
Através de eventos, intercâmbios e iniciativas ao longo do ano, as Caldas compromete-se a impulsionar a transformação urbana e económica, a inspirar outros e contribuir para um setor retalhista mais forte e resiliente em toda a Europa
Uma cidade “pintada” de azul, numa alusão à cor da União Europeia, recebeu, durante a manhã de 26 de março, a visita da comitiva composta por representantes da União Europeia, entidades ligadas à candidatura das Caldas da Rainha e também de Silandro (Itália) e Barcelona (Espanha), cidades também vencedoras desta distinção (noutras categorias). Guiados pelos Alter Egos de Bordallo, foram convidados a conhecer a cidade, os seus espaços mais emblemáticos e o seu comércio tradicional. Estava assim dado o arranque oficial do seu ano europeu como Capital Europeia do Pequeno Retalho, na categoria de Cidade Vibrante, galardão que trouxe de Bruxelas em finais de janeiro.
O Prontos Impact Village, um antigo centro comercial devoluto que foi transformado em espaços de coworking e centros de empreendedorismo, foi local de paragem, após o almoço e antes da comitiva rumar ao CCC, onde os esperava uma apresentação de artes e ofícios ligados à identidade económica e cultural da cidade. Foi o culminar de um périplo por uma “cidade que se sente”, como haveria de referir Fátima Lopes, a apresentadora da cerimónia oficial, que decorreu durante a tarde. “O que hoje aqui celebramos não é apenas uma distinção. É uma forma de reconhecer que o comércio de proximidade continua a ser uma das grandes forças da vida urbana, da identidade local e também da relação com as pessoas.
Para Giulia Del Brenna, chefe de Unidade de Têxteis, Alimentação e Retalho da Direção-Geral do Mercado Interno, Indústria, Empreendedorismo e PME (DG GROW) da Comissão Europeia, este reconhecimento reflete um “compromisso” de longa data da parte de todos os envolvidos em apoiar o comércio local e em manter o centro da cidade dinâmico e vivo para os seus cidadãos e visitantes. A responsável, que enviou a sua mensagem por vídeo, considera que o pequeno comércio retalhista tem um futuro na Europa e um futuro em que vale a pena investir”. No entanto, não deixou de destacar que o comércio retalhista está a sofrer uma transformação, em que as transições ecológica e digital, a evolução dos hábitos de consumo e as alterações demográficas estão a redefinir o modo de funcionamento das empresas e das cidades. Uma evolução que pode criar desafios aos pequenos retalhistas, mas também oportunidades para “inovar, construir modelos de negócio mais sustentáveis e reforçar as ligações entre as comunidades locais”.
Para Giulia Del Brenna, o pequeno comércio é um “elemento fundamental da vida social e cultural das nossas cidades”, lembrando que, em toda a União Europeia, o ecossistema retalhista engloba milhões de empresas e dezenas de milhões de postos de trabalho.
Considera que o apoio ao pequeno retalho não é apenas uma prioridade económica, mas também social e de coesão territorial, e que esta iniciativa da União Europeia foi criada para destacar as cidades que compreendem este papel do setor e atuam em conformidade. Referindo-se às Caldas, entende que, enquanto Capital Europeia do Pequeno Retalho em 2026, é um modelo a seguir por outras cidades europeias e, juntamente com as outras duas capitais, Barcelona e Silandro (Itália), é também o embaixador do pequeno comércio retalhista na Europa. “Ao partilhar as suas boas práticas, as Caldas da Rainha podem inspirar outros municípios e ajudar a definir novas abordagens para apoiar o comércio local”, diz Giulia Del Brenna, que acredita que também “contribuirá ativamente para reforçar o pequeno comércio retalhista em toda a Europa”.
Reconhecimento que “tem responsabilidades”
O título de Capital Europeia do Pequeno Comércio é um “reconhecimento prestigiante das ideias, compromissos e iniciativas da vossa cidade, mas também tem responsabilidades”, salientou Natália Martínez Páramo, Chefe de Unidade do Programa do Mercado Único para as PME da EISMEA (European Innovation Council and SMEs Executive Agency). De acordo com a responsável, Caldas deve agora demonstrar que pode tornar-se uma “verdadeira embaixadora” do setor “representando excelência, dinamismo e indicativas da qualidade que mostrem que são dignos vencedores”. Numa intervenção gravada deixou o conselho para que a cidade retire o máximo partido desta distinção, durante este ano, garantindo que este organismo europeu também a apoiará, tal como às outras vencedoras. “As cidades vencedoras e finalistas são realmente incentivadas a partilhar experiências e a criar impactos duradouros na Europa para que possam ajudar a, sobretudo, revitalizar o pequeno comércio e a promover ambientes dinâmicos”, concretizou.
