
Comissão organizativa da Semana Santa tem planos para inovar e crescer, não deixando morrer esta tradição que, anualmente, atrai milhares de pessoas à vila, sendo especialmente procurada pelos turistas
Doze soldados romanos, fardados a rigor, encabeçam a procissão do Enterro do Senhor na noite de Sexta-feira Santa, pelas ruas de Óbidos, com centenas de pessoas a participar e milhares a assistir. Ouvem-se os tambores que, explica o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Óbidos, Carlos Orlando Rodrigues, “simbolizam o momento em que, segundo as escrituras, o véu do templo foi rasgado após a morte de Cristo”. Nas comemorações da Semana Santa em Óbidos “tentamos estar sempre de mãos dadas com a história, com a igreja e a religião, para enriquecermos as nossas cerimónias”, explica um dos responsáveis pela organização, a cargo de uma comissão composta pela Igreja, a Misericórdia e a Câmara Municipal.
À luz de archotes, o ambiente é de escuridão e de silêncio, “próprio para fazermos todos uma análise interior ou uma introspecção, seja qual for o modo como cada pessoa vê o evento”, afirma, notando que “ultimamente não se vê muito isto, mas era engraçado que depois deste ambiente de reflexão os bares até abriam e a rapaziada nova ia beber uma imperial, era agradável”, recorda.
Numa análise das comemorações deste ano sente que tiveram “muita sorte com as condições meteorológicas, tanto para a realização da procissão do Senhor dos Passos como do Enterro do Senhor, que são os eventos da Semana Santa que trazem mais turistas a Óbidos”. O mesmo responsável diz que este ano sentiu-se um aumento do número de pessoas.
Frisa que o padre Mário Silva “tem tentado realizar a Semana Santa defendendo o património, mas inovando ao mesmo tempo” e “pretende, e muito bem porque vai ao encontro da maior parte dos obidenses, que não se reduzam as celebrações a mais do mesmo, mas sim oferecer ritos significativos e densos de humanidade e de comunicação de um Deus misericordioso”. Carlos Orlando Rodrigues nota ainda que este “tem vindo, com muita delicadeza, a tentar levar a própria comissão a refletir, é preciso continuar a manter a tradição, inovando-a, e indo ao encontro da população”, porque é feita para ela, e não repetir o mesmo todos os anos. “Isso está a ser bom para a recuperação da Semana Santa”.
Sente ainda que um maior envolvimento dos restaurantes seria um caminho interessante para aquele que “é o mais antigo cartaz turístico de Óbidos” e que tem impactos económicos na vila. “Seria excelente tentarmos que os restaurantes se envolvam mais na Semana Santa”, afirmou, elogiando o trabalho da autarquia no enriquecimento cultural. “Este ano tivemos os concertos no Santuário do Senhor da Pedra, que enriqueceu” o cartaz religioso.
O padre Mário Silva fez notar que este ano a primeira procissão, da Ordem Terceira, no primeiro domingo da Quaresma, foi no dia em que houve o incêndio na Capeleira e estava muita gente, mas sentiu-se o impacto na afluência, “uns por curiosidade, outros por impossibilidade de passar”. Ainda assim, este ano, no geral, houve mais gente.
O pároco pretende “envolver” e, “além do religioso e do cultural, que está a funcionar muito bem, alargar, mesmo aos restaurantes, ao nível das ementas e de showcookings”, por exemplo. É que “as tradições ou evoluem ou morrem”, pelo que aponta a “manter a essência, a raiz, mas depois adaptar”. Nesse sentido, este ano não houve a procissão da Mudança de Imagens. “Foi uma experiência”, refere, garantindo que não pretende acabar com nada. “Quero valorizar o que existe e dar-lhe sentido, envolvendo as pessoas”, afirmou.
Na procissão da Ordem Terceira foi colocada a missa no meio da procissão, na igreja de Santa Maria e há mais alterações que sugere, como entregar o Auto do Descimento da Cruz a um grupo de teatro da terra, com o texto sob supervisão do padre. Sente que tal enriqueceria, dada a qualidade que pessoas ligadas às artes cénicas poderiam aportar ao evento.
A comissão que prepara as comemorações é de cerca de 35 pessoas, mas na organização participam centenas. “Vamos fazer uma base de dados” de todos os participantes, revelou. Para o próximo ano pretendem também envolver as outras religiões. “Aqui temos os ucranianos, com o rito bizantino” que, “para o ano, tem mesmo que entrar” na organização e “tenho a certeza que aderem” e isso vai enriquecer a Semana Santa de Óbidos.
Mário Silva destaca ainda o papel turístico das celebrações. “Durante a semana converso com mais espanhóis do que com portugueses” e, tanto o pároco como o provedor da Misericórdia, realçam a colaboração entre Igreja, Santa Casa da Misericórdia e autarquia.
Sobre as contas salienta que “são transparentes”, notando que “a Semana Santa no último ano deu à paróquia um prejuízo de 200 euros, que não é prejuízo!”.
O presidente da Câmara de Óbidos, Filipe Daniel, destacou o aumento no público local e também de turistas na edição deste ano, estimando que se tenha registado uma subida entre os 15 e os 20% face a 2025. O autarca destaca o programa religioso e cultural, notando que procuraram ser “mais ambiciosos” e que isso deu frutos, com os concertos do programa cultural esgotados.
O autarca realça ainda essa aproximação que têm procurado à comunidade, não só neste, mas nos vários eventos e, já de olhos postos no próximo ano, perspetivou a continuidade da aposta neste que é um “momento de grande intensidade religiosa”.
A assistir à procissão do Enterro do Senhor está Maria Almeida, de Óbidos, que vem sempre assistir às comemorações da Semana Santa e frisa que “esta é uma procissão muito bonita” e que todos os anos atrai muita gente, salientando a afluência nesta sexta-feira. “O ano passado chovia muito!”, recorda. Esta procissão “toca-me muito, fico triste porque o meu falecido marido levava sempre o andor de Nossa Senhora e é uma coisa que tenho sempre na memória, fui muitas vezes anjinha quando era pequena e a minha neta também foi até ao ano passado”. Além disso, “o meu irmão fez muitos anos o descimento da cruz”. Esta obidense realça a organização e o impacto turístico da Semana Santa na vila. E se Maria Almeida não perde um ano, também há quem assista a esta procissão pela primeira vez. É o caso de Michael Anderson, que veio de Inglaterra, numas férias de seis dias e está pela primeira vez em Óbidos. “Não sabia das comemorações da Semana Santa, foi uma coisa que apareceu por acaso, mas esta celebração é magnífica e estou muito contente por poder assistir”, referiu, mostrando-se também feliz com as férias. “A comida é boa, as pessoas são simpáticas e a arquitetura é lindíssima”, apontou. “Eu costumo ir à igreja e a minha mãe é uma católica devota, sinto que estas comemorações são muito bem organizadas, muito simbólicas, solenes e com significado, são tocantes e é animador que continuem a realizar-se todos os anos, que assim continue”.















