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A vida “preenchida” da centenária Maria Luísa

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Maria Luísa Eusébio (à frente) ladeada pelos familiares

Das Caldas a Luanda, passando pelo Sobral da Lagoa onde estão as suas origens. A vida de Maria Luísa Eusébio é como ela, em movimento constante, há 100 anos.
Autónoma, passa agora os dias entre a casa e o centro de convívio e a leitura e os concursos televisivos são a sua distração

Nasceu em finais da Primeira República, a pouco mais de um mês da instituição da ditadura e celebra a revolução no seu dia de anos, ainda que estes três períodos distintos e com características opostas na história política de Portugal, durante o século XX e XXI, pouco lhe digam. Maria Luísa Eusébio festejou, a 25 de abril, um século de vida.

Natural do Sobral da Lagoa, é a mais velha de cinco irmãos, dos quais apenas dois continuam vivos. Filha de agricultores, fez a terceira classe e, com 12 anos, foi trabalhar como empregada doméstica para casa de uma senhora, nas Caldas. Lá permaneceu durante uma década até que, com a reforma e partida da patroa para Lisboa e o namoro que tinha começado, acaba por casar e ficar a morar na cidade. O marido, já viúvo e natural de Sintra, trabalhava num talho. Um dos seus quatro filhos (do primeiro casamento) vivia em Angola e convidou o pai a juntar-se-lhe, juntamente com o irmão pequeno e a madrasta, o que aconteceu no ano de 1955, e depois de uma viagem de barco que demoraria uma semana a chegar ao destino.

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“Estivemos lá mais de 20 anos. Gostei muito de lá viver, era muito lindo e deixei lá muitos amigos”, recorda a centenária. O casal era proprietário de um talho, em Luanda, onde Maria Luísa se ocupava da caixa e da contabilidade.

A independência de Angola trouxe algumas dificuldades, com os tumultos e a escassez de alguns produtos, o que a levou a ter que se adaptar à gastronomia africana. “Os vizinhos eram todos muito meus amigos. Na minha rua, apenas na minha casa moravam portugueses, era um ambiente muito bom, ficaram a chorar quando regressei. E eu ainda hoje me lembro deles”, conta, emocionada.

O marido viria a falecer em finais de 1979 e Maria Luísa voltaria, em definitivo, oito anos depois para Portugal, assim como regressariam os seus familiares que, entretanto, também tinham ido para Angola. Regressou para o Sobral da Lagoa, onde ajudou a cuidar da mãe. Aventureira, Maria Luísa nunca foi de ficar num lugar só. Entre as viagens que fez destaca o Brasil e Inglaterra, onde permaneceu algum tempo de visita, mas também “não falhava” as excursões, que a levaram várias vezes a Espanha e a percorrer todo o país. Agora, com mais dificuldade em andar, só quando são viagens curtas, a locais perto de casa.

“Leio muito”
Com o falecimento da progenitora, sentia-se mais só e, com a abertura do centro de convívio, começou a frequentá-lo. Foi há 20 anos e não mais deixou de ir. Agora, passa as tardes a jogar e a ver televisão e gosta, particularmente, de ver concursos, especialmente os de Vasco Palmeirim.

A leitura também é um dos seus passatempos. “Leio muito”, conta, acrescentando que, a cada quinta-feira, lê a Gazeta das Caldas [que recebe no centro de convívio através do projeto Chegou a Gazeta], como, aliás, o comprova o monte de jornais que guarda junto ao sofá onde se senta.

Aos 100 anos Maria Luísa é autónoma, vive sozinha e é ela quem arruma o quarto, estende e apanha a roupa, exemplifica, embora conte com o apoio de familiares, especialmente de uma sobrinha que lhe telefona todos os dias. Também caminha sem necessidade de apoio e arranja “os pés e as mãos, o que muita gente se admira”, diz orgulhosa. Faz ginástica no centro de convívio. Confessa que alguns dias lhe custa mais, mas depois “entusiasma-se” e acaba por participar e “faz muito bem à saúde”, receita.

Maria Luísa teve sempre esmero com a sua imagem. Ainda hoje tem a preocupação de pintar o cabelo. “e vou continuar, é importante as pessoas terem cuidado consigo próprias”, realça.

O seu centenário foi comemorado com a família, num restaurante em Peniche, com prendas, entre elas muitas flores, “que adora”. “Sou muito mimada pela família e o povo da terra respeita-me muito”, conta, orgulhosa, lembrando que no domingo, depois da missa, também o padre destacou o seu aniversário. Na segunda-feira foi dia de festa no centro de convívio, com a presença dos utentes e amigos e de familiares.

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