Category: Opinião

  • Os incêndios florestais não conhecem fronteiras, a resposta europeia também não

    Os incêndios florestais não conhecem fronteiras, a resposta europeia também não

    Luís Loureiro de Amorim
    Chefe de Missão Ajunto – Representação da Comissão Europeia em Portugal

    Em 2025, o continente europeu passou pela sua pior temporada de incêndios florestais, com mais de um milhão de hectares queimados. Tal deve-se, entre outros, à intensificação dos fenómenos ligados às alterações climáticas. Restaurar a natureza é, por conseguinte, fundamental, uma vez que os ecossistemas saudáveis são mais resilientes aos incêndios florestais.

    É por esta razão que a Comissão Europeia coloca uma forte ênfase na prevenção. Propõe assim reforçar o seu apoio a medidas de cariz ‘ecossistémico’ na prevenção de incêndios florestais. O objetivo é construir paisagens resistentes aos incêndios e atenuar o risco e o impacto dos incêndios florestais através da proteção e da restauração da natureza.

    De que maneira se pretende alcançar este objetivo? Por um lado, a Comissão Europeia adotou um documento de orientação sobre a rede Natura 2000 e as alterações climáticas, que presta aconselhamento aos Estados-Membros para uma abordagem estruturada da adaptação às alterações climáticas nos sítios Natura 2000. As orientações também mostram como promover um planeamento paisagístico resiliente e contêm medidas para reduzir o risco de incêndios florestais, em harmonia com os objetivos de conservação dos habitats naturais.

    Concretamente, a Comissão Europeia continuará a pré-posicionar bombeiros em zonas de risco e a promover o intercâmbio de peritos europeus em combate a incêndios. O intercâmbio de experiências e uma maior cooperação serão também promovidos com regiões propensas a incêndios florestais em todo o mundo. Os Estados-Membros e as partes interessadas serão informados das oportunidades de financiamento específicas. A Comissão Europeia continuará a desenvolver o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, apoiado pelo satélite Copernicus.

    Além disso, a frota de combate a incêndios do rescEU será alargada com a aquisição de 12 aviões de combate a incêndios, bem como de cinco helicópteros. O primeiro helicóptero da frota rescEU, entregue à Roménia em janeiro deste ano, estará pronto para a época de incêndios florestais de 2026.

    A Comissão Europeia está também a trabalhar na criação de uma plataforma europeia de combate a incêndios em Chipre, que funcionará como um centro regional de formação, exercícios e preparação sazonal. Terá um duplo papel: operacional, de resposta a emergências provocadas por incêndios florestais e de reforço das capacidades.

    A Comissão Europeia apresentará ainda uma proposta para uma Recomendação do Conselho da União Europeia sobre a gestão integrada dos riscos de incêndios florestais, a fim de consolidar todos estes esforços coletivos.

    Para mais informação, a Comissão Europeia recomenda a leitura das seguintes referências online:
    Comunicação sobre a gestão integrada dos riscos de incêndios florestais
    Q&A: Gestão integrada do risco de incêndios florestais
    Ficha informativa – Gestão integrada dos riscos de incêndios florestais
    Incêndios florestais na Europa

  • Pais que semeiam o futuro

    Pais que semeiam o futuro

    António José Correia
    Ex-Autarca

    Há histórias que começam antes de qualquer pódio, antes de qualquer campeonato, antes até de qualquer reconhecimento. Começam em casa. Começam com pais que acreditam.
    Hoje, quando olhamos para o surf português ao mais alto nível, há um dado que merece reflexão. Na época de 2026, pela primeira vez, na elite mundial da World Surf League, Portugal está representado por duas atletas: Francisca Veselko e Yolanda Hopkins.

    Duas mulheres. Nenhum homem.

    Mais do que uma curiosidade, este facto revela uma transformação profunda. O surf no feminino ganhou espaço, visibilidade e reconhecimento. Mas esse caminho não se fez sozinho. Fez-se com talento, com persistência, com equipas técnicas competentes e, quase sempre, com o apoio decisivo das famílias.

    Em outubro de 2016, na praia de Supertubos, em Peniche, durante uma etapa da World Surf League, participei na apresentação de um livro infantil da autoria de Filipa Leandro. Integrado na coleção “Vem Surfar com a Pipa, Jaime e Kika”, o livro ligava o universo das crianças ao mar, ao surf e aos sonhos.

