
Cantores de hoje recordaram a importância de relembrar Abril e os valores que foram conquistados pela Revolução
O serão de 9 de abril foi vivido com emoção no CCC.
A plateia esteve praticamente cheia para viver o espetáculo proposto pelos Anónimos de Abril, um projeto de canções originais e inéditas que procuram registar na memória coletiva o nome de mulheres e homens que enfrentaram o Estado Novo.
No espetáculo, cada um dos protagonistas tem direito a uma canção inspirada na sua história.
Conta-se, por exemplo, quem foi o Chico Sapateiro, um dos dez condenados que fugiu da prisão de Peniche e que também foi preso no Tarrafal. Conta-se também quem foi “Rubina”, uma professora dos Açores que foi responsável por mais de 80 edições do Avante!. Benedicto Villar foi músico, cantor e sindicalista galego e ainda um opositor do regime franquista em Espanha. E reza a história que foi num recital em Compostela, a 10 de maio de 1972, ao lado de Benedicto, que Zeca Afonso tocou pela primeira vez em público o Grândola Vila Morena.
Dá-se ainda a conhecer quem foi Sãozinha, jovem que tinha apenas 17 anos quando foi assassinada. Em 1962, a decisão das autoridades da Ilha da Madeira em desviar as águas que corriam na Levada do Moinho para um novo curso, provocou uma revolta da população. Mas a 21 de agosto, a PSP decidiu intervir em força, batendo, desbravando caminho e abrindo fogo. Uma das balas atingiu mortalmente aquela jovem estudante.
Estes são apenas alguns dos Anónimos de Abril que são homenageados neste espetáculo onde também se fala do neto de Aristides Sousa Mendes, Francisco Sousa Mendes, que seguiu na coluna de Salgueiro Maia no 25 de Abril para derrubar o regime que o seu avô também combateu.
Há muitos outros retratos de pessoas que também fizeram a Revolução. São referidos João Arruda, José Barneto, Fernando dos Reis e Fernando Carvalho Giesteira, os quatro civis que foram mortos pela Pide ao fim do dia 25 de abril de 1974, quando agentes da Pide/DGS dispararam contra uma multidão que manifestava em frente à sua sede na Rua António Maria Cardoso.
No final do espetáculo, Rogério Charraz contou à Gazeta da Caldas que são contadas, ao todo, histórias de 18 pessoas.
Este projeto – que conta com os cantores Rogério Charraz, Joana Alegre e João Afonso – tem andando por todo o país a divulgar estes nomes, “compondo e dando a conhecer a história de muitos anónimos que fizeram a Revolução. A Liberdade teve custos altos para vários portugueses”, disse o artista que dá voz às composições escritas por José Fialho Gouveia que também integra o projeto.
Em março de 2025 foi editado o primeiro disco dos Anónimos, que integra sete canções registadas em estúdio e uma gravada ao vivo.
Em abril do ano passado foi editado um livro com oito histórias dos Anónimos que são apresentadas com códigos QR que dão acesso às respetivas canções.
O livro dos Anónimos – que esteve à venda no final da atuação, no foyer do CCC – conta com textos de José Fialho Gouveia, Aurora Rodrigues (que conta experiência de prisão e tortura) e Miguel Carvalho, jornalista e sobrinho de Branca Carvalho (também homenageada).
Segundo Rogério Charraz este projeto foi estreado em janeiro de 2024 no Tivoli no ano em que foram assinalados os 50 anos da Revolução.
“É um espetáculo muito especial pois falamos de gente comum e vulgar onde as pessoas se emocionam muito”, contou o artista acrescentando que já fizeram mais 30 espetáculos por todo o país. Há pois uma questão de identificação pois “poderíamos estar a falar dos nossos pais ou os nossos tios”. No fundo, a Revolução dos Cravos “não foi feito apenas pelos capitães, poetas e políticos. Houve muito mais gente que deu o seu contributo”, rematou. O espetáculo fechou com a leitura de um poema de Manuel Alegre pela filha, Joana Alegre e com a interpretação da canção “Paz Pão Habitação Saúde e Educação” de Sérgio Godinho.
