
“Através da pedra” mostra as várias facetas do artista e escultor, de 62 anos, que se assume natural da região Oeste
Há vidas que dão um filme, a do escultor Carlos Oliveira já originou um documentário. “Através da Pedra” faz uma viagem pela vida e obra do artista, mostrando as suas diversas facetas e também alguns dos seus projetos mais emblemáticos. Ao som da flauta de Rão Kyao, e com música criada especialmente para o efeito, o documentário tem como cenários o atelier de Carlos Oliveira, denominado Ninho da Paz (Salir de Matos) e a pedreira e fábrica Mármores Vigário, assim como a rotunda junto às Gaeiras, onde é mostrado o processo de instalação do Monumento à Família Gama, da autoria deste escultor.
A apresentação teve lugar no passado dia 8 de abril, no CCC, numa sessão intimista, com família, amigos e parceiros, e que foi também de estreia para o “protagonista” que sorriu e chorou com o filme, que reúne também testemunhos de várias pessoas que com ele se têm cruzado ao longo do percurso.
Assumindo-se da “zona Oeste”, Carlos Oliveira diz ter na alma o cheiro do bronze, da Fundibronze, de Peniche, uma marca profunda das pombas de Nossa Senhora do Bombarral e do ano de 2022, em que esculpiu, na cerca do castelo (Óbidos), o busto de D. Urraca. “Depois tenho, também toda a ancestralidade desta terra, e eu sou um privilegiado porque eu trabalhei com muitos ceramistas”, referiu, lembrando o “mestre dos mestres”, Artur Lopes, que o marcou, de forma profissional e humana.
Autodidata, lembrou que recebeu do pai o primeiro pedaço de barro e que começou a sua formação em modelação no Cencal, juntamente com o irmão.
Carlos Oliveira destacou ainda o parceiro MVC, com quem tem trabalhado nos últimos anos a pedra de Alcobaça, “que tem mais de 160 milhões de anos de existência e é uma matéria que me merece uma enorme responsabilidade e respeito”.
E foi exatamente a pedra, que deu título ao documentário. “Através da Pedra” significa a relação “emocional” entre o artista e a matéria, pedra, “e como essa relação antes, durante e após a sua escolha na pedreira, se manifesta na arte a ser criada”, explica a sinopse do documentário produzido e realizado por Duarte Silva e Alexandre Pataca. De acordo com o realizador, foi uma “viagem” de 13 meses e 27 dias até ao resultado final, “muito emocional”, em que foram sobretudo “pelo sentimento e à descoberta”, para contar uma história real, sem guião pré-estabelecido.
São apresentados diversos momentos do trabalho artístico, desde o martelar na madeira, trabalhar o barro e escolher a pedra para os projetos, mas também, numa componente mais intimista, o dia a dia no Ninho da Paz (onde se encontra o atelier), com Carlos Oliveira a tratar dos animais, a colher os produtos na terra e a partilhar as suas memórias.
Livro e exposição
“Fizemos um documentário de alguém que ainda está vivo”, realçou Alexandre Pataca, realçando a originalidade deste trabalho que irá percorrer o país e que querem ver replicado com outros artistas.
Durante a apresentação foram projetadas diversas fotos antigas encontradas num baú que pertencia ao avô de Carlos Oliveira. Essas imagens, juntamente com muitas outras captadas pelo fotógrafo Francisco Matias, integram o livro que também faz parte deste projeto de homenagem ao artista e à sua arte.
De acordo com os autores, está centrado no processo criativo e na relação do escultor com a matéria, o barro e a pedra. A obra, com 260 páginas, será “acompanhada de banda sonora”, criada pelo músico e compositor, Rão Kyao, e inspirada no quotidiano do artista, de quem é amigo. O projeto “Através da pedra” integra ainda uma exposição.
“O Francisco tirou 8 mil fotografias, das quais foram selecionadas 444”, explicou Alexandre Pataca, dando a conhecer que a exposição vai englobar caixas de luz, onde a figura de Carlos Oliveira surge em grandes dimensões (de um por dois metros).
No final da sessão, Lurdes Esteves, esposa do escultor, disse tratar-se do “concretizar de um sonho”, lembrando que, depois de vários anos de o ter idealizado, a proposta surgiu numa tertúlia cultural em Torres Vedras. “O Carlos merece, muito”, concluiu.












