldas. De onde vem?
Sou de Leiria e os meus últimos dez anos fi-los todos lá. A relação que eu tenho com Caldas da Rainha estou a iniciá-la agora. O que eu conheci é que, enquanto oficial do comando de Leiria, fazemos um serviço especial que é o de Oficial de Dia, e vamos às nossas áreas, enquanto somos o representante do comandante no terreno. É este pouquinho que eu conheço das Caldas, mas nestas três semanas estou a gostar muito da cidade.
Sendo de Leiria conhece bem a região e os desafios?
É semelhante, o comando é o mesmo e, mesmo não estando aqui, partilhávamos assuntos, tínhamos reuniões, com os colegas das Caldas, íamos ouvindo e íamo-nos ajudando uns aos outros. Por isso, temos a noção de como é que as coisas funcionam, tanto de Leiria, como das Caldas da Rainha.
Em que ano entrou na PSP?
Entrei em 2005 na Escola Superior de Polícia, fiz o curso, que são cinco anos e, quando saí em 2010, fiquei a trabalhar em Lisboa. Em 2014, após o nascimento do meu primeiro filho, tive a sorte de conseguir vir para Leiria. Aí passei por vários serviços, estive na esquadra-sede, em Leiria, passei para o Núcleo de Armas e Explosivos, estive a chefiar a Formação, estive um ano na Escola Prática, estive um ano no Comando de Leiria e vim para as Caldas.
Tem um percurso com valências diferentes…
Sim, mesmo em Lisboa, passei por um serviço de esquadra, um serviço da secção de operações que já é ao nível da Divisão, e tive a sorte também de ir para a Direção Nacional. O meu percurso foi correr um bocadinho todas as etapas da Polícia, e isso dá-me uma visão macro e a certeza de que toda a gente tem o seu papel e é importantíssimo dentro da Polícia, e de qualquer instituição. Tendo essa visão, tendo passado por vários sítios e responsabilidades, tenho essa sorte e essa sensibilidade.
Quais os principais desafios desta nova missão?
Já passei por muitos serviços, e agora estou a chefiá-los todos num só, numa divisão. Acaba por ser aqui um conjunto grande de desafios. Não conhecia as Caldas, a área, as entidades. Enquanto comandante de Divisão, tenho à minha responsabilidade a área de Caldas de Rainha, Alcobaça, Nazaré e Peniche e ainda estou numa fase de conhecer os locais. Acho que o que eu posso trazer melhor a estes comandos de esquadra é a minha presença, o meu apoio. Ainda estou a dividir o meu tempo, a conhecer as esquadras e os polícias, depois passarei às entidades, às pessoas que, em conjunto com a Polícia, fazem o melhor pela população e pela segurança.
Que retrato faz, em termos criminais, deste território?
A criminalidade geral verifica um aumento de 12,5%, ou seja, mais 98 ocorrências em relação a 2024. A criminalidade violenta e grave apresenta aumento de 17,5%, com mais seis crimes, e fica em linha com valores registados em 2023. Já os crimes de proatividade policial mostram um aumento de 4,11%, com mais três delitos. A criminalidade violenta e grave representa um valor de 4,64% do global da criminalidade. Os crimes de violência doméstica, na sua totalidade, registaram um aumento de 35,5%, ou seja, mais 27 crimes, sendo o valor mais elevado dos últimos anos. A tendência indica-nos que após um pico de 100 casos registados em 2022, estes recuaram para 75 casos em 2023, 76 ocorridos em 2024 e, em 2025, o registo do maior número de casos, também acima de 2021 e 2020.
Nas Caldas um dos principais problema é a falta de agentes. Como atrair mais agentes para a cidade?
Nós temos polícias que querem vir para as Caldas. Esta é uma boa cidade e que acolhe as pessoas. O polícia que é das Caldas quer regressar. É uma questão de gestão da própria PSP.
A falta de efetivo nunca é desejável, mas nenhum comandante diz que tem efetivo suficiente para pôr um polícia em cada esquina. Isso não existe e nunca vai existir e não é por aí que eu luto. Acho que o efetivo que temos, mesmo sendo pouco, desde que seja motivado e bem orientado, consegue fazer um bom trabalho.
