Testemunho triste de um ceramista com a obra esquecida

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Para qualquer caldense da minha idade, Luís Ferreira da Silva é uma figura mítica, uma vez que nos tempos da nossa juventude, ele representava uma figura carismática, pelo seu pendor excêntrico, controverso e simultaneamente altamente criativo.
A nível internacional os mitos artísticos mais familiares e próximos na época eram Pablo Picasso e Salvador Dali, cujas obras e vidas excêntricas, nos chegavam nos anos 50 e 60 através dos jornais e da televisão (mesmo censurada), permitindo-nos por efeito mimético, ligarmos o ceramista caldense a essa figuras hoje globais.

Mas, tal como os mestres espanhóis, Ferreira da Silva também estava ligado nesse tempo a outra figura que nos marcou na infância e início da juventude, o escritor Luís Pacheco, que também deambulava nas Caldas da Rainha e cuja figura simbolizava também a recusa da aceitação do modelo de vida pequeno burguesa e rústica da cidade termal.
Para uma criança com menos de dez anos o “convívio” à distância com ambos, podia simbolizar ou simbolizou mesmo, um arquétipo do que eram nesses tempos os artistas e escritores, entendidos como seres especiais e com “autorizados” comportamentos de excessos e de luxúria, a que não faltava tabaco e álcool, que eram evitados ou mesmo combatidos pela sociedade conformista e conservadora que dominava a urbe caldense.
Anos depois e especialmente no último quarto de século foi-me permitido um convívio permanente e muito próximo com o ceramista, pintor e escultor, sendo ele próprio a recordar-me renovadas vezes da sua memória que tinha por mim desses tempos em que era apenas uma criança traquina, embirrenta e com fome de saber e de experiências novas.
Quanta estranheza se criava na minha jovem consciência perante pessoas tão exóticas no vestir, no falar, no comportamento que tinham perante a sociedade, nos excessos a que se permitiam, na sua vida pecaminosa e ousada em termos de costumes nos tempos da repressão salazarista, que suscitava uma reacção dúplice: de admiração e inveja como de temor e de infantil indignação.
Do ceramista conhecia aparentemente parte da sua vida pessoal, de cidadão comum e o filho que frequentava o sistema de ensino nas Caldas em simultâneo comigo, mas noutro estabelecimento de ensino. Em relação a Luís Pacheco o conhecimento era mais próximo, uma vez que durante alguns anos ele viveu quase na minha vizinhança e frequentemente percorria a rua onde vivia, cuja porta da mísera casa estava sempre aberta para o exterior e onde se moviam uma das jovens mulheres e alguns filhos, maltrajados e que ele descreveu sublimemente num texto publicado na época e que chocou meio mundo da minha geração. Num dos textos que escreveu retrata um pouco de uma forma ousada ou exagerada que só a ele lhe era permitida a relação com os meus pais.
Recordo ainda o momento, marcante para uma sociedade fechada e obscura em termos de abertura ao mundo, a notícia que correu de que tinha sido atribuída uma bolsa pela Fundação Calouste Gulbenkian a Ferreira da Silva, para uma residência artística em Paris, nos tempos em que a cidade luz tinha duas imagens contraditórias. Uma da capital de um país que recebia portugueses aos milhares fugidos da miséria dominante para trabalhares à procura de melhor vida, mas onde também eram alojados em bairros da lata, conhecidos por “bidonvilles”. Por outro lado, uma capital prestigiada e onde convergiam os principais nomes da cultura mundial e onde emergiu na época (apesar das notícias chegarem muito deturpadas e manipuladas) o mais vigoroso movimento de contestação estudantil –a revolta estudantil do Maio de 1968 – que produziu as mais profundas transformações na cultura e na vida dessa época.
Evidente que nesses tempos essas notícias só chegavam na sociedade caldense a uma minoria de pessoas que tinham a abertura e contactos que privilegiavam estas informações, mas para quem como nós, tivesse seguido para estudar em Lisboa nesse período, a informação chegava fácil e abertamente a esse meio que queria mudança.
Tenho a ideia que depois da partida de Ferreira da Silva para Paris (onde eu próprio viria a encontrar anos mais tarde um seu compagnon de route na capital francesa, quando também ali cheguei ainda nos tempos da ditadura marcelista) Luís Pacheco deambulava pelas Caldas da Rainha, órfão do seu amigo e colega de estroina, invejando a sua sorte e bebendo para esquecer a sua ausência.
Desta época até 1985 os nossos caminhos não mais se cruzaram, dado que a minha vida nesse período percorreu outros locais e cortou as ligações directas ao meio cerâmico. Ferreira da Silva neste período também realizou experiências criativas noutros cantos do país, desde uma experiência frustrada na Benedita (mas que hoje se pode avaliar a elevada qualidade do produto realizado) até a outra deambulação afectiva e criativa por terras do norte do país.
Em meados dos anos 80, quando também regressou às Caldas, para uma nova experiência criativa na SECLA, a que não foram alheios António Cardoso, Vicente do Carmo e o próprio Presidente do Conselho de Administração da empresa, Pessoa de Carvalho, tive o ensejo de o reencontrar no CENCAL – Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica, cuja criação teve génese e grande impulso também naquela empresa caldense.