Expoeste foi palco de temas de intervenção
No dia seguinte, 10 de abril, as celebrações de Abril transferiram-se para o auditório da Expoeste para assistir ao concerto de Sara Vidal e Rogério Cardoso Pires.
O núcleo das Caldas da Associação José Afonso quis assinalar o 25 de Abril e fê-lo sem qualquer apoio institucional.
O auditório encheu-se de gente e, além do presidente da Câmara, a atuação contou com os convidados especiais Francisco Fanhais e Manuel Freire.
“Este ano decidimos avançar sozinhos – é importante para nós continuar a divulgar Abril”, disse Élia Mendonça, da AJA Caldas. Para a responsável , um povo sem memória “não subsiste e não avança”. E nos tempos negros que hoje se vivem “as canções de intervenção fazem todo o sentido!”.
Sara Vida (voz) e Rogério Cardoso Pires (guitarra) fizeram desfilar vários temas chave de Abril. “Vejam bem”, “Que força é essa” , “Vampiros”, “Maio, maduro maio”, entre tantos outros foram intercalados com mensagens como “Fascismo Nunca Mais!” ou ainda “O Pacote Laboral é para cair!”.
Sara Vidal foi explicando momentos sobre as suas atuações ou o facto dos músicos terem decidido juntar “A Morte Saiu à Rua” com o “Cante Alentejano” num evento que pretendeu homenagear as vítimas do Estado Novo. Muitas das canções foram acompanhadas em coro pelo público.
O guitarrista Rogério Cardoso Pires antes de iniciar a interpretação de “Cantata da Paz” fez questão de relembrar que o tema é de Francisco Fanhais, presente no evento e de quem é amigo.
A dupla de músicos faz parte da Associação Sons Vadios, que é da Nazaré, e que se dedica à música tradicional portuguesa.
Segundo a cantora, este duo também se dedica a projetos musicais, logo não costumam atuar muito fora do período em que se celebra a Revolução.
“Participamos em iniciativas específicas que celebram Abril ou com tema específicos como as canções de intervenção”, disse a cantora que neste tipo de atuações, a dupla tenta “que a temática seja o mais abrangente possível, cantando vários autores e cantores”. A artista explicou que a atuação tem um fio condutor pois após os primeiros temas – Traz um Amigo Também e Vejam Bem” onde se apela à congregação, segue-se um bloca dedicado à memória histórica e lembrando velhos tempos em que vigorava o Estado Novo. Há depois temas mais esperançosos que terminam com uma mensagem pacífica, transmitida pela Cantata da Paz.
“Cantigas estão mais atualizadas que nunca!”
Francisco Fanhais e Manuel Freire são artistas históricos ligados a Abril. Para o primeiro, este concerto nas Caldas permitiu-lhe “reviver momentos do passado através das canções que estão hoje muito atualizadas. Parece que há tempos maus que se querem repetir…”. Como tal para o cantor “é sempre bom ganharmos forças através destas letras e músicas”.
E hoje parece que estas cantigas ainda “ganham ainda maior expressão”.
Para Francisco Fanhais é necessário resistir e citando Lurdes Pintassilgo ainda disse: “Nunca ninguém levantou voo que não fosse contra o vento”. São na sua opinião “estas músicas que nos fazem não cruzar os braços”.
Já para Manuel Freire “é muito bom estar aqui entre amigos!”. Para o artista “esta é uma boa maneira de celebrar e, nós, cá vamos resistindo!”.
Élia Mendonça estava feliz com esta realização, que contou com casa cheia, para assinalar o 25 de Abril da AJA-Caldas.
A responsável gostaria ainda de realizar nas Caldas uma exposição sobre a vida e obra de Adriano Correia de Oliveira que “já temos em espera há um ano”. Conta que está a aguardar vaga para ser apresentada na Galeria do Posto do Turismo ou no Museu do Hospital. A responsável ainda gostava de apresentar uma segunda mostra, que se dedica à vida obra de Zeca Afonso e que se designa “José Afonso: andarilho, poeta e cantor”.
Trata-se de uma grande exposição que foi apresentada em Lisboa no Museu da Eletricidade e que tem caráter itinerante e que nós gostaríamos muito de a trazer às Caldas”, rematou.














