Zé d’Almeida e Rafael Bordalo Pinheiro

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Ao convite para intervir na Gazeta das Caldas, no dia em que se celebra a Liberdade de Imprensa associei, desde o primeiro momento, a figura de Zé d’Almeida, um designer gráfico que se expressou em múltiplos áreas, desde o projeto e direção gráfica de livros, jornais e revistas, até ao cartoonismo.
O Zé morreu em fins de maio de 2018, sem ter realizado a grande e desejada exposição dos bonecos que acumulou no seu ateliê no Parque Mayer e sem ter recebido a homenagem que a sua imensa generosidade e a sua inesgotável criatividade justificavam. Esta breve nota vem assinalar esta falta e tentar gerar um sobressalto, talvez uma reação que reavive esses projetos.
Encontrei-me entre os que admiraram e beneficiaram diretamente do seu talento.
Primeiro na Gazeta da Semana, que se publicou entre abril e dezembro de 1976, com direção de João Martins Pereira e Jorge Almeida Fernandes, onde ele era gráfico e ilustrador.
Depois, no Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, em 1977/78, onde, por sugestão da Eduarda Dionísio, lhe entregámos a direção gráfica do boletim O Professor. Os desenhos do Zé para a Gazeta da Semana foram publicados em livro, em 1977.

Um curso nas Caldas
As nossas vidas voltariam a cruzar-se mais tarde, desta vez propiciando também o encontro de Zé d’Almeida com as Caldas e a cerâmica. Estávamos em 1986, o José Luiz de Almeida e Silva inventara, com aquela imaginação desenfreada que o anima, um curso de “jornalista regional”, convencendo-me a participar na respetiva organização, no CENCAL. E lá fui eu à procura do Jorge Almeida Fernandes e do Zé d’Almeida para orientarem a feitura do jornal do Curso.

Morreu em fins de maio de 2018, sem ter realizado a grande e desejada exposição dos bonecos que acumulou no seu ateliê no Parque Mayer

O Zé aproveitou para aprender a trabalhar com o barro, paixão antiga, tentada mas não associada aos saberes técnicos indispensáveis para concluir com êxito a modelação e cozedura de peças. A tentação da tridimensionalidade sairia reforçada, dois anos mais tarde, com a sua chamada (ao lado de António, Augusto Cid, Relvas e Hipólito) a mais uma improvável iniciativa do José Luiz (com a cumplicidade do Vicente do Carmo), um curso de “caricaturista/ceramista”.
A finalidade que animava os promotores desta formação era, claro, a de interessar a nova geração de ceramistas pela renovação da tradição, com raízes caldenses, de fazer humor em cerâmica. Nesse curso, que seria repetido, em 1992, em Lisboa, no Museu do Azulejo, Zé d’Almeida criou um Mário Soares num voo de Superman, empunhando, qual tridente, o símbolo da CEE. Eram os tempos da adesão à comunidade Económica Europeia impulsionados pelo célebre slogan de Soares e do PS, “A Europa Connosco”.

 

Mário Soares na mira
Mário Soares foi um dos alvos mais causticados pelo traço mordaz do Zé d’Almeida. Ambas as experiências governativas que liderou, em 1977/78 e em 1983/85, suscitaram vivas críticas sobretudo pelo encerramento do jornal O Século e pelas alegadas tentativas de controlo da RTP. Boa parte dos cartoons alusivos à liberdade de imprensa assinados pelo Zé d’Almeida personificam em Soares a ameaça desferida sobre os jornalistas.
A cerâmica passaria a partir de 1986 a fazer parte do exercício de cartoonismo do Zé d’Almeida. De duas séries lembro-me bem, a dos músicos e a dos poetas. A primeira deu origem a uma exposição (foi apresentada nas Caldas, no Museu do Hospital e das Caldas, em 2006, com a presença do autor e de António Pinho Vargas) e a um catálogo intitulado “Humor em Sustenido”. A segunda, intitulada “Poetas Como Nós”, foi inaugurada em finais de 2013, no Museu Bordalo Pinheiro.

Em 1986, participou num curso de “jornalista regional”,
que teve lugar nas Caldas da Rainha, numa organização do CENCAL

Praticamente um século separou o nascimento de Rafael (1846) e Zé d’Almeida (1943), mas tal distância foi vencida com a mesma atenção ao desenho, a mesma inspiração procurada no humor e costumes, o mesmo sentido crítico face ao poder manipulador e sobranceiro, o mesmo amor à liberdade, o mesmo respeito pelo povo, o mesmo fascínio pela cerâmica. Zé d’Almeida foi, pelo traço, pelo gosto, pelo jeito trocista e pelas convicções humanistas, um dos mais qualificados herdeiros de Rafael Bordalo Pinheiro no nosso tempo.
Publicamos nesta evocação vários cartoons que assinou ao longo da carreira. E destacamos um cartoon que Zé d’Almeida dedicou ao tema da liberdade de imprensa, com recurso à figura emblemática do Zé Povinho.
Este desenho, de 1986, premiado pela Casa da Imprensa, foi oferecido pelo seu autor à Gazeta das Caldas para inserção na publicação com se assinalaram os 135 anos do Zé Povinho, a 26 de junho de 2010. ■