    À nossa volta estavam famílias, jovens, surfistas, comunidade. E, entre eles, uma jovem que começava a dar os seus primeiros passos nas ondas. Hoje, essa jovem — Francisca “Kika” Veselko —, filha da autora, compete ao mais alto nível mundial.

    Também no percurso de Yolanda Hopkins encontramos esse suporte essencial. Filha de um pai profundamente ligado ao mar, cresceu entre praias e ondas, num ambiente onde o oceano fazia parte da vida quotidiana. Com o apoio da família, e com grande determinação, construiu o seu caminho, combinando essa base com uma forte autonomia, que a levou a procurar as melhores condições para evoluir e competir ao mais alto nível.

    Mas estas não são apenas histórias de talento. São, sobretudo, histórias de acompanhamento, de estímulo e de presença. São histórias de pais.

    No caso do mar e do surf, isso é ainda mais evidente. São atividades que exigem tempo, disponibilidade, confiança e, muitas vezes, sacrifício familiar. Mas são também espaços de crescimento, de liberdade e de construção de carácter.

    Em Peniche, ao longo dos últimos anos, foi possível criar um verdadeiro ecossistema ligado ao surf. Um clube local particularmente ativo tem desempenhado um papel fundamental, sendo hoje um dos parceiros mais dinâmicos do Centro de Alto Rendimento de Surf. E, por aqui, também, com um forte envolvimento dos pais.

    Quando famílias, escolas, clubes e instituições trabalham em conjunto, criam-se condições para que o talento possa emergir e crescer. E é assim que se constroem percursos de excelência.

    Hoje, quando vemos jovens portugueses a afirmarem-se no panorama internacional, devemos olhar não apenas para o resultado, mas para todo o caminho que os trouxe até aqui — um caminho feito de apoio familiar e de oportunidades criadas no território.

    Num tempo em que tantas vezes se valorizam resultados imediatos, importa reconhecer estes processos longos, silenciosos e persistentes. Porque é neles que se constrói o futuro.
    Entretanto, de 22 de outubro a 1 de novembro, em Peniche/Supertubos, na 11.ª e penúltima etapa do circuito mundial, se tudo lhes correr bem — como esperamos e desejamos —, as nossas Yolanda e Kika aqui estarão a competir. Será uma oportunidade única para conhecermos ainda melhor o seu surf, o seu percurso e a sua história de vida.
    Toca a agendar!

  • Uma caldense na Torre do Tombo

    Uma caldense na Torre do Tombo

    Joana Beato Ribeiro
    Arquivista

    Há muito que procuro informações sobre uma senhora ilustre da minha freguesia. Vi-a muitas vezes nas fotografias de casamento dos meus pais. Era admirada por ambos, especialmente pelo meu pai, que só muda de tom para falar de um pequeno conjunto de pessoas: a minha bisavó “Sansa”, a minha tia Joana, os meus avôs, o seu padrinho e a “Super (Homem)”.

    Esta foi a alcunha de Deolinda Margarida Ribeiro (1920-1999) que perdurou na cidade. Foi a primeira (mulher) caldense a concluir uma licenciatura, em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra, com a tese “A Acção da Rainha D. Leonor na Vida Portuguesa”, mas o seu percurso profissional ainda revela surpresas.

    Nascida no Chão da Parada, onde viveu quase toda a vida e para onde fez questão de voltar, foi emancipada pelo pai em 1940 e rumou a Coimbra, de onde data de 1941 a primeira carta que mandou a Fernando da Silva Correia. Até 1945 fala do curso, do cansaço dos exames, do “descontentamento geral” com os pontos e solicita a interceção em seu nome junto dos professores, a maioria conhecidos deste antigo aluno de Coimbra, como é o caso de Joaquim de Carvalho. A escolha da rainha D. Leonor para uma investigação mais aturada, pode ter sido influenciada por este seu mecenas, a quem Deolinda ofereceu os seus préstimos como paleógrafa, com vista a decifrar o manuscrito de Jorge de São Paulo, pois “teria ensejo de aperfeiçoar e desenvolver os conhecimentos” que, com gosto, adquirira no curso.

    Licenciada, começou rapidamente a procurar colocação no Ensino Técnico, esperando que o “toque mágico” de Fernando da Silva Correia lhe garantisse trabalho, pois valorizava a independência financeira. Em 1946, conseguiu colocação na Covilhã, onde demorou a habituar-se “aos usos e costumes da gente e ao aspecto estático, pesado e triste da paisagem.” Sentiu como nunca “saudade do mar” e só a surpreendeu “A neve [que] apareceu nos píncaros, como se uma chuva de pétalas de flores brancas lhes viesse emprestar, com a sua cor e os seus perfumes, um pouco de beleza e de alegria.”

