Ser mulher empresária é uma vantagem

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São duas mulheres que lideram empresas em ramos tipicamente masculinos, mas isso não as impediu de terem sucesso e de serem respeitadas pelo que fazem. Elsa Coelho e Cristina Cavalheiro falam das experiências enquanto empresárias

Elsa Coelho e Cristina Cavalheiro são duas empresárias de sucesso na região e ser mulher nunca foi um constrangimento. Ambas acreditam que ser mulher traz mesmo vantagens quando se trata de dirigir empresas e projetos.
Elsa Coelho é administradora da AC MANutenção e dirige ainda o Grupo A. Coelho, com base em Turquel, que opera com sete empresas no ramo da camionagem. Ser empresária não foi algo planeado. Formou-se como advogada e iniciou carreira nessa área, com escritório próprio em Turquel, mas sentiu o apelo para seguir o percurso dos pais, que tinham um negócio de comércio de camiões.

“Ser mulher ajudou muito. Com tudo “a arder” nunca baixei os braços, penso que os homens desmotivam com maior facilidade”

Elsa Coelho

“Surgiu a oportunidade de representar uma marca, a MAN. Eu e o meu irmão do meio, João Coelho, abrimos a oficina em Turquel e ficámos com a concessão no distrito de Leiria”, recorda.
O negócio cresceu. Também em termos territoriais, alargando primeiro para Aveiro, depois para Viseu, Guarda e Castelo Branco – esta, entretanto, encerrada por causa da crise -, tornando-se o maior representante da marca no país.
João Coelho acabou por sair para se dedicar a um projeto próprio e Elsa Coelho ficou sozinha a gerir a empresa, mas com a empresária ao leme o grupo A. Coelho não parou de crescer. “Fomos criando várias empresas, todas relacionadas com viaturas pesadas, desde o aluguer à exportação. Temos também oficina multimarcas e seguros”, refere Elsa Coelho. Entretanto, a empresa expandiu-se igualmente a sul, nomeadamente Carregado e Sesimbra.
Mais recentemente, a empresa ingressou ainda no ramo imobiliário, através da construção de moradias com estrutura de aço galvanizado leve, um tipo de construção mais sustentável.
A transição de advogada para empresária não foi fácil, mas a gestora diz que nunca sentiu dificuldades ou barreiras por ser uma mulher numa atividade dominada por homens. A empresária diz mesmo que até sente que lhe dão valor “por ser mulher à frente deste tipo de negócio”.
Tal como Elsa Coelho, também Cristina Cavalheiro, presidente da Licóbidos, iniciou a atividade no meio empresarial para prosseguir o negócio da família, no caso a produção de licor de ginja, atualmente com a Ginja Mariquinhas e a Ginjinha do Sanguinhal como principais marcas.

Cristina Cavalheiro lidera a Licóbidos, que detém a marca Ginja Mariquinhas

Cristina Cavalheiro estudou Design, o que não sendo exatamente ligado à gestão de empresas, acabou por ser uma mais-valia para a empresa. “Além da qualidade do produto, apostamos muito na parte da imagem”, refere.
A empresária também diz que nunca sentiu um tratamento diferenciado por ser uma mulher empresária. “Não me prejudicou em nada, até porque o que me move é a paixão pelo que faço. Luto pelo meu produto e pelo nosso registo familiar”, realça.

“As mulheres são lutadoras no geral, estão habituadas a ser polivalentes, (…) não há barreiras para elas”

Cristina Cavalheiro

Estigma ainda existe
Apesar de não terem sentido no seu caminho barreiras por serem mulheres empresárias, ambas reconhecem que o estigma existe. “Por ser mulher não se dá a oportunidade de vir para estas áreas da gerência e administração das empresas”, afirma Elsa Coelho. Além disso, “basta ver divergências salariais, ou a questão da maternidade, que condiciona quando as empresas contratam, ou não, mulheres”, completa Cristina Cavalheiro.
Isto são questões que fazem o Dia da Mulher continuar a fazer sentido, apesar de “estar já um pouco diluído no significado, porque já é muito comercial e festivaleiro”, realça a presidente da Licóbidos. “Muitas mulheres se calhar não sabem o que se comemora neste dia, as conquistas das mulheres operárias que perderam até a vida pelos direitos civis e o voto”, lamenta.
E o que ganha, segundo as duas empresárias, uma empresa quando tem mulheres no comando? “As mulheres são lutadoras no geral, estão habituadas a ser polivalentes, basta ver como conciliam a família e a profissão e conseguem tempo para tudo e não há barreiras para elas”, sugere Cristina Cavalheiro.
À atitude guerreira e à capacidade de executar multitarefas, Elsa Coelho acrescenta poder de argumentação. Foi tudo isso que a fez batalhar para manter as sete empresas do grupo em funcionamento durante a grave crise que se iniciou em 2008. “Ser mulher ajudou muito. Com tudo “a arder” nunca baixei os braços, penso que os homens desmotivam com maior facilidade”, comenta.

Não é o género, é a competência
O Dia Internacional da Mulher faz sentido porque as desigualdades de género persistem. Tanto Cristina Cavalheiro como Elsa Coelho defendem que é preciso, de uma vez por todas, olhar para o fator competência e não para o género. “E o mesmo é válido para as questões raciais, ou étnicas”, sublinha Cristina Cavalheiro.
“Sempre houve esse estigma e necessidade de dar mais competência aos homens que às mulheres, que estavam mais ligadas à família”, realça Elsa Coelho, que afirma, enquanto empresária, o facto de ser homem ou mulher não influencia quando está a contratar, ou a promover, um colaborador. “Tenho este hábito de tentar perceber a que funções cada pessoa melhor se adapta e tenho várias pessoas que são hoje meus braços direitos que entraram para funções básicas e muitas dessas pessoas são mulheres”, aponta.
Cristina Cavalheiro também defende que o género não pode ser diferenciador na altura de contratar, mas reconhece que a questão da maternidade acaba por ser ainda um constrangimento.
Empresárias bem-sucedidas, ambas aconselham às jovens, e aos jovens, que se querem afirmar como empreendedores, ou fazer carreira na gestão de empresas, a mostrar as qualidades que têm, a serem persistentes nos objetivos e a terem muita garra. “Nós mulheres fazemos as coisas com o gosto e a determinação de lutar pelo nosso estatuto e isso é crucial para o sucesso”, refere Elsa Coelho. Cristina Cavalheiro acrescenta que é preciso ter uma postura positiva, porque hoje em dia há “imensos receios na cabeça dos jovens”, pelo que é também preciso “fazerem-se ouvir”. ■