Quem manda aqui são elas

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Susana Cova é a treinadora da equipa principal de futebol feminino do Sporting

A liderança no feminino ganha expressão, com a ascensão de mulheres a cargos de topo nas empresas e instituições

A equipa de Maria do Céu Santos na direção do Agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, é quase exclusivamente composta por mulheres. Mas, para quem assumiu, em 2014, os destinos de um agrupamento com 300 professores e 2.500 alunos, isso não é sinal de discriminação.
“Tenho uma equipa no feminino, só tenho um adjunto homem. São todas mulheres. Às vezes diz-se que é difícil trabalhar com mulheres, mas neste caso isso não sucede”, assegura a diretora de um dos maiores agrupamentos do Oeste, que lidera uma “equipa coesa”. E com um segredo simples.

Maria do Céu Santos é diretora do Agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro, nas Caldas

“A minha postura é de delegar competências. Isso ajuda a haver um bom relacionamento e os restantes elementos da direção sentirem que fazem parte dessa liderança”, assegura a caldense, de 58 anos, para quem as mulheres têm “uma sensibilidade diferente para gerir os problemas”.

Caldense Maria do Céu Santos tem uma equipa na direção do agrupamento Rafael Bordalo Pinheiro no feminino: só há um homem no grupo

No início da carreira, foi forçada a deslocar-se das Caldas para o Alentejo, deixando os dois filhos com o pai. Um momento marcante e que hoje em dia a leva a “procurar ajudar” as mulheres que chegam ao agrupamento “com filhos, por vezes, ao colo”. “Sei o que sofri. E ainda hoje me emociono quando vejo chegarem com crianças, por isso tento enquadrar e ser útil no que esteja ao meu alcance”, explica.
Carrega este peso emocional praticamente desde que se conhece. Nasceu na Torre e “ia a pé” para a escola no Casal da Areia. Chegou a pensar ser educadora de infância, mas a paixão pelo Francês levou-a para a faculdade. Como os pais não podiam pagar os estudos, começou a trabalhar e fez todo o curso em Lisboa a dar aulas. Terminado o curso, “como se fosse um presente”, passou seis meses em Avis. Lecionou no Bombarral, Cadaval e Caldas, até conseguir destacamento, em 1992, na Atouguia da Baleia, onde ficou dez anos e teve a primeira experiência na administração de uma escola.
Quando assumiu o agrupamento Rafael Bordalo Pinheiro já “tinha os filhos criados”, o que lhe permitiu empenhar-se “ainda mais” a fundo na liderança da escola. “Temos de estar a corpo inteiro nestas funções e para quem tem filhos pequenos é muito mais difícil”, diz a docente, para quem há “uma grande diferença” entre os gestores e as gestoras.
“O tempo para nós, mulheres, diminui drasticamente. No fundo, a vida dos homens resume-se à vida profissional, enquanto as mulheres têm de conciliar a vida familiar, mais a vida profissional. É sempre uma sobrecarga”, assegura Maria do Céu Santos, que não pretende recandidatar-se a mais um mandato. O objetivo, assegura, é voltar a dar aulas. Até porque o agrupamento, “tal como as empresas e instituições, necessitam sangue novo”.

Uma leoa no banco

Susana Cova é a treinadora da equipa principal de futebol feminino do Sporting

No banco da equipa de futebol feminino do Sporting Clube de Portugal está Susana Cova. A treinadora nasceu em Lisboa, mas tem uma grande ligação às Caldas e ao Oeste. Após terminar a licenciatura na Faculdade de Motricidade Humana, em 1997, trabalhou durante o verão para uma empresa de eventos desportivos que promovia torneios de voleibol, futebol de praia e street basket na Ericeira, Baleal, São Bernardino e Peniche. No fim do verão saíram as colocações de professores e foi colocada em Peniche, onde trabalhou durante três anos. Daí voltou a Lisboa, para regressar novamente a Peniche. “Comprei casa, mas por um erro de concurso fui parar ao distrito da Guarda”, conta. Ainda voltaria a Lisboa para depois se estabelecer em Peniche.