    Dois anos depois, estas dificuldades não estavam ultrapassadas, sentindo especial “amargura pela maneira como os altos poderes tratam uma classe” – a dos professores. Considerava-os “votados ao ostracismo”, após largos sacrifícios para garantir a aprendizagem e o exercício de uma profissão nobre.

    No início da década de 1950, a correspondência menciona cargos na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional, que levariam Deolinda a afastar-se temporariamente da docência. Entrou em 1955 como terceira conservadora no arquivo nacional, cargo de que pediu exoneração em 1961, quando iniciou um estágio na Escola Comercial Patrício Prazeres, em Lisboa. Procurou incessantemente voltar às Caldas, lecionando em vários lugares, como o Externato Ramalho Ortigão e a Escola Bordalo Pinheiro. No Chão da Parada recorda-se bem a sua proximidade com a terra.

    Aos seus tempos na Torre do Tombo, parece relacionar-se a obra “Assembleia de Mulheres” de Natália Nunes (1964) e a personagem Conceição da Encarnação. A autora foi também conservadora desse arquivo entre 1957 e 1968, o que leva a pensar que foi essa instituição que lhe serviu de inspiração. O livro faz um retrato desse “mulherio, essas «doutoras»” que estavam a “invadir” o mercado de trabalho. Conceição da Encarnação, provinciana – “até parece que ainda traz uma crosta de terra agarrada à pele…” -, envergava “um fato prático autenticamente de homem”, calçava “sapatos de sola de borracha” e não escondia o seu «vício dos livros».

  • 14 horas de espera nas urgências

    Artigo do Correio de Leitores

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  • Em nome da Paz

    Artigo do Correio de Leitores

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  • A transição digital da imprensa regional é ameaça ou uma oportunidade?

    A transição digital da imprensa regional é ameaça ou uma oportunidade?

    Artigo pelo Técnico de Comunicação, David Vieira

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  • O impacto do consumo de têxteis

    O impacto do consumo de têxteis

    Artigo pela Coordenadora do GEOTA, Teresa Lemos

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  • Avelino Rodrigues homenageado no seu 90º aniversário

    Avelino Rodrigues homenageado no seu 90º aniversário

    Homenagem em Lisboa num convívio com militares de Abril e jornalistas realizou-se na passada semana, num restaurante

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  • Açúcar e adoçantes nas crianças: devemos preocupar-nos?

    Vaneza Sichel, Helena Machado Sousa,Inês Menezes, Bárbara Marques
    Pediatria, ULSO-Hospital de Caldas da Rainha

    O sabor doce faz parte da alimentação desde muito cedo. No entanto, nem todo o “doce” é igual, e é importante perceber o impacto que o consumo de açúcar e de adoçantes pode ter na saúde.

    Açúcares
    Os açúcares estão naturalmente presentes em alimentos como a fruta, o leite ou alguns vegetais, mas também são frequentemente adicionados a produtos como bolachas, cereais, iogurtes ou refrigerantes. Sendo hidratos de carbono, quando consumidos de forma equilibrada, têm um papel importante na alimentação. No entanto, o seu consumo excessivo é comum em crianças e está associado a um maior risco de cáries dentárias, obesidade, diabetes mellitus, para além de contribuir para uma preferência persistente por sabores doces. Assim, a Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo de açúcares simples seja inferior a 10% do valor calórico total da dieta.

    Adoçantes
    Os adoçantes são substâncias utilizadas para dar sabor doce aos alimentos, muitas vezes com poucas ou nenhumas calorias. Estão presentes sobretudo em produtos “light” ou “sem açúcar” e são frequentemente utilizados como alternativa ao açúcar.
    Existem dois tipos de adoçantes:
    – Adoçantes naturais: calóricos (açúcares, mel, xarope de ácer…) ou acalóricos (stévia, taumatina…)
    -Adoçantes artificiais: calóricos (açúcares modificados, álcoois de açúcar) ou acalóricos (aspartamo, sacarina, ciclamato…)
    De forma geral, os adoçantes aprovados (acesulfame potássico, ciclamato, neo-hesperidina dihidrochalcona, sacarina, sucralose, taumatina, neotame, glicosídeos de esteviol, sal de aspartame acessulfame e advantame) são considerados seguros em crianças saudáveis quando consumidos dentro dos limites recomendados.