Tenho a sorte de ter chegado às Caldas e ter encontrado isso, não temos um polícia a cada esquina, não temos um polícia em cada instituição, que é o que as pessoas achariam que era o ideal, mas encontrei pessoas motivadas e que gostam muito de estar aqui nas Caldas, que vestem a camisola de caldense e isso deixa-me orgulhosa. É mais fácil trabalhar assim, mesmo com falta de efetivo, que é um panorama geral do Estado, e não é só da Polícia, acho que com a vontade e com a energia que as pessoas aqui têm, tem tudo para correr bem, para se fazer um bom caminho.
Quantos agentes seriam necessários para um cenário ideal?
Não existe um número ideal. Eu hoje consigo satisfazer as necessidades que Caldas tem. Se recuarmos há 20 anos atrás, em que conseguíamos ter patrulhamento apeado em várias artérias da cidade, em que era mais fácil ver um polícia mais vezes ao dia na mesma rua, claro que toda a gente ganhava, até os próprios polícias tinham mais oportunidades para virem para as suas terras. Mas não existe um número ideal. Quanto mais, melhor. Ainda assim, acho que estamos a fazer um bom trabalho com o que temos.
Nas Caldas a segurança tem estado na ordem do dia nos últimos anos, com soluções como a videovigilância em processo de aplicação. Será um aliado para colmatar a falta de efetivos?
Enquanto comandante, não podemos queixar-nos que há falta de gente. É geral. Temos é que trazer inovação e a videovigilância revelou-se, em muitas cidades, uma mais-valia, na repressão e na disuasão e aumentou o sentimento de segurança das pessoas, claro que sim. Podemos ter mais polícias, mas a videovigilância acrescenta sempre aqui segurança.
E sente que a criação de uma Polícia Municipal seria benéfica?
Tudo o que for criado para o lado do bem, é sempre bem-vindo. Todas as medidas que o Estado, a sociedade ou o município puder tomar para garantir melhor segurança aos seus cidadãos é tudo bem-vindo.
Que outras ferramentas podem ser implementadas?
Eu, enquanto comandante da PSP, trago muita preocupação em estar junto da população, ouvir as entidades e instituições, porque a Polícia sozinha não consegue nada, só em conjunto com a população. Uma das medidas complementares é isso: mostrar-nos abertos e estarmos disponíveis para ouvir as pessoas, instituições e organismos, para que possamos sentar-nos e pensar juntos qual é a melhor forma de proteger, de resolver problemas, é isso que nós queremos. Estamos aqui para ouvir, para dar sugestões e para seguir o mesmo caminho, que é o da segurança.
Houve um crescimento da cidade e do concelho e também o aparecimento de empresas ligadas à migração. Que desafios traz à PSP, que tem a responsabilidade de acompanhar e fiscalizar em vários casos?
Ainda não conheço bem a realidade das Caldas, mas enquanto Polícia, vemos o crescimento como uma coisa boa e a vinda de migrantes também, diversifica a cultura, traz mão de obra. Não sei o caso das Caldas, mas o panorama geral é que as pessoas que vêm para cometer crimes são uma exceção. Claro que há smepre gente que acompanha as malhas e brechas no acompanhamento de pessoas de bem, mas sinto que é uma franja mínima. Mas claro que estamos atentos.
Caldas tornou-se recentemente na casa da mais alta figura do Estado, o Presidente da República. Como é que isso implica naquilo que é a segurança ao nível da cidade, sendo que parte da segurança ao PR não é feita por esta divisão?
Existe uma grande mudança. Qualquer Presidente da República tem direito a segurança à sua residência particular. E temos sorte de ser aqui nas Caldas, que já era uma cidade segura e continua a ser segura.
Significa que tem de haver um posto fixo, que vai ser uma responsabilidade acrescida à nossa missão e para o qual iremos receber um reforço.
De resto, eu acredito que continuará a funcionar igual, ou seja, bem. Não estava tudo mal e agora vai passar a estar bem, porque também não é verdade. As Caldas são uma cidade segura, tem os seus problemas, todas as cidades têm.
