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Os algoritmos são o novo patriarcado?

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Ana Pereira
Mestranda em Comunicação, Marketing e Publicidade

As plataformas digitais que utilizamos diariamente já não são apenas ferramentas tecnológicas de apoio. No livro The Platform Society, Van Dijck (2018) confirma que estas já fazem parte da organização da sociedade e influenciam cada vez mais as nossas interações e rotinas.

Portanto, nesta realidade onde a tecnologia se tornou indispensável, destaca-se o contributo de Shoshana Zuboff (2019) com o seu livro O Capitalismo de Vigilância, no qual explica como a nossa navegação nas plataformas é extraída com o fim lucrativo de ser utilizada para a construção de previsões comportamentais dos utilizadores.

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Resumidamente, as Big Tech que utilizamos, como o Facebook, Instagram ou TikTok, dispõem de algoritmos que recolhem todos os nosso dados de navegação, dos mais diretos desde gostos a partilhas, até aos mais implícitos como o tempo de visualização de um conteúdo numa análise de milissegundos. É através deste rasto quantificável que deixamos diariamente que os algoritmos fazem uma previsão dos conteúdos que são do nosso interesse, e ao apresentá-lo levam a que passemos mais tempo na plataforma: porque gostamos do que estamos a ver e sentimos que a plataforma nos conhece.

O problema é que os algoritmos são “robôs” sem valores morais e, por norma, os conteúdos sensacionalistas e que exploram temas polémicos são os que geram mais engagement entre o público, levando a que sejam disseminados mais rapidamente pelas próprias plataformas.

Nesta lógica, movimentos misóginos atuais, como o Red Pill, obtêm alcance e um apoio exponencial em parte através dos algoritmos das plataformas onde são partilhados, já que sempre que os algoritmos recomendam conteúdos semelhantes àqueles com os quais os utilizadores interagiram previamente, estão a promover e fortalecer a homogeneidade ideológica e a dificultar o pensamento crítico desses utilizadores.

Para as gerações mais jovens, as plataformas digitais chegam a ser essenciais para o processo de socialização, já que estas cresceram num ambiente onde as interações online substituíram muitos convívios presenciais.

Desta forma, em plataformas como o TikTok, estes utilizadores vêem-se limitados a uma bolha de conteúdos recomendados pelo algoritmo que estuda todas as suas ações, e as suas interações acabam por também estar limitadas ao aglomerado de outros utilizadores que são expostos aos mesmos conteúdos, não havendo qualquer espaço para contrastes ideológicos.

Fenómenos reais como as Sephora Kids (crianças que compram skincare anti-envelhecimento) comprovam como os conteúdos consumidos online têm alterado a forma de pensar dos mais jovens e como são perpetuados estereótipos de género tradicionais, onde o sexo feminino enfrenta pressões estéticas e de validação social e o sexo masculino é vítima de masculinidade tóxica e da propagação de ideais misóginos, em idades cada vez mais precoces.

Na plataforma de streaming Netflix encontra-se disponível a minissérie Adolescência, que retrata com transparência a negligência da sociedade ao não reconhecer a importância da literacia mediática nas gerações mais jovens, e as suas consequências cruéis.

Afinal, que futuro estamos a construir? É urgente o controlo dos algoritmos que estão a conduzir o pensamento dos nossos jovens e, sobretudo, a lucrar com a disseminação de ideais retrógradas e patriarcais.

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