Susana Cova deu aulas nas Caldas e tem uma casa em Peniche. Treina as seniores
do Sporting

A ligação às Caldas surge também enquanto professora. Em 2013/14 Susana Cova foi professora na Escola Secundária Bordalo Pinheiro. Seguiu-se um interregno para trabalhar em exclusivo com a Federação Portuguesa de Futebol para depois, entre 2016 e 2019, regressar a esta escola de onde guarda muitas e boas memórias. Das Caldas guarda na memória os alunos, os professores e os funcionários, mas também os momentos das Galas de Natal no CCC (um espaço que elogia).
Na cidade termal sempre gostou da Mata, porque “nem todas as cidades podem ter assim um pulmão”, e também o Jardim da Água do Mestre Ferreira da Silva. Fora da cidade, mas ainda neste concelho, não se esquece da Foz do Arelho.
A liderança era algo que vinha já dos seus tempos como jogadora (onde chegou ao Sporting e à Seleção Nacional). Afinal, “gostava de comandar o ritmo de jogo”.
A técnica tem visto a evolução no caminho da igualdade no futebol (um mundo que era exclusivamente masculino) e não tem problema em enumerar uma dezena de treinadoras que estão a aparecer com muita qualidade. Hoje em dia há mais competições destinadas ao género feminino, há um maior número de formação qualificada dos intervenientes em várias áreas, há um maior número de pessoas envolvidas. A qualidade de jogo evoluiu e nota-se “uma maior integração e aceitação do género dentro da modalidade”. A divulgação, a profissionalização das jogadoras e as idas a grandes competições e para grandes campeonatos também foram benéficos. “Neste momento o que que sinto é que já saímos da expressão ‘o futebol também é para meninas” para passarmos a olhar no sentido de aumentar a competência, qualidade e complexidade do futebol”
Susana Cova considera que, na área do treino, um líder tem que ser muito resiliente. “A confiança, a sinceridade, a justiça e a perceção de que lidamos com seres humanos e que isso é determinante para o rendimento” são outros fatores-chave.
A treinadora, que tem uma ligação afetiva à equipa do A-dos-Francos, realça que os homens e as mulheres têm o mesmo direito à prática desportiva e as mesmas oportunidades. “A presença da mulher no desporto deve ser acarinhada e apoiada”, realçou, contando que quando a equipa do A-dos-Francos foi criada, Susana Cova era professora no Oeste e trabalhava na FPF. “Dei a referência de dez jogadoras”, contou. No primeiro ano o clube tinha uma carrinha que as levava para os treinos e jogos do clube e muitas delas jogaram durante largos anos nesta equipa. Para o futuro considera que o A-dos-Francos tem de olhar para os clubes de futsal e de futebol da região e para o desporto escolar para captar o talento feminino da região.

Liderar em… casa

Beneditense Marta Rufino é diretora de inovação do grupo Sigma

Marta Rufino tem um percurso curioso. Estudou Ciências da Comunicação, estagiou no Diário de Notícias, mas a vida trocou-lhe as voltas, até entrar na Nobre, empresa com sede em Rio Maior, em 2004. Hoje, é diretora internacional de inovação do grupo Sigma, que está presente em 18 países e possui, entre outras empresas, a Nobre, mas dirige a equipa em… casa.

“Fundamental é encontrar um equilíbrio entre a vida profissional e familiar”

Marta Rufino

“Há anos que recorro ao teletrabalho, antes de a pandemia transformar as nossas vidas”, explica a beneditense, de 44 anos, para quem há dois “aspetos” essenciais que diferenciam as lideranças de homens e mulheres.
“Desde logo, a empatia. Somos mais empáticas e temos mais facilidade em colocar-nos do outro lado. Além disso, somos mais pragmáticas. No nosso dia a dia temos de tomar muitas decisões e isso obriga-nos a sermos práticas”, explica.
A antiga diretora de marketing da Nobre identifica, ainda, a “sensibilidade” das líderes para os recursos humanos. “É importante conseguir estabelecer relações de proximidadede com as equipas”, frisa a mãe de dois filhos, uma rapariga de 13 anos e um rapaz de 10, para quem é “fundamental encontrar um ponto de equilíbrio entre vida profissional e familiar”. “Queremos estar a 100% na mulher profissional e a 100% na mulher mãe. Isso é difícil de conciliar”, salienta Marta Rufino, notando que os filhos “nunca são um impedimento para um homem apostar na vida profissional, mas são um desafio acrescido para as mulheres”. ■