Na sua intervenção, o presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques, lembrou que “o pequeno retalho não vive tempos fáceis”, e é por isso que “este reconhecimento tem valor”. O autarca considera que este continua a ser decisivo para o futuro das cidades e que, quando este desaparece, desaparece também “presença”, “confiança”, “encontro”, “identidade”.
Entende que o pequeno retalho é uma “parte estrutural da vida urbana” e acredita numa cidade onde a concorrência “não destrói a possibilidade de caminhar em conjunto, antes pelo contrário”, e que é também desta forma que ganham escala verdadeira. Momentos antes, a identidade local das Caldas e a sua projeção no mundo haviam sido destacados pela vereadora Conceição Henriques, que falou de uma cidade com”ambição global”, abordando a estratégia do município a partir do binómio modernização-internacionalização.
A autarca lembrou a aposta em diversas redes de cooperação internacional como rede de Cidades Criativas Unesco, Rede de Conselheiros Locais da UE, Rota Europeia das Cidade Termais Históricas ou dos Geoparques Mundiais Unesco, através da pertença ao Geoparque Oeste. Deu ainda nota da participação no Agrupamento Europeu de Cooperação de Cidades de Cerâmica, através da pertença à Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica, de que as Caldas da Rainha tem atualmente a presidência, e que está projetada a adesão à Academia Internacional de Cerâmica, “havendo já sessões em curso para esse fim”. Por outro lado, o município possui uma “politica ativa” de acolhimento de mais de uma dezena de certames internacionais, além de participar em geminações e memorandos de entendimento com outras cidades.
Os projetos a desenvolver
O programa de atividades será desenvolvido ao longo de todo o ano e inclui iniciativas estruturadas nos quatro pilares europeus (sustentabilidade, empreendedorismo e envolvimento da comunidade, digitalização e atratividade humana). Entre elas estão a expansão do programa BioRainha ou a criação da Loja Verde Caldas, na área da sustentabilidade; o lançamento da Caldas Lab Store e do prémio “Caldas com Alma”, no eixo do empreendedorismo e comunidade; o reforço do Bairro Comercial Caldas da Rainh@, com marketplace, aplicação móvel e ferramentas tecnológicas, no âmbito da digitalização. Por último, no eixo da atratividade urbana, o reforço de eventos âncora como a MESTRA, a Feira dos Frutos e o Caldas Late Night, a criação da pop-up “Criar Caldas” e o desenvolvimento de rotas comerciais e culturais, são as iniciativas previstas, com o intuito de gerar impacto duradouro, reforçando a competitividade do comércio local e a atratividade urbana.
Usar a tecnologia para reforçar a proximidade
Sara Lopes, gestora do projeto Bairro Comercial Caldas da Rainha, explicou em que consiste e como tenta criar sinergias entre comércio, educação e comunidade. Defendeu o trabalho em rede e reconheceu que o “verdadeiro desafio é usar a tecnologia para reforçar aquilo que torna o comércio local especial, a proximidade”. Durante a tarde, técnicos da autarquia abordaram a “Identidade, vitalidade e atratividade urbana e marca territorial” e a “Sustentabilidade: O comércio como o condutor da transição verde e social”.
O “Empreendedorismo e Comunidade: O Comércio como espaço de cocriação, inclusão e pertença”, foi tema para uma conversa, moderada por João Carlos Costa.
Ricardo Fernandes, vice-presidente da OesteCIM, destacou a tradição comercial da cidade e a “preocupação” que e esta comunidade intermunicipal tem tido ao nível do “financiamento e o apoio a este tipo de atividades”, nomeadamente, também, no que respeita à sua modernização.
Já o presidente da AIRO, Jorge Barosa, partilhou o projeto para a criação de uma comunidade de energia nas Caldas, que também apoia os pequenos comerciantes, enquanto que o responsável pela ACCCRO, Marcos Pinto, abordou o desafio do digital para a continuidade do pequeno comércio e a garantia de proximidade.
Por sua vez, Nicola Henriques, partilhou o trabalho criativo e de regeneração urbana feito pelos Silos-Contentor Criativo, mas também do Bazar à Noite, evento que nasceu em 2013 e que procura reativar o centro urbano e potenciar o contacto e o dinamismo comercial,levando criadores a expor os seus trabalhos em locais como a Praça da Fruta ou o Largo do Termal.
“As cidades que têm menos mercado local são cidades mais inseguras. Reconstruir imóveis devolutos como o que nós fizemos é acreditar numa segunda oportunidade”, referiu Rui Vieira, partilhando a experiência do Prontos. E, tal como nos edifícios que recupera, Rui Vieira considera que a resposta está na inclusão das pessoas e acredita que o empreendedorismo de impacto “é o único que vai perdurar nas nossas cidades”.
A cerimónia terminou como começou, com arte. O produtor e DJ caldense Stereossauro esteve em palco, acompanhado pela cantora Ana Magalhães, onde apresentou os temas 30 Metros de Água Salgada e Depressa Demais, para terminar ao som de Verdes Anos.