    Consumo nas crianças
    Até aos 3 anos, não é recomendada a utilização de adoçantes nem açúcares. Nesta fase, o mais importante é promover o contacto com os sabores naturais dos alimentos. Os adoçantes artificiais não são permitidos em fórmulas infantis, cereais ou alimentos preparados destinados a crianças pequenas, sendo apenas admitidas pequenas quantidades de açúcares como a frutose ou a sacarose. À medida que a criança cresce, o consumo de produtos com açúcar ou adoçantes adicionados, como refrigerantes ou sumos de fruta, deve ser limitado. Em alguns casos, os adoçantes, especialmente os acalóricos, podem ajudar a limitar o consumo de açúcares na dieta e podem ajudar na prevenção de certas doenças (obesidade, diabetes mellitus) quando combinados com uma alimentação equilibrada e moderada. Por outro lado, é de realçar que por si só não garantem uma alimentação mais saudável e podem manter a preferência pelo sabor doce, dificultando a adoção de bons hábitos alimentares.

    O equilíbrio
    Mais do que escolher entre açúcar ou adoçantes, o objetivo deve ser reduzir o consumo global de alimentos muito doces. Algumas estratégias simples podem fazer a diferença no dia a dia:
    – Preferir fruta em vez de sumos e sobremesas doces;
    – Evitar bebidas açucaradas, reservando-as para ocasiões especiais;
    – Escolher versões naturais de iogurtes e cereais;
    – Não adicionar açúcar ou adoçantes nos primeiros anos de vida.

    Mensagem final
    O sabor doce não precisa de ser eliminado, mas deve ser consumido com moderação. Mais importante do que substituir o açúcar por adoçantes é ajudar a criança a habituar-se a sabores mais naturais, construindo assim hábitos saudáveis para a vida.

  • Sessão de literacia mediática

    No passado dia 24, pelas 10h00, o Auditório da Escola Básica e Secundária Josefa de Óbidos acolheu uma sessão do semanário Gazeta das Caldas, no âmbito do programa da ”Semana da Josefa”, que contou com a presença dos jornalistas Fátima Ferreira e Joel Ribeiro. O tema debatido foi um dos mais prementes da atualidade: as “fake news”.
    Num tempo marcado pela rapidez da informação, destacou-se a importância de saber identificar conteúdos impostores. Verificar fontes, cruzar dados e desconfiar títulos apelativos, matérias que se revelaram práticas essenciais para uma leitura crítica e informada que promoveu junto dos alunos um interesse que, no dia seguinte, em contexto de sala de aula suscitou um leque de questões que foram esclarecidas e debatidas, na aula da disciplina de Português do 12.º ano do Ensino Profissional. Dos vários tópicos abordados, sobressaiu a distinção entre comunicadores e jornalistas. Replicando a informação dos jornalistas, a docente Ana Vale reforçou o esclarecimento: enquanto os primeiros podem privilegiar a opinião ou a imediatidade, o jornalista rege-se por princípios de rigor, de ética e de verificação, assumindo, assim, a responsabilidade de informar com verdade.
    A sessão promovida pelos jornalistas Fátima Ferreira e Joel Ribeiro, foi um contributo considerado excecional, uma vez que evidenciou a urgência de formar cidadãos conscientes e exigentes perante a informação, reforçando o papel do jornalismo como pilar de uma sociedade esclarecida.

    A turma do 12.º Ano do Ensino Profissional (GPSI e TCP) da Escola Básica e Secundária Josefa de Óbidos

