Emergência Mediática para salvar a democracia

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Luiz Humberto Marcos
Coordenador do Mestrado em Jornalismo Multiplataforma (ISMAI) e diretor do Museu Nacional da Imprensa

A crise viral da covid 19 tem amplificado crises e deficiências, em todo o mundo.
No campo das liberdades e tecnologias de informação, a pandemia fez emergir uma ameaça: a infodemia (boatos e manipulação da informação). A coberto das limitações pandémicas, há ainda a tentação de restringir as liberdades. Ou seja, a liberdade de imprensa – principal pulmão da democracia – está ameaçada.
O mapa desta liberdade no mundo mostra um aumento das restrições de 2020 para 2021. Segundo a RSF (Repórteres Sem Fronteiras) em 180 países, os jornalistas têm sofrido limitações no acesso às fontes de informação, por causa da covid 19, ou fazendo dela um pretexto. O estudo da RSF refere “a dificuldade crescente dos jornalistas em investigar e divulgar temas delicados, principalmente na Ásia e no Oriente Médio, mas também na Europa”. Apenas 12 dos 180 países (7%) podem orgulhar-se de ter um ambiente favorável à informação (eram 8%, em 2020). Portugal, entre os 12, é nono.
O estudo revela ainda uma preocupante desconfiança pública em relação aos jornalistas.
Este panorama abre espaço para a proliferação das ‘fake news’ nas redes sociais.
Acresce que os média vivem uma crise económica forte, por falta de publicidade, quebra na venda de informação, falta de um modelo de negócio digital sustentável, e, sobretudo, pela forma como a informação jornalística é roubada pelos gigantes tecnológicos (Google e Facebook, entre outros). A Austrália começou a contrariar este abuso, seguida da Itália, mas ainda falta muito para o respeito dos direitos autorais do jornalismo.
A ecranvidência é sedutora: fascínio do movimento, da cor, instantaneidade, portabilidade e interatividade. Mas as sanguessugas digitais não devem alimentar-se da usurpação da informação jornalística.

As sanguessugas digitais não devem alimentar-se
da usurpação da informação jornalística

Há num clima preocupante, sem lei nem roque, nas redes sociais. Impõem-se mudanças sérias na educação (para os média e a tolerância) e no procedimento dos ‘gigantes tec’.
Não basta, por exemplo, a União Europeia definir como prioridade o combate à desinformação. Os populismos e as derivas autoritárias proliferam com boatos e manipulação.
É preciso declarar-se o estado de emergência mediática.
A exemplo de outras emergências (como a climática) impõe-se que a ONU e a UE promovam a criação de medidas excecionais de defesa da informação jornalística como pedra angular das democracias.
Algumas ideias para esta emergência mediática:
1. promover regras para que os ‘gigantes tec’ paguem ‘compensações justas’ pelo uso (e abuso) da informação jornalística;
2. criar medidas de apoio (bazuca) às empresas de média para a produção do jornalismo investigativo, rigoroso e plural, em prol da democracia;
3. regular o uso das redes sociais com o registo e a verificação da identidade cidadã, para travar ‘a desinformação’;
4. ativar a regulamentação e a autorregulação do espaço mediático;
5. defender a Declaração Universal dos Direitos Humanos como carta magna da produção jornalística.
No ano em que Portugal celebra o bicentenário da liberdade de imprensa, seria muito oportuna a declaração desta emergência mediática, para evitar-se o “crepúsculo da democracia” (Applebaum) no mundo! ■

Musa Gumus (Turquia)
menção honrosa no PortoCartoon 2019
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