
Espaços dos museus municipais acolheram iniciativas no fim de semana. Cutelaria e cerâmica atraíram centenas de pessoas aos locais
Os primeiros raios de sol da primavera foram acolhidos por centenas de pessoas que se juntaram nos dias 27 e 28 de março no Centro de Artes. Viveu-se a quarta edição do “Domar o Fogo”, uma iniciativa que se tem vindo a consolidar e que atraiu muita gente àquele espaço, sobretudo famílias que tiraram partido do bom tempo e do convívio com amigos.
A cutelaria, a cerâmica e a gastronomia aliaram-se numa iniciativa que já marca o calendário dos eventos das Caldas e que atrai muita gente ao Centro de Artes.
Houve vários momentos de fogo a começar por uma competição de forja onde três concorrentes com alguma experiência na cutelaria tinham apenas três horas para fazer um cutelo funcional. Ao público era permitido assistir às várias fases necessárias à feitura da peça. Decorreu também a cozedura de uma peça cerâmica de grandes dimensões.
Entre os convidados esteve o ferreiro espanhol Thomas Minsk que apresentou o processo ancestral de redução de ferro.
O convidado construiu um forno tradicional que será posteriormente aberto para revelar o metal produzido durante a queima. À noite houve concertos e também a queima da escultura da grande mão, um ritual iniciado na edição anterior.
Uma das suas atrações é a comida que é confecionada no fogo. O cozinheiro Rúben Ferreira esteve no evento e fez Sopa à Lavrador no Pote e Bifanas à Moda do Porto. Segundo o participante este ano houve algumas novidades como o Chili Vegano, a Sopa de Polvo e outras iguarias que conquistaram o público que assistiu aos eventos durantes os dois dias. ainda foi assado um porco e cozido pão no forno comunitário que existe no jardim do Centro de Artes.
Há três anos que Rúben Ferreira participa e este ano “creio que está muito mais gente. Está um ambiente incrível!”, disse.
A visita do Presidente
Presente no evento esteve no sábado o Presidente da República, António José Seguro para quem o Centro de Artes “é um espaço magnífico” e sobre o Domar ainda comentou que “é um evento onde há uma confraternização espetacular”. O Presidente ainda destacou que nesta iniciativa é possível “apreciar utensílios, trabalhos e produtos que a terra nos dá”.
À Gazeta das Caldas, António José Seguro comentou que no dia anterior, 27 de março, teve a oportunidade de viver o Dia Mundial do Teatro assistindo à peça “A Árvore que sangra” representada pelo Teatro da Rainha no CCC. “Tenho um grande apreço por este grupo e o que vi ontem foi do melhor que o teatro tem”. António Seguro acrescentou que “vi três atrizes a fazer uma interpretação “genial” numa peça de difícil interpretação com uma mensagem fortíssima e que combina alguma violência verbal com alguma boa disposição”. Da peça, que esteve esgotada,o Presidente deixou uma mensagem contra a violência doméstica e que as vítimas “necessitam de solidariedade antes de acontecerem os problemas”.
Para a vereadora da Cultura, Conceição Henriques, este evento que congrega as três artes em torno do fogo, tem vindo a consolidar-se e na sua opinião esta quarta edição “foi o melhor ano de todos”. A autarca diz que é um evento “que é feito por gente da terra, para a gente da terra e que atrai muita gente de fora”.
A autarca diz que o Domar o Fogo “não vai crescer muito mais pois o seu espaço está delimitado pelo Jardim do Centro de Artes”. Conceição Henriques não quer que o evento se massifique e se torne em algo “onde as pessoas demoram duas horas para entrar e mais meia hora para comer uma bifana”. Espera, por isso, que a comunidade artística possa ir atraindo público de interesse, sem transformar o Domar num evento descaracterizado como existem por aí”.
Paulo Tuna, da CENTRA, associação que organiza o evento com o Centro de Artes, considera que este “foi mais um ano, fomos brindados com belíssimos dias de primavera e contámos com mais gente”, sintetizou o organizador destacando igualmente as iniciativas relacionadas com a cerâmica, com a cutelaria e com a comida feita ao fogo e que têm conquistado muitos convivas.