  • Relato de Heraldo Maurício é um testemunho de gerações

    Li o relato do senhor Heraldo Maurício Baptista e gostei muito. É um testemunho de gerações, diria do passado e que pouco ou nada dizem às gerações presentes. Outros tempos, não significando saudades desses tempos, porque a “vida era dura” e ainda havia o chicote, usado por vários “donos” (pais, professores, autoridades policiais, etc), incluindo a sinistra Pide.
    “Nascido em 1933, no Algarve, foi para Lisboa com 14 anos”
    – Mais velho do que eu em 17 anos, mas, mesmo assim, compreendo o seu percurso de vida porque o meu ainda terá sido(foi) pior. A mim, trouxeram-me para Lisboa com 12 anos, para marçano.
    “Fiz o curso industrial na escola Machado Castro e comecei a trabalhar nos estaleiros navais Parry & Son”, nas docas secas em Cacilhas”.
    – Não diz se o fez como trabalhador-estudante. Eu, aos 15 anos, matriculei-me na escola comercial nocturna (estruturado para 6 anos letivos para os trabalhadores-estudantes, em vez dos 5 dos não trabalhadores), iniciando a persecução de um sonho interrompido após o exame da quarta classe. Pobreza, com vários componentes.
    “…foi para a tropa…”.
    – Ainda não tinham eclodido as guerras coloniais, digo eu.
    “Depois foi para a Escola Náutica tirar o curso de Máquinas…”.
    -Também eu continuei a estudar até à Universidade e sempre como trabalhador-estudante, dos 15 aos 32 anos, incluindo os 3 anos que passei no serviço militar obrigatório (Outubro de 1971 a Outubro de 1974).
    “Do Estreito de Ormuz recorda os vários portos para carregar, com diferentes qualidades de combustível, para diversos fins. Ormuz é um estreito, muito desértico” e a maior parte dos portos fica localizado a quilómetros das cidades.”   – Hoje, por causa do conflito militar naquela zona, Ormuz, onde os portugueses aportaram em 1507, liderados por Afonso de Albuquerque e ali estabeleceram uma presença significativa na região, construindo a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje é um importante marco histórico. A tomada de Ormuz foi um passo importante para os portugueses, pois controlava a entrada do Golfo Pérsico e permitia o acesso a rotas comerciais valiosas. A presença portuguesa em Ormuz durou até 1622, quando a cidade foi conquistada pelos persas (Pérsia, atual Irão, após a queda do “Xá da Pérsia”. O estreito de Ormuz está nas bocas do mundo, porque, ironicamente, não fosse uma passagem estreita, está a “apertar-nos” em toda a linha, porque em tudo (ou quase), combustíveis e provenientes do petróleo são elementos vitais.
    São relatos como este do senhor Heraldo Maurício Baptista, na memória dum cidadão um com 93 anos (!), que deveriam ser exibidos nas escolas, principalmente aos alunos mais crescidos (do nono ao décimo segundo ano) para que entendam o valor do estudo e da cidadania, mas, como disse, sem saudades desses tempos. O meu exemplo também faria parte dessa “matéria” escolar.

    Serafim Marques

  • As Cidades Visíveis

    As Cidades Visíveis

    Paula Ganhão
    Gestora de Projetos

    Há cidades onde a arte se recolhe aos museus, silenciosa, contida. E há outras onde se dilui no quotidiano, ocupa o espaço público e se insinua em recantos improváveis.
    No Oeste, essa presença revela-se de forma subtil: um mural num lugar antes esquecido, uma montra convertida em instalação, um ensaio por detrás de uma porta entreaberta. Um ritmo quase impercetível, mas constante para quem percorre a cidade com atenção.

    Muito se deve às escolas de arte, associações culturais, ateliers e coletivos, e a todos os pontos de contacto com artistas. Ao longo dos anos, alunos, professores e cidadãos chegaram, exploraram e deixaram marcas. Para além de formar criadores, estes espaços tornam a cidade um laboratório vivo, onde se ensina a arriscar, falhar, observar e compreender o que nos rodeia.

    Mas um artista não é apenas alguém que produz. Tal como em As Cidades Invisíveis, onde cada lugar se revela através de um olhar, também aqui o gesto artístico reconfigura o que vemos, desloca significados e sugere novas formas de ver onde tudo parecia familiar. Mesmo sem intenção declarada, interfere na forma como habitamos os dias, abrindo brechas no que parecia adquirido.

    Uma escultura não resolve a crise da habitação. Uma exposição não corrige desigualdades. Mas a arte cumpre algo raramente contabilizado: revela o que se tornou invisível pelo automatismo. Suspende rotinas; cria desvios; introduz hesitação. Num tempo que exige rapidez e consumo acelerado, essa pausa — como um desenho que nos faz parar por um instante — pode ser mais transformadora do que parece.

    Nos percursos de arte urbana que se multiplicam pelo país, isso é evidente. O que poderia ser apenas uma atração turística torna-se, por vezes, espaço de reflexão: sobre identidade, memória, território. É nesses roteiros que se acumulam imagens, sinais e intenções que expõem interrogações e modos de ver o que nos rodeia — nem sempre consensuais, mas quase sempre reveladores.

