Eis uma sagração genuína do saxofonismo

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José Alberto Vasco
musicógrafo

Tenho acompanhado com muito interesse a profícua atividade do Grémio Caldense, dinâmica coletividade de cultura e recreio vocacionada desde 2015 para sinalizar Caldas na área da programação regular em termos de arte contemporânea, materializando os seus propósitos em várias infraestruturas locais. Conheço e respeito o saxofonista Rodrigo Amado desde o início da década de 1990, época em que se apresentou várias vezes ao vivo em Alcobaça, no Bar Ben, demonstrando desde logo a sua transversatilidade criativa nos universos do jazz contemporâneo, da nova música improvisada e do rock de vanguarda, em duo com o percussionista Luís Desirat, colaborando em bandas lideradas por João Peste ou nos No Noise Reduction, projeto eletrónico de Rafael Toral e do caldense João Paulo Feliciano. Já então se evidenciavam a sua singularidade musical e o empenho criativo que posteriormente o conduziram à notabilização no circuito europeu do jazz de vanguarda, percurso honrado em frutuosas parcerias com vultos mundiais da estirpe de Joe McPhee, Kent Kessler, Alexander von Schlippenbach ou Gerry Hemingway, entre outros. Sucesso premiado com abalizadas avaliações críticas publicadas em vários órgãos de referência da imprensa especializada mundial, nomeadamente a eleição como melhor saxofonista tenor da atualidade pela El Intruso.
A tarde de 4 de julho de 2021 conduziu-me a Caldas e à sua singular Igreja do Espírito Santo, com a finalidade de aí assistir a mais um dos concertos nela realizados pelo Grémio, nessa ocasião um recital a solo de Rodrigo Amado. Concerto esse recentemente editado em cd, sob o título Refraction Solo, pela editora austríaca Trost, cuja apolínea capa traduz o nome do local do evento para Church of the Holy Ghost, discreto requinte ayleriano que o disco comprova e potencia. Este recital foi indissociável da época em que ocorreu, a da pandemia, tendo sido uma das suas primeiras atuações ao vivo após o inerente período de reclusão que, como em muitos outros casos, também no seu se revelou bem sucedido em termos de evolução e criatividade. Foi também nesse período que se deslocou a Paris e aí comprou o modelo de saxofone tenor que idealizava e se ajustava à sua evolução, um Super Balanced Action Selmer, de 1951, em que a sua arte se cria, recria e movimenta neste ciclo da sua carreira. A audição de Refraction Solo revela estarmos perante um trabalho cimentado a partir de um criterioso escrutínio do saxofonismo jazz, captando e reinventando a sua raíz melódica tradicional e a sua natural energia numa simbólica noção de tempo e espaço a que não é estranha a influência de Sonny Rollins, fazendo-o Rodrigo Amado de um modo em que a consistência técnica e emocional do seu discurso criativo literalmente nos conduz à naturalidade expressiva de Albert Ayler, numa fértil e diacrónica defluência entre corpo e alma, que atualiza e reinventa o conceito de saxofonismo solo, bem na esteira dos seus grandes e eternos catedráticos, mas demonstrando a voz própria de Rodrigo Amado, a mesma voz que o confirma como um inequívoco mestre da improvisação e como o músico português de jazz mais reconhecido além fronteiras. Fundamental no resultado do disco foi a envolvente ambiência e a convincente acústica da Igreja, abençoando Caldas por ter acolhido aquele que será provavelmente o disco de jazz do ano em Portugal e, certamente, o mais autêntico. Está escrito nas estrelas.

Rodrigo Amaro: refraction solo
Trost
Álbum resulta da gravação de concerto na Igreja do Espírito Santo, nas Caldas, em 2021