
Festival de literatura e viagens afirma-se como espaço de encontro entre a literatura, a viagem, o pensamento e a criação
Óbidos transformou-se, durante quatro dias, num aeroporto literário, local de encontro de “viajantes” e de partidas para o mundo das artes, com a literatura, a fotografia, o desenho e a música a mostrar as diversas geografias.
Entre 16 e 19 de abril, o Festival Latitudes juntou escritores e leitores para “partilhar histórias, percursos e olhares que ampliam o horizonte comum”, salienta o curador, o escritor José Luís Peixoto que, logo no primeiro dia esteve à conversa com o também escritor e viajante Gonçalo Cadilhe, voltando a fazê-lo no dia seguinte, também com a presença da escritora Raquel Ochôa. Juntos escreveram a obra “Mais Mundo Houvesse”, de evocação a Joaquim Pinto Lopes, “um homem de muitas e muitas viagens”, fundador da agência Pinto Lopes, que “fez muita gente viajar também”. “Nunca imaginámos escrever um livro os três, mas aqui estamos” começou por partilhar José Luís Peixoto, acrescentando que, nele, cada um apresenta “uma abordagem diferente” à vida deste também contador de histórias.
Entre mais de 25 autores, estiveram também à conversa em Óbidos José Eduardo Agualusa, Maria João Lopo de Carvalho, José Pedro Castanheira e Dina Salústio. Ao todo, o Latitudes contou com cerca de 60 iniciativas, que incluíram também oficinas, workshops de desenho e de fotografia, apresentações de livros e concertos.
Foram também várias as exposições que, patentes pela vila, marcaram esta edição. Antes da Porta da Vila, as ilustrações sobre Óbidos, em grande formato, de Ana Rita Manique faziam um “convite à viagem”. No miradouro do Campo da Bola estava patente uma exposição de crónicas do Público e na Nova Ogiva foi inaugurada a mostra da pintura de Nadir Afonso, intitulada “Território de Absoluta Liberdade”. Imagens de grandes dimensões captadas pelo fotojornalista João Porfírio chamavam a atenção na Praça de Santa Maria. São fotografias que “mostram o que de mau acontece em cada país e que são bonitas aos olhos de quem as vê”, caracterizou o autor, destacando que estas mostram a realidade de quem vive naqueles territórios. A par das imagens de conflitos há também cinco que mostram a vida na Amazónia, onde João Porfírio viveu durante um mês. Logo acima, na biblioteca municipal, o caldense João Martins Pereira mostra “Gente que lê”, num conjunto de mais de 30 fotografias captadas em diversas geografias e em diferentes alturas, que em comum têm o ato da leitura. São tudo “fotografias espontâneas”, explicou o autor durante a inauguração, partilhando que há uma “linha condutora”, que é a necessidade, o gosto ou a dedicação das pessoas à leitura em diversos suportes como livros, jornais ou placards de parede.
Este ano os visitantes tinham em seu poder o passaporte Latitudes, que funcionava como um “registo de viagem”, permitindo-lhes colecionar carimbos ao passar pelas diferentes “gates” (locais) e atividades, incentivando assim a circulação pela vila e por todo o festival.
Na cerimónia de inauguração, o vereador da Cultura, sublinhou que atualmente o “Latitudes é muito mais do que a literatura. É um festival de pensamento, de encontro e de experiência cultural”. Também o curador, José Luís Peixoto, salientou que o Latitudes continua a crescer. “O festival é cada vez mais ambicioso e, com essa ambição, também acredito que será cada vez mais notado. Chegará a cada vez mais pessoas, será cada vez mais associado a Óbidos e trará cada vez mais gente à vila”, disse.
Mais do que um festival literário, o Latitudes “é uma expressão concreta daquilo que queremos para Óbidos. Um território culturalmente vivo, intelectualmente inquieto, socialmente participado e capaz de cruzar tradição e contemporaneidade, património e criação, comunidade e projeção internacional”, completou o presidente da Câmara, Filipe Daniel.
Utilizando a metáfora do aeroporto, o autarca realçou a viagem “cívica, educativa e territorial” promovida pelo evento, que sai dos espaços da vila, estendendo-se às freguesias, escolas e comunidade, cumprindo uma “missão pública”, a de “democratizar o acesso à cultura”.