    Estes roteiros podem atrair pessoas e dinamizar zonas. Mas a função da arte não deve reduzir-se ao imediato. O seu valor está em questionar, desmontar narrativas e propor outras, alargar perceções e criar novos sentidos. O inesperado não deve tornar-se previsível; o desassossego não deve ser domesticado.

    Talvez seja esse o verdadeiro papel da arte: não para tornar o mundo mais bonito, mas para o tornar mais visível.

    Uma cidade sem artistas pode funcionar. Pode ser limpa, eficiente, até atrativa.

    Mas será sempre uma cidade que evita olhar-se.

    E uma cidade que não se questiona não é neutra.

    É apenas obediente.

  • A Cor do Tempo

    A Cor do Tempo

    Manuel Bandeira Duarte
    Designer e artista

    Na continuidade do tema do ‘tempo’ e relembrando a crónica anterior, abordei a forma como este é vivido e sentido – quase invisível, mas permanentemente presente no gesto do traço. Hoje volto a ele, como quem retoma uma conversa interrompida, mas desta vez deixo que o traço dê lugar à cor. Isto porque, se a linha do traço fixa o instante, a aguarela respira-o. É na cor que encontro a outra dimensão desse mesmo tempo: fluido, sensível e aberto ao acaso. A aguarela não impõe; antes sugere e acompanha o traço.
    A origem desta técnica artística transporta-nos a práticas antigas de pintura, nas quais a água e o pigmento se encontravam para criar transparências e atmosferas. Há nela uma leveza ancestral, uma capacidade de captar a efemeridade de gerações e gerações. Talvez por isso sempre me foi próxima. No meu caso, há ainda uma herança direta: a caixa de aguarelas que utilizo carrega a história de um familiar. Com índices do tempo, chegou até mim como um prolongamento do seu gesto. Mais do que uma ferramenta, é memória.

    Tal como o traço, também a cor revela quem somos. A forma como escolhemos aplicá-la, a intensidade, a contenção, o ritmo. Tudo isto traduz uma interpretação íntima do mundo. Há dias em que a cor surge contida – quase silenciosa; noutros, irrompe com maior intensidade. A emoção infiltra-se na água, dilui-se no pigmento e fixa-se no papel.

    Existem diversos formatos de aguarela. Habitualmente utilizo-a em pastilha – um trapézio invertido condensado de pigmento, que se encaixa no mostruário, isto é, a caixa metálica azul, que se abre como um pequeno baú. Lá dentro, a cor habita em todos os cantos: nas pastilhas, nas misturas improvisadas, nos vestígios de trabalhos anteriores … cada abertura é um reencontro com o passado.

    A escolha de cor é uma decisão, sendo que a água torná-la-á mais transparente ou opaca. No meu processo, procuro o equilíbrio: apontamentos maiores e mais diluídos, ou gestos contidos, mas intencionais e opacos, que marcam o ritmo e o dinamismo da composição. Os pincéis, com reservatório de água, acompanham esse gesto: de diferentes formas e intensidades, de ponta bicuda – para detalhes, ou chanfrado – para manchas. Com o auxílio de um pano, já tingido pelo tempo e pela cor, retiro e ajusto a cor no pincel.

    Ao aplicar a cor há um certo alívio nesse instante, como se, finalmente, o desenho encontrasse a sua voz. Assim, se o traço é a expressão da nossa identidade e a assinatura o nosso bilhete, acrescento agora: a cor é o nosso reflexo. É nela que o olhar se interpreta e o tempo se torna visível.

