Início Sociedade Caldense lança livro sobre as relações entre Portugal e Bélgica

Caldense lança livro sobre as relações entre Portugal e Bélgica

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Manuel Martins é licenciado e mestre em História Contemporânea

Obra resulta da dissertação de mestrado e trata uma temática pouco abordada pela historiografia

“Depois de nós, o dilúvio”, a frase inicialmente atribuída ao rei francês Luís XV foi utilizada pelo caldense Manuel Martins para intitular o livro, que aborda as relações de Portugal e a Bélgica nos fins do império (1945 – 1960). O investigador leu praticamente toda a correspondência que o embaixador de Portugal na Bélgica, Eduardo Vieira Leitão, enviou a Oliveira Salazar, entre 1945 e 1961, e a ideia que trespassa é que “se os europeus saírem de África eles não vão conseguir governar-se”. Os belgas acabariam por sair do Congo em 1961, marcando o fim de décadas de domínio colonial, enquanto que Portugal ainda manteve as suas colónias em África por mais 13 anos, o que acabaria “por desgastar o regime”.

A obra resulta da dissertação de mestrado em História do século XX, realizada entre 2023 e 2025. Com a experiência da investigação na história do Partido Socialista e na história da Polícia de Segurança Pública (integrou a equipa que inaugurou o Museu da Polícia no Chiado) Manuel Martins tinha eleito esta última temática para a sua tese, no entanto, a falta de documentação acabaria por ditar outro caminho. O gosto pelo estudo da história política e diplomática do século XX e a sugestão de um professor levaram-no a estudar as relações de Portugal e da Bélgica em África nos fins do império. Seguiram-se três meses no Arquivo Histórico Diplomático a “passar a pente fino” toda a documentação existente sobre as relações de Portugal com a Bélgica, especialmente em África.

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E o que existe em 1945? “Temos dois países de média dimensão, europeus, bastante católicos e que, a nível económico, acabam por ser países periféricos”, contextualiza Manuel Martins. Além disso, em 1945, a Grã-Bretanha começa a enfrentar uma crise bastante grave, como toda a Europa, e a nível geopolítico “deixamos de ter a preponderância dos Estados Europeus e começam a surgir duas superpotências, de tradição anticolonial, os Estados Unidos e a União Soviética. Tanto Portugal como a Bélgica acabam por estar sobre a alçada dos Estados Unidos”, explica o investigador.

Uma coisa importante que percebeu ao estudar a cronologia dos finais da década de 40 e da década de 50 foi que, “Portugal não está tão isolado” como a imagem que Oliveira Salazar quis fazer passar, mas que se “integrou plenamente no campo ocidental, mas com características de uma diplomacia muito própria” do ditador. E dá exemplos: a assistência da base das Lajes e da base de Santa Maria aos britânicos e aos norte-americanos e também na NATO, “porque havia bastante interesse, por parte dos Estados Unidos, em manter um ponto de ligação no meio do Atlântico”, E Salazar, em 1945, “era relativamente bem visto pelos norte-americanos e bastante bem visto pelas elites políticas europeias ocidentais”.

A Bélgica em virtude da geografia, também fica muito alinhada com os Estados Unidos.

De acordo com o investigador, para além de Portugal e a Bélgica, também a França e a Grã-Bretanha “entendem que os impérios em África eram a maneira que tinham de contrabalançar a influência que os norte-americanos e os soviéticos estavam a ganhar sobre a Europa”. Havia a ideia de “criar um terceiro campo que mantivesse alguma autonomia geoestratégica”, explica.

A investigação permitiu a Manuel Martins perceber que “havia bastantes contactos informais entre as elites políticas e bastante respeito”, bem como as relações próximas entre o embaixador português na Bélgica, Eduardo Vieira Leitão, e Oliveira Salazar.

A História e a Saúde
O jovem, de 26 anos, não esconde o desejo de um dia fazer o doutoramento e conta que encontrou muita documentação posterior à cronologia abordada. “Há a possibilidade de se dar seguimento, não só nas questões que não foram abordadas nesta cronologia, mas também na proximidade da tribo Bakongo, que atravessavam a fronteira entre Angola e o Congo, ou no papel da Igreja Católica ou das missões Protestantes na formação dos movimentos de libertação”, exemplifica.

No entanto, reconhece que é difícil viver da investigação em Portugal, devido à precariedade que acarreta, pelo que pondera mudar de área. Também voluntário na Cruz Vermelha, Manuel Martins gostava de aprender mais sobre outra das suas paixões, a saúde, e quer avançar para uma licenciatura em Enfermagem.

Entretanto, vai continuar, até setembro, o projeto de investigação para a Calouste Gulbenkian. Antes, também como bolseiro, participou numa investigação relacionada com a descolonização de Timor Leste e a produção do relatório da comissão de análise e esclarecimento do processo de descolonização.

A obra “Depois de nós, o dilúvio” foi apresentada, a 14 de maio, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, e também estará na Feira do Livro, a 11 de junho. Manuel Martins prevê também fazer a sua apresentação nas Caldas.

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