Os efeitos da pandemia na economia do Oeste estão espelhados nos números, justificando que se auscultem os presidentes da associações comerciais e empresariais de Caldas e Óbidos a respeito desta temática. O desemprego na região é uma questão que preocupa todos, numa região onde a agricultura tem mantido viva a economia, quando o turismo e a indústria registam perdas acentuadas. Os meses de Setembro e Outubro serão essenciais para perceber os danos da pandemia no tecido empresarial

Carlos Martinho, presidente da Óbidos.Com

“Os meses de Julho e Agosto e o início de Setembro vieram dar uma alavancagem na economia em Óbidos, mas é sempre muito pouco”, refere Carlos Martinho, presidente da Associação Empresarial do Concelho de Óbidos – Óbidos.Com. “Veio dar um ar da sua graça”, completou.
O desemprego tem-se feito sentir no concelho e “vai ser cada vez mais acentuado”, acredita o empresário, que tem um negócio ligado ao turismo. “Se não houver eventos em Óbidos os meses entre Novembro e Março vão ser ainda mais graves”, assegura o dirigente, lembrando que o concelho vive, essencialmente, da actividade turística.
Este sector conheceu um período positivo no Algarve, com a vinda de milhares de turistas ingleses, mas no caso de Óbidos não se sentiu a vinda de britânicos. “Este ano trabalhou-se exclusivamente com o mercado português e algum espanhol e francês”, esclareceu, referindo também os emigrantes em França. “Os outros mercados foi zero”, lamenta-se.
Carlos Martinho alerta que há empresas com centenas de milhares de euros de prejuízos e que serão difíceis de recuperar, porque este sector não lida com uma matéria vendável, mas sim com uma experiência. Em termos práticos: o quarto que não é alugado hoje não pode ser alugado duas vezes amanhã.
Em Óbidos houve mesmo casos de unidades hoteleiras que se viram obrigadas a devolver o dinheiro das reservas aos clientes.
O presidente da Óbidos.Com revelou também que alguns dos empresários deste sector estão a ponderar fechar as portas até Março do próximo ano.
“Este estava a ser um ano excepcional no turismo, iria ser um ano de excelência a nível nacional e também aqui em Óbidos”, lamenta.
Na vila medieval deixou de se ver a mais de meia centena de autocarros que, diariamente, traziam milhares turistas encantados pelo castelo. “Agora são praticamente zero. Em Agosto viu-se alguns, mas é 1% do que era, até porque as pessoas preferem vir de carro”, salientou.
Carlos Martinho mostrou-se preocupado que algumas empresas não aguentem este segundo round.
No concelho de Óbidos o sector agro-alimentar também tem um peso relevante. Nas empresas do sector primário obidenses “existe uma quebra e existem medidas diferentes que foram adoptadas nas colheitas, mas não há uma diminuição tão acentuada como se está a sentir no turismo”, explicou.

Luís Gomes, presidente da ACCCRO

Luís Gomes, presidente da Associação Empresarial das Caldas da Rainha e Oeste (ACCCRO), defende que a aparente estabilização de indicadores como o desemprego transmite uma segurança que não é real e acredita que os meses de Setembro e Outubro poderão clarificar em que ponto está a economia. Para o empresário, são vários os factores que contribuem para uma calmaria aparente, a começar pelo período de férias, que torna as pessoas mais consumistas. Depois, o facto de a região ter uma forte actividade no sector agro-frutícola tem assegurado emprego nesta fase do ano.
Luís Gomes refere ainda outro factor que irá clarificar a real situação económica e do emprego no país e na região: “Vamos ver quais destes lay-offs que foram introduzidos nos meses de confinamento vão continuar a ser postos de trabalho”.
O presidente da ACCCRO diz que há outros indicadores que levantam sinais de aviso à economia, como o agravamento da dívida pública “muito além do inicialmente previsto” e realça que muitos advogados estão a ter trabalho com processos de despejo de inquilinos, “o que é preocupante num momento como este”. Tudo isto significa, para Luís Gomes, “que estamos num falso bem-estar, naquele bom tempo antes da tempestade”. Outra situação que pode ser prejudicial a partir de Setembro e Outubro, com o aproximar da estação fria, é o regresso da gripe e das constipações. “Ficará sempre a dúvida nas pessoas, que não estarão confortáveis a trabalhar ao lado de uma pessoa constipada, e isso pode ter um efeito negativo na economia”, acredita. Luís Gomes acrescenta que todos os cenários que se colocam são apenas pressupostos e não coisas concretas. “Isso é o pior para os empresários, que precisam de ter um planeamento para puderem tomar decisões. Neste momento estamos a planear para o dia a seguir, ou para a quinzena. Não sabemos se as fronteiras continuam abertas ou fecham, se as pessoas podem trabalhar ou têm que ficar em casa, se vai haver vacina ou não…”. O dirigente diz que, perante a incerteza, o melhor para os empresários e famílias é adoptarem uma postura de contenção nas despesas. “É preciso ter disciplina financeira e tentar fazer algumas poupanças”, afirma. A ACCCRO continua a desenvolver projectos para apoiar o comércio local. Está a ser projectado um programa em que o comércio e a cultura vão andar de mãos dadas, de modo a criar atractividade às Caldas. Em preparação está também o projecto de Natal, que irá avançar em moldes diferentes, “mas não pode deixar de ser feito, isso criaria desânimo nas pessoas”.

Jorge Barosa, presidente da AIRO

O novo presidente da Associação Empresarial da Região Oeste (AIRO) considera que “o desemprego tem tido mais impacto na hotelaria, restauração e similares”.
Jorge Barosa alerta para “despedimentos bastante acentuados” e para o efeito de arrastamento que uma crise neste sector irá, irremediavelmente, provocar noutros.
“O desemprego tem aumentado de forma abrupta”, explica o dirigente, esclarecendo que a taxa aumentou 37% face a Julho de 2019. “O sector onde se sente menos o desemprego é na agricultura, pescas e floresta”, analisou.
No entanto, este é um momento crucial para as empresas. “Estamos muito preocupados com o que vem a partir de agora”, disse Jorge Barosa, referindo que sente “o mercado a cair mais depressa do que os índices estão a registar”.
Se a agricultura tem sido o sector menos afectado e aquele que tem mantido a economia da região bastante activa, também é verdade que “infelizmente, além da pandemia, houve outros factores com influência na região, nomeadamente a meteorologia, que não ajudou”. Actualmente fazem-se “previsões bastante desfavoráveis nas várias colheitas”, salientou o presidente da AIRO.
Por outro lado, o mês de Agosto “não foi bom para o crescimento do consumo”, que aumenta com a vinda do sol e das temperaturas altas.
A nova direcção da AIRO tomou posse em meados deste ano e, apesar de ter um plano de actividades, tem focado todas as suas atenções no auxílio às empresas para superar esta fase. “Temos feito acções de formação e dado acompanhamento legal”, esclareceu Jorge Barosa. A associação está também atenta a fundos comunitários que possam auxiliar as empresas a sair desta fase.
Uma questão que também merece a atenção do presidente da AIRO é a das moratórias quer das famílias, quer das empresas, que “pode afectar a retoma económica”.
No final de Setembro será lançado novo questionário do barómetro empresarial da AIRO, para perceber em que ponto estão e que previsões têm as empresas do Oeste.
O presidente da associação considera que o regresso às aulas “vai provocar um estímulo de consumo e o mercado necessita disso, porque a economia está muito parada”.
A AIRO é um das associações que mais micro empresas ajuda a criar na região, mas a procura dos empreendedores caiu. “O factor de confiança está muito baixo”, concluiu.