  • Redes sociais: o conteúdo é rei, mas a consistência é rainha

    Redes sociais: o conteúdo é rei, mas a consistência é rainha

    Maria Ventura
    Co-fundadora @ Dois Meios

    Criar conteúdo para redes sociais tornou-se uma das formas mais comuns de marcar presença no digital. Mas, no meio de tantas publicações, tendências e formatos, há uma ideia que continua a fazer toda a diferença: não basta criar conteúdo bom, é preciso criar conteúdo de forma consistente.
    Uma publicação bem conseguida – o tão almejado conteúdo viral – pode gerar atenção momentânea. Pode ter muitas visualizações, muitos gostos e até algum impacto imediato. Mas, por si só, raramente constrói algo duradouro. O que constrói reputação ao longo do tempo é a consistência.
    Num ambiente onde o algoritmo muda com frequência, há algo que pouco muda: o comportamento humano. As pessoas confiam naquilo que é previsível, reconhecível e coerente. Confiam em marcas que aparecem com regularidade, que mantêm uma linha de comunicação clara, coerente e consistente, isto é; que não desaparecem durante semanas para depois voltarem de forma inconstante e desorganizada.
    Para uma PME, ser consistente não tem de significar publicar todos os dias. Significa, acima de tudo, estar presente com critério, estratégia e regularidade. Publicar duas ou três vezes por semana, ou até uma vez, pode ser mais do que suficiente. Contando que haja consistência na mensagem, no tom e na qualidade a frequência é o menos.
    Na prática, isso traduz-se em algo simples: é preferível um bom conteúdo por semana, pensado e alinhado com a identidade da marca, do que várias publicações feitas sem critério, apenas para “picar o ponto”.
    É aqui que entra a importância de um plano de conteúdos, quase como um plano editorial adaptado às redes. Mais do que um calendário, é uma ferramenta de foco que ajuda a organizar ideias, antecipar temas, evitar decisões de última hora e garantir que a comunicação segue um fio condutor, uma linha lógica, estruturada e consistente ao longo do tempo.
    E aqui a mensagem a sublinhar é esta: a consistência mantém a marca presente na memória do público. E no digital, ser lembrado é meio caminho andado para ser escolhido. ■

  • Espetáculo no CCC

    No espetáculo de dia 20/03/2026 os espectadores que compraram bilhetes para as duas primeiras filas da plateia( os bilhetes mais caros) foram enviados para o espaço entra a ultima fila e a parede do CCC, onde foram colocadas cadeiras que deviam estar num armazém(Cadeiras tipo Taska) sem qualquer segurança pois não estavam fixas, levantando questões de seguranças para os espectadores pois não podiam utilizar o corredor em casa de incendio ou outro acidente, prejudicando os espectadores que ficaram mais baixos que os utilizadores da ultima fila da plateia, e sem condições de som , quando pagaram um bilhete mais caro e foram os mais prejudicados isto na presença do Sr, Diretor do CCC, do Sr. presidente da Camara de Caldas da Rainha, e do Sr presidente da Junta de freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, encontrando-se em amena cavaqueira e sorridentes sem ter qualquer sentido de responsabilidade pelo que estava a acontecer, virem pedir desculpa e propor um situação alternativa como manda a lei.

    Hernâni de Sousa

    N.R.: Gazeta das Caldas contatou o CCC, que enviou a seguinte resposta:

    Caro senhor Hernâni Sousa,
    Em resposta ao seu email, cumpre-me mais uma vez pedir desculpas pelo incómodo, pelo transtorno causado no dia do espetáculo LAR DOCE LAR. Tendo havido uma avaria nas 3 filas da frente, e na impossibilidade da sua reparação em tempo útil, tive o cuidado, eu próprio, na entrada para o espetáculo, de falar com todas as pessoas portadoras de bilhetes para essas filas e explicar-lhes o sucedido. Pedindo desculpas pelo incidente, e que iriam ser encaminhadas para outros lugares criados de recurso. Para compensar, ou pelo menos para que houvesse da nossa parte um gesto de generosidade pelo sucedido, entreguei pessoalmente a cada um dos espetadores nesta situação, um voucher para poder assistir gratuitamente a um espetáculo à escolha, até final do ano.
    Em face de um problema imediato, foi a forma que encontrámos para encarar uma situação imprevista. Registei a compreensão de todas as pessoas com quem falei e não me chegaram ecos de descontentamento.
    No entanto, reitero as minhas desculpas pelo incómodo, perante uma situação que nos ultrapassa.

    Mário Branquinho, Diretor Geral do CCC

  • Visitar o Concelho de Caldas da Rainha

    Visitar o Concelho de Caldas da Rainha

    António Marques
    Técnico de Turismo

    A primavera é a estação do ano mais bela em Portugal onde a Natureza, com a sua paleta mágica pinta a paisagem de mil cores e a vida renasce por milagre fazendo-nos acreditar que vale a pena viver.

    Os dias são mais longos e mais quentes e todos sentimos uma alegria imensa e uma vontade incontrolável de sair de casa para um passeio agradável.

    A Primavera sucedendo aos rigores climáticos do inverno, simboliza a renovação da vida, a beleza e a metáfora da eterna juventude e da redescoberta interior.

    A paisagem torna-se verdejante e alegre, trazendo uma sensação nova de afirmação, após os dias difíceis de mau tempo que Portugal viveu recentemente.