Ao convite que recebi para participar no projecto do CENCAL neste período não são alheios os mesmos protagonistas, razão pela qual a partir daqui fiquei irmanado com o mesmo projecto e com a cerâmica caldense e depois nacional, europeia e mundial, apesar de o ter feito profissional e academicamente como economista.
A partir de aqui e ao longo das últimas três décadas, passei a partilhar diariamente o pulsar deste sector e deste mundo, passando a contactar em permanência com o Mestre Ferreira da Silva, tendo eu agora uma idade que permitia um convívio e compreensão mais próxima.
Nestes trinta anos, repito trinta anos, partilhei com ele sonhos, segredos, angústias, projectos, trabalhos, exposições, visitas, viagens, que marcaram também a minha vida e pessoa para sempre.
Mais um acontecimento dramático que sofri e que ele perpetuou em duas “telas de azulejo”, que quando eu recobrei a consciência – depois de um longo período em coma no Hospital Universitário de Coimbra na sequência de grave acidente de viação -, ele testemunhou que uma delas, tinha o significado da incerteza e da obscuridão quanto ao meu destino e noutra, quando as ameaças se desanuviaram e a esperança de recuperação havia voltado, ele assinalava artisticamente esse facto com luz, claridade e mais alegria.
Num documentário realizado pela TV Caldas para a Rota Ferreira da Silva e apresentado no início deste ano, é o próprio Ferreira da Silva, que descreve o espírito que o imbuiu na criação destes painéis cerâmicos e que reforçam os laços de grande estima, admiração e gratidão, que ainda hoje me ligam a ele.
Nas centenas de horas de convívio e conversa ao longo do último quarto de século que tive o privilégio de viver e beneficiar, pude conhecer mais de perto o homem e o artista, que não sendo perfeito, chamei-lhe irónica e alegoricamente em texto recente como um “ceramista mais que perfeito”.
Como disse nesse texto elaborado para uma revista da cultura libertária (A Ideia nº 77/78/79 – Outono 2016), dedicado a Luís Pacheco, “Ferreira da Silva era um homem terno e enamorado, desconfiado e cioso dos seus conhecimentos e da sua vida, nunca tendo visto em vida a consagração que merecia.
Mesmo na cerâmica, onde foi um dos maiores ceramistas portugueses desde a segunda metade do século passado, o seu distanciamento assumido e praticado dos grandes meios artísticos condenou-o a uma certa penumbra entre a elite portuguesa. Os mais conhecedores da história da cerâmica portuguesa sabem o muito que fez, apesar de desconhecerem boa parte do seu trabalho, que ele resguardava do conhecimento público.
O ceramista pagou as suas opções de vida e o facto de não ter cultivado escolas e regras. Provavelmente foi, por opção própria, tal como o seu amigo Luís Pacheco na literatura, apesar de grandes diferenças, um “ausente compulsivo e obsessivo” das correntes artísticas nacionais que lhe poderiam ter dado outro reconhecimento e fama (e recursos).”
Mas para os caldenses nos dias de hoje o ceramista apaixonado pela luz das Caldas da Rainha é uma presença permanente e avassaladora, uma vez que nos espreita nos mais variados pontos da cidade, sem que ainda tenha tido o reconhecimento que merece.
Convivemos bastante com o seu desamor por aqueles que não lhe davam a atenção que esperava, quer pela omissão nas suas promessas, quer pela indiferença com que lidavam com algumas das suas obras ou projectos, um dos quais está presente no coração da cidade e objecto de trato de polé.
Se alguma coisa gostaria de conseguir com a elaboração deste testemunho e essa seria a melhor recompensa para o meu “mano” Ferreira da Silva, como ele amistosamente tratava os amigos em certos momentos especiais, era a reconstrução e definitiva oferta aos caldenses e visitantes das Caldas do seu Jardim d´Água, numa terra de ninguém que está entre a cidade e a Mata Rainha D. Leonor.
Completar aquela obra, impedindo a sua degradação e destruição progressiva, seria o melhor tributo hoje ao Mestre. Para mais, não serão precisos muitos recursos para completar a obra e dar-lhe uma utilidade objectiva, e simultaneamente poder ultrapassar o argumento da potencial contaminação dos mananciais de água termal existentes no subsolo.
Na grande maioria das termas existentes em todo o mundo existem lagos, piscinas de ar livre, e outras intervenções, de idêntica ou maior dimensão, que não são colocadas como responsáveis de possíveis focos de contaminação. Nas Caldas, por infortúnio da sorte, uma simples dúvida quase que se tornou numa certeza que tem tolhido as autoridades responsáveis para darem uma solução a tal obra artística.
Mestre Ferreira da Silva não o merecia, como as Caldas da Rainha que ele tanto amava, também não o merecia. Mas a insensibilidade e a ignorância de muitos têm mostrado pelo seu trabalho, têm condenado aquele espaço de eleição ao ostracismo e ao esquecimento.

in “Ferreira da Silva – Obra em Espaço Público

 

1 COMENTÁRIO

  1. Sei bem o que esta obra significou na vida dele. E muitas outras também. Partilhávamos juntos as angustias, as noites mal dormidas e perdidas,as dificuldades,os dias,os meses os anos de luta interior para deixar para a posteriori o que de mais sagrado possuía, a sua criatividade.

    A sua indepêndencia, seu trabalho era sagrado, nada, mas mesmo nada se sobrepunha.

    É triste , muito triste.

    Não merece, continuas cá, agora e sempre.
    Diria mais,de uma grande falta de respeito e sensibilidade!

    AM.