Eu venho para aqui com o propósito de melhorar as condições dos meus polícias e melhorar a segurança da cidade, mas não vou acabar com o crime. Há coisas que não podemos assumir.
Em que é que se traduz um posto fixo?
É um polícia 24 horas na porta da residência do PR.
Esta é uma Divisão com territórios e com desafios diferentes nos próprios concelhos que a integram. Como responder?
Temos as praias que têm épocas muito altas, a Nazaré e as ondas gigantes já trazem muito turismo, muita gente, são desafios diferentes, sazonais. Há alturas do ano que é muito parado e conseguimos mexer aqui os meios e poder apoiar.
A minha intenção, apesar da distância entre as esquadras, é colmatar essa falta de efetivo com o apoio que cada esquadra pode dar à outra, em momentos diferentes do ano, colocando prioridades em cima da mesa.
Como é o dia-a-dia nesta Divisão?
Além de ser uma esquadra, este edifício é uma casa. Nós temos polícias que vivem aqui, que passam aqui o seu dia, até porque são de localidades mais distantes.
Enquanto Polícia de Segurança Pública o que fazemos aqui não é só o carro patrulha que as pessoas costumam ver na rua. Temos a esquadra da Investigação Criminal que pega nos processos e investiga o crime, que faz a prevenção encoberta, com colegas polícias na rua, trajados à civil. Temos aqui uma esquadra de intervenção e fiscalização policial, que é essa que faz as fiscalizações aos estabelecimentos, à segurança privada, que faz o trabalho das notificações quando o tribunal nos pede ajuda para notificar as pessoas de outros serviços. Temos também aqui secções ou serviços de apoio em contato com outras entidades, em contato com a nossa Direção Nacional, recebe os pedidos de todos os reforços, de todos os policiamentos remunerados e centraliza toda a informação. Temos uma Esquadra de Trânsito, temos temos Serviços de Apoio, Serviços de Logística, que foi a primeira área quando fui promovida a subintendente em Leiria foi como chefe da área de Apoio que é aquela que ninguém quer ir, porque «não é o polícia a sério», mas é tão importante que o polícia que esteja na rua esteja guarnecido com um bom carro, com bons pneus, que tenha um equipamento decente, que tenha rádios… As pessoas acham que isso é diminuto, mas não é, isso é muito importante e é o que muita gente faz aqui de apoio aos colegas que estão na rua.
Este reforço do Presidente da República [N.D.R.: com mais dez polícias no Comando de Leiria], que foi o único que eu acompanhei, vai implicar agora receber colegas de fora e já temos pedidos de camas. Esta será a casa deles também durante muitos dias seguidos.
Qual o seu primeiro desafio como Comandante da PSP nas Caldas?
Um desafio é conhecer tudo e poder ouvir as pessoas todas. Quando aqui cheguei, senti-me muito bem recebida, o barco já andava, só precisava de um timoneiro, já tinha remos, as pessoas já estão todas no mesmo sentido, alinhadas para um bem comum, que é o bem da cidade. Por isso acho vou ultrapassar os desafios que aí vêm porque a gente que encontrei aqui está toda muito bem alinhada, o que me deixaram foi gente muito bem alinhada, mesmo que sejamos poucos ou que não sejamos o número ideal, as pessoas estão cientes e estão disponíveis para ajudar, estão disponíveis para encontrar a solução e não só o problema. É isso que tenho sentido.
E qual a primeira medida que pretende tomar?
A minha prioridade é aproximar estas cidades que comando e fazê-las sentir que fazem parte de um todo. Vou tentar que as outras esquadras se sintam parte da Divisão das Caldas da Rainha, que tem uma sede em Caldas da Rainha, mas que faz parte de um grupo de trabalho. É isso que eu quero trazer e fazer esta gestão com maior facilidade consoante as necessidades que são sentidas em cada momento. Isso permite, por exemplo, trazer mais operações conjuntas, com uma presença forte, em todas as cidades. Numa palavra é união, para reforçar os laços entre as esquadras da Divisão.







