
Num livro de 1975 pode dizer-se que Santos Fernando continua a sorrir como no primeiro livro em 1957. Por isso pode escrever «A vida é uma carícia» ou «Há um santo para cada dia mas nem todos os dias são santos» e dissertar sobre o Mundo: «Procuras uma solução para o mundo? O quê, aqui? No próprio mundo? Chama-se a isso desenterrar palavras, sem glória.» Este livro é também uma viagem no tempo, no século 20 («Sexo 20») com uma memória da tropa em Tavira em 1948 (Luz, Fuzeta, Manta-Rota) onde havia um sargento arguto e um capitão que fizera duas guerras a cavalo na secretária. O facto de ter «ressuscitado» o avô Lindolfo leva-o do sorriso («O morto não dorme, repousa») àquilo a que podemos chamar a profecia: «A menos que, cem anos depois de me enterrarem, o meu descendente, em cuja fronte haverá a localização dos planetas, se resolva por uma das alternativas: pôr sobre a lage as minhas obras ou reabilitar-me os ossos.» Tantos anos depois de 1975, a página 37 deste livro proclama uma razão: o escritor repudia «o epitáfio com que durante muitos anos o sepultaram em vida». O tempo veio ao encontro dessa profecia, este livro é a prova.
(Editora: Sulfúria Edições, Capa, Paginação e Design: Margarida Mendes, Nota do editor: Vítor Rodrigues, Prefácio: Luís Santos)