    As temperaturas amenas e o aumento da luz solar tornam os dias perfeitos para atividades ao ar livre.

    Olhamos em cada nascente, os nossos dias de meninos correndo pelos campos em busca duma flor que se abre em cores tão suaves e aromas tão intensos que os sentidos se perdem num caos maravilhoso.

    Nesta Primavera vamos conhecer melhor o Concelho de Caldas da Rainha.

    Viajantes nos caminhos das Franças e Araganças calcorreamos as terras alheias, mas caso espantoso, raro é conhecermos os recessos fragosos dos nossos montes, escutando as melopeias das ribeiras que saltando de fraga em fraga alcançam o mar imenso fronteira de um Concelho incrível, belo como os mais belos, em Portugal.

    Rever na Primavera o que vimos no Verão, rever de dia o que já foi visto de noite, rever o Sol onde antes a chuva caía, rever er a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

    É preciso recomeçar a viagem que é também o pretexto para refletir sobre uma época de tantas indignidades e até ignomínias, onde é sempre preciso recomeçar.

    Em Santa Catarina vamos subir ao Monte do Castelo, e na Foz do Arelho passeamos as margens da maravilhosa Lagoa.

    Em Salir do Porto Visitamos a Ermida de Santa Ana der onde colhemos um dos mais majestosos cenários da Região.

    Em A dos Francos e no Landal (Santa Susana) levamos a família a merendar nos magníficos e acolhedores parques de Merendas.

    Visitamos a Mata Nacional das Mestras ( Carvalhal Benfeito e Santa Catarina) 84 hectares de do primitivo manto florestal de Portugal, sobretudo povoado por quercus.

    Nos Vidais procuramos os fosseis das árvores petrificadas na Ribeira de Castros.

    Em Alvorninha passeamos pelos caminhos da barragem e visitados Almofala um antigo acampamento Árabe.

    Em Santo Onofre e serra do Bouro no Miradouro da Arrinhada, contemplamos as berlengas e do outro la do Atlântico acenamos aos nossos imigrantes na s Américas.

    Na área urbana o maravilhoso parque D. Carlos I.

    São apenas sugestões para viver a Maravilhosa Primavera em Caldas da Rainha.

    Vamos abrir um parêntesis para a vida quotidiana das populações, o seu olhar perspicaz e finamente escrutinador.

    Viver a Primavera como se fora a primeira vez, ficamos admirados perante a sua exuberância, lembrando em cada amanhecer a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma emoção.

  • Autoridade ou permissividade

    Autoridade ou permissividade

    Lurdes Pequicho
    Educadora de Infância

    A educação é um mundo complexo, não só pela diversidade entre todos nós e a educação que cada um recebeu, como também pela infinidade de “teorias” que hoje em dia estão disponíveis e que sinto, que por vezes confundem mais do que ajudam.

    Felizmente vejo muitos pais a selecionarem estratégias da educação tradicional e a tentarem encontrar alternativas a essa forma de educar. No entanto, as indicações não são claras. Diz-se para ter paciência com as crianças, para dar valor à criança, para ter as opiniões da criança em atenção e sim tudo isto é verdade, agora a forma como se concretiza é que nem sempre vai ao encontro do que estas novas abordagens indicam. Temos a participação da psicologia positiva, da parentalidade consciente, das neurociências e do coaching por exemplo, que nada têm a ver com uma tendência atual generalizada, que é a permissividade. Quando os adultos querem proporcionar à criança um momento de liberdade tal, que na prática não expressam limites, as crianças sentem-se ignorados, desprezados, e vêm isso como desamor e abandono e começam a chamar a atenção, geralmente da pior forma.

    Por isso, é importante esclarecer que estas abordagens educativas remetem-nos para o respeito pelas necessidades das crianças, para o poder da conexão, empatia e responsabilidade pessoal. E tudo isto está no oposto do autoritarismo que nos remete muito para educação tradicional, na qual os sentimentos da criança não são valorizados, em que executam ordens e obtém consequências negativas, através do medo e da revolta interior que lhes causa.

    Já a autoridade, é o ponto de equilíbrio entre ambos. É responsabilidade dos adultos exercerem essa autoridade, pois na família são eles que têm a prontidão neurofisiológica para a executar. Devido ao pleno desenvolvimento do neo córtex, tomam decisões e preveem possíveis consequências, assim como definem os princípios e valores a serem seguidos pelo sistema familiar. Esta autoridade vem no sentido de conