A Gazeta da Liberdade e a Liberdade da Gazeta

0
126

José Luiz de Almeida e Silva, diretor da Gazeta nos últimos 45 anos, passa em revista aspetos marcantes da vida recente do jornal

Impunha-se, nesta incumbência irrepetível, ouvir aquele que exerce as funções de diretor da Gazeta. Exerce-as, aliás, de forma continuada, no mais longo mandato alguma vez assumido neste jornal. Com uma história quase centenária, metade dela teve a ação mais dedicadamente empenhada de José Luiz de Almeida e Silva. A história do jornal é indissociável pois da personalidade e das capacidades humanas deste generoso caldense, homem do mundo. Generoso porque ao jornalismo jamais impôs cálculos ou interesses que não os da comunidade. O cargo que exerce sempre o desempenhou pro bono. Foi um prazer, temperado pela amizade longa de muitas décadas, ouvi-lo durante horas. Por exigência de espaço, publica-se aqui apenas uma pequena parte da entrevista.

Asseguraste a transição da Gazeta do tempo do autoritarismo e da censura para o tempo da liberdade. Que mudanças tiveste de operar na orientação editorial do jornal nos primeiros tempos a seguir ao 25 de Abril?
Algum tempo depois da queda do regime de Marcelo Caetano, o diretor da Gazeta, Dr. Saudade e Silva, foi forçado a entregar o jornal a alguns protagonistas do que era considerada a Oposição ao regime. Durante alguns meses, a orientação do jornal mostrou-se fiel aos desígnios do 25 de Abril, embora mostrasse dificuldades em assegurar uma gestão corrente da informação. E, de repente, numa edição em outubro de 1974, alguns colaboradores que tinham voltado ao jornal decidiram propor de forma muito ingénua o regresso à liderança do município das Caldas de um presidente da Câmara que já exercera o cargo antes do 25 de Abril, no período marcelista. Resultado: crise na Gazeta com essa publicação inopinada, reunião alargada de emergência nas instalações do Sindicato dos Caixeiros, donde sai uma comissão, onde me incorporo, para renovar e liderar a orientação do jornal. Estávamos em novembro de 1974, e por aqui fiquei até hoje. O objetivo deste grupo editorial era consolidar uma orientação democrática, aberta e pluralista no jornal, muito diferente das linhas monocórdicas ou tendencialmente monocolores do período anterior ao 25 de Abril, especialmente em certos momentos mais críticos, e também nos seis meses posteriores à Revolução.

Valter Vinagre
Sem título #61.
série “Meio do Caminho”
Lisboa, Portugal
2016

Que alterações mais significativas foram feitas na estrutura orgânica do jornal?
Dos sete elementos dessa Comissão Editorial, alguns foram-se afastando por razões profissionais e de falta de tempo. O diretor nominal, Adérito Amora, não dispunha do tempo para acompanhar diariamente a vida do jornal e em abril de 1975 pediu a sua substituição. E eu, por decisão unânime, fui escolhido para ser o diretor interino, recuperando uma tradição anterior do jornal que teve um diretor interino por muitos anos. Nessa época, o peso substantivo do jornal estava nos serviços da tipografia e administrativos e de expedição do jornal, que recebiam salário. A equipa editorial fazia milagres para assegurar os recursos para pagar salários e os fornecimentos das matérias primas. Foi necessário também regularizar a titularidade da empresa, por falta de registo do jornal, e problemas com o senhorio. Criou-se uma cooperativa editorial aberta à subscrição pública de interessados. Graças à cooperativa, com mais de 200 associados, foram desenvolvidas outras atividades que permitiram o ingresso de receitas para pagar salários aos trabalhadores, como foi o caso da venda de livros, discos, autocolantes, badges, etc.

Costumas evocar a participação da Gazeta na luta de Ferrel contra o nuclear, em 1976, como um dos momentos mais significativos da afirmação do jornal. Essa luta pode ser identificada como afirmação do princípio da liberdade de imprensa? Ajudou a definir a matriz de independência face a todos os poderes, designadamente políticos?
Foi graças a essa experiência adquirida em França, que não hesitei em abraçar, quando cheguei Portugal a causa da luta contra a projetada instalação de uma central nuclear em Ferrel em finais de 1975. Num clic, foi ganha a Gazeta para esta causa que se opunha “violentamente” aos interesses partidários à esquerda e à direita desse pós-25 de Abril. Esse clic permitiu à Gazeta um protagonismo na região, e sucessivamente no país e a nível internacional, que nos levou a conhecer muito cedo estas movimentações mundiais a favor do ambiente e a antecipar os movimentos de afirmação política alternativa que surgiram, entretanto, em França e noutros países. Num momento em que o confronto era encarniçadamente esquerda/direita, numa região fortemente conservadora, até pelo resultado eleitoral autárquico, foi possível ao jornal durante este longo período afirmar-se de uma forma independente, mesmo continuando a ter posições fortemente críticas para certas decisões locais. A Gazeta encabeçou o movimento ecológico e antinuclear português, tendo proposto a realização nas Caldas e em Ferrel de uma espécie de Festa do Humanité, que tinha visto em França. Em janeiro de 1978 realizou-se o I Festival Pela Vida e Contra o Nuclear, que sem apoios e sem imprensa sensacionalista, conseguiu trazer à região milhares de pessoas de todo o país, e vários estrangeiros, especialmente de Espanha.

Mantraste
Zé, És Cravo
Série: És Cravo
Abril de 2021

No Verão de 1977, a cidade das Caldas ficou associada a uma manifestação de intolerância perante a liberdade artística e criativa, a propósito dos IV Encontros Internacionais de Arte. Como é que a Gazeta lidou com essa situação?
Os Encontros Internacionais de Arte foram também um momento inolvidável, tendo participado em reuniões entre a vereadora Exaltina Gil e o artista Egídio Álvaro, com vista a publicar um suplemento na Gazeta. Recorde-se que nessa altura (1977) fazer uma publicação com muito grafismo era muito difícil e assim acompanhei de perto a organização dos Encontros. Conheci também o outro organizador, o Pintor Jaime Isidoro e a sua equipa do Porto. Durante aqueles dez dias estive em permanência perto dos acontecimentos artísticos e fotografar, fotografar, fotografar (pena que depois tivesse emprestado parte dos slides e os negativos das minhas fotos, os quais não me foram devolvidos). Recordo com profunda nostalgia aqueles dias infernais que se passaram nos sítios mais inesperados e que levantaram uma onda de boatos, de histórias inenarráveis, da parte de gente que não tinha estado presente e que recorria a fantasias para “queimar” o acontecimento. Acompanhei e comentei a onda de comunicados das diversas forças políticas locais, cada uma menos clara em relação ao que se tinha passado, bem como do que se chamavam na época os comentadores de rua, que apenas quiseram apoucar a autarquia, os artistas e a arte contemporânea então em emergência em Portugal.Penso que, para muitos, a ferida nunca sarou, porque continuam a não aceitar a liberdade criativa. Para mim, 45 anos depois, foi algo que por nada gostaria de ter perdido e com o qual muito aprendi em todos os domínios. Na perspectiva da arte contemporânea em Portugal, os Encontros Internacionais de Arte das Caldas da Rainha constituíram uma marca indelével e inultrapassável e um acontecimento histórico.

A liderança política local corporizada na mesma pessoa desde a segunda metade da década de 1980 deu origem a frequentes críticas e ameaças à Gazeta. Alguns desses ataques traduziram-se até em processos judiciais. Que desfecho tiveram esses processos?
Quem se der ao trabalho de percorrer as edições da Gazeta desde o final de 1974 encontra quase em permanência episódios conflituais, digo salutarmente conflituais, com as lideranças autárquicas, e, em geral, com as lideranças políticas locais e regionais. Sempre houve pessoas à direita e à esquerda que nunca aceitaram bem o direito à crítica, a pensar de forma diversa, a exigir uma política de transparência e de diálogo aberto, a aceitar a controvérsia e o contraditório. A nossa atitude terá sido sempre a mesma: respeito pelo direito à opinião e à defesa do contraditório. Os processos que tivemos, que nunca foram dirigidos diretamente contra mim, antes aos autores dos textos, resultaram sempre na absolvição e de demonstração do nosso direito à informação.

Estiveste na direção da Associação de Imprensa Não Diária e nas origens do Cenjor. Que contributo deram estas instituições, nessa altura, para a liberdade de imprensa?

Nuno Fragata
Esperança 74|21
2021

A partir da realização de um Congresso da Imprensa Não Diária nas Caldas da Rainha na década de 80, organizado pela Associação Nacional da Imprensa Não Diária (AIND), fui convidado para a Direção como um dos representantes da Imprensa Regional juntamente com o Badaladas, de Torres Vedras. Desde o início da década tinha-me interessado pelas questões da informática, então em emergência com o aparecimento na Califórnia (Estados Unidos) dos microcomputadores criados em start-ups de fundo de quintal. Na AIND assumi a função de incentivo à introdução de novas tecnologias na Imprensa e especialmente na Imprensa Regional, política que foi apoiada pelo governo da época e lançado um concurso entre os jornais para a aquisição desses equipamentos. Também fui nomeado para uma comissão criada por Despacho Conjunto do secretário de Estado Adjunto do ministro de Estado Adjunto do primeiro-ministro e do ministro do Trabalho para pensar o tema da formação dos jornalistas, reuniões com outros parceiros, que levaram à criação do CENJOR (Centro de Formação Protocolar de Jornalistas), como centro protocolar, tendo eu exposto o meu conhecimento sobre o assunto por pertencer ao um centro de formação, o CENCAL.

Um jornal que toma posição não corre o risco de ter contra si uns porque se sentem criticados na praça pública e os seus adversários porque acham que o jornal se substitui à oposição? Como é a que a Gazeta garante o pluralismo?
É preciso reconstituir o ambiente no qual mergulhou a Gazeta a seguir ao 25 de Abril, marcado pela expetativa de que todos tinham direitos e entre eles o direto à palavra. Isso levantava questões completamente novas para um jornal saído dos tempos da censura. Os artigos eram feitos por colaboradores sem remuneração e pela equipa da redação mais ou menos limitada, que podia ir de duas a três pessoas. Trabalhava-se por puro espírito de cidadania e de participação na sociedade democrática através da escrita. Só muito mais tarde, talvez a partir da segunda metade da década de 1980 passou a haver jornalistas com remuneração embora, dado o estatuto da imprensa regional, o valor remuneratório ficasse longe do que era pago aos jornalistas “profissionais” da imprensa de circulação nacional. No primeiro momento, a direção da Gazeta era objetiva e diretamente responsabilizada por tudo o que era publicado, até porque não havia na época o uso de assinar todos os textos pelos autores. Depois, com a entrada de jornalistas, adquiriu-se o hábito de quase tudo ser assinado. É evidente que se ao longo de tantos anos o jornal e o pessoal interno tomam posição pública sobre muitos dos temas locais, porque estamos em comunidades pequenas e que se conhecem e reconhecem, é sempre possível considerá-lo como fonte de pressão e de oposição. Mas as posições críticas relativamente às políticas locais têm as mais das vezes a ver com assuntos de defesa do património, de ambiente, dos direitos dos cidadãos, da luta contra a arbitrariedade e o abuso da posição dominantes dos partidos maioritários que pouco respeitavam as oposições e a opinião pública. Com o tempo, alguma controvérsia foi diminuindo de intensidade e a maioria compreende este exercício do direito de liberdade de imprensa. Houve alguns que nunca compreenderam e sempre se acharam vítimas de cabalas, mas desses não ficou a rezar a história como se costuma dizer. Por outro lado, a Gazeta é também solicitada para colaborar em iniciativas. Dou exemplos: as Comemorações dos Centenários de Raul Proença e de José Malhoa, o projeto da criação da Casa da Cultura, o arranque da Infancoop e do Centro de Educação Especial, a criação do Museu de Cerâmica, o V Centenário do Hospital Termal, a ESAD. rtc. Realizamos inúmeros suplementos em parceria com coletividades, autarquias, algumas vizinhas, com as comissões organizadoras dos mais variados eventos de caráter cultural, artístico, económico, gastronómico, social, etc. A Gazeta é parte da vida institucional e social da região.

Cultivas um perfil de independente. Há uma fronteira entre não-alinhado e desalinhado?
Creio que, ao fim de tantos anos, sou sobejamente conhecido, com os defeitos e qualidades que tenho demonstrado em tanto tempo. Além de querer e gostar de ser independente, também o sou em termos económicos, porque felizmente desenvolvi simultaneamente uma carreira profissional e académica que me permitiu trilhar caminhos paralelos e realizar trabalho de grande interesse no país e no estrangeiro, contactando com muitas realidades que deram frutos também para o jornal. Vão longe os tempos em que, sem grandes apoios na redação, fazia o jornal nas Caldas, ia às aulas em Lisboa e dava aulas igualmente em Lisboa e vinha nos transportes públicos diariamente às Caldas. A partir de certa altura, quando a exigência científica dos estudos que estava a desenvolver em Lisboa e no estrangeiro obrigou a alguma ausência, pude formar uma equipa redatorial que assegurava as principais tarefas. Entre independente, não-alinhado, desalinhado, prefiro apaixonado conscientemente pela minha terra e pelo mundo, por aquilo em que acredito e pela ideia optimista de que vamos ter um mundo cada vez melhor, apesar dos altos e baixos, mesmo quando muita má fé, interesses materiais imediatistas ou ignorância querem invalidar este esforço comum. De qualquer forma, em tudo na vida coloquei a frase emblemática do Professor Bento de Jesus Caraça, que desde que comecei a frequentar o Instituto Superior de Economia e Gestão em 1977, estava plasmada numa parede da entrada e que me serviu sempre de inspiração e para gizar a minha ação em tudo em que participei: “Se não temo o erro, é porque estou sempre disposto a corrigi-lo”. ■