Segundo o artista plástico e cuteleiro, o Domar o Fogo “quer continuar a trazer cada vez mais coisas surpreendentes para as pessoas”. Além dos DJ’s, o Domar teve animação musical, tendo atuado o grupo Eugénia Contente Trio.
Intercâmbio com Itália
Também integrado no Domar o Fogo estiveram algumas atividades do programa de intercâmbio europeu “A Cerâmica e as Mulheres: Como as Mulheres se Tornaram Protagonistas”, uma iniciativa que integra o acordo de geminação entre os dois municípios, de Caldas e Deruta.
“Fizémos coincidir os dois eventos pois quisemos proporcionar aos nossos amigos italianos uma festa autêntica, mostrando-lhes a cultura em ação, dentro da arte que eles também praticam”, disse a vereadora Conceição Henriques após a inauguração da exposição coletiva “A Cerâmica e as Mulheres: Como as Mulheres se Tornaram Protagonistas” – que é composta por obras de ceramistas italianas e portuguesas que, desde novembro de 2025, tem estado em exposição na Galeria l’Antica Fornace Grazia, no centro de Deruta.
A autarca caldense ainda salientou que o mais importante em relação ao intercâmbio “é o contacto entre as ceramistas, a sua troca de experiências é fundamental”.
Conceição Henriques sublinhou que espera que a comitiva de 42 pessoas que vieram de Itália se sentissem em casa e em família, tal como a comitiva caldense se sentiu em Deruta em novembro passado.
A autarca considera que as duas cidades, são irmãs, em nome da tradição cerâmica. Apesar de realizarem cerâmica de forma diferente na atualidade, a região italiana tem pergaminhos pois possui fornos de cerâmica com mil anos.
O presidente da Câmara Municipal de Deruta, Michele Toniaccini, durante a exposição sublinhou a importância de se “estabelecerem pontes entre estas suas cidades, famosas pela sua tradição artística ligada à cerâmica”.
Na sua opinião, estes momentos de intercâmbio “são importantes para os territórios no mundo atual, tão instável”.
Para Vitor Marques, o presidente da Câmara das Caldas, o intercâmbio realizado “contribui para o crescimento dos dois centros cerâmicos europeus”.
O público poderá visitar a mostra, no Centro de Artes, até 3 de maio. Cada uma das cidades escolheu uma peça da cidade irmã para colocar nos cartazes promocionais das exposições.
Ceramistas de cá e de lá
Sílvia Jácome foi uma das ceramistas do Oeste que se deslocou a Deruta. A cidade italiana “é mais pequena do que as Caldas, mas acarinha muito a sua cerâmica”. Enquanto que em Portugal, as ceramistas também modelam, em Deruta “dedicam-se com mestria sobretudo à pintura”. Por seu lado, Cristina Capinha que também viajou a Itália contou que “fomos bem recebidos, apesar da cerâmica ser radicalmente diferente da nossa”. Na sua opinião os intercâmbio proporcionam partilhas interessantes e estes “deveriam repetir-se com outros países”.
Tânia Mancinelli é ceramista em Deruta desde 2013 mas já se dedicava à pintura a partir de 1999. Estava a gostar do intercâmbio pois “toda a gente nos recebeu muito bem aqui nas Caldas”. Das visitas salientou o facto de ter conhecido várias oficinas de artistas caldenses. “Estamos felizes pois podemos inspirarmo-nos nos trabalhos umas das outras”,rematou.
Por seu lado, Annalisa Mordenti dedica-se à cerâmica desde 1997 e fá-lo na sua empresa familiar. Primeiro estudou Direito mas acabou por se dedicar à cerâmica. A sua mãe, de 86 anos, ainda trabalha e ajuda na gestão de duas lojas de cerâmica, situadas no centro de Deruta. “Agora a minha filha, de 20 anos, já está a dar os primeiros passos na cerâmica”, contou. Deruta tem uma população de dez mil pessoas e possui cerca de 120 oficinas cerâmicas. Nazaré Feliciano foi professora de Cerâmica nos EUA e tem ligações familiares ao Oeste. A autora possui uma galeria que fica próxima do Centro de Artes e durante o intercâmbio convidou dez das ceramistas do Oeste que foram a Itália para realizar uma mostra de cerâmica que está patente até hoje, 2 de abril. A galeria fica na R. Visconde de Sacavém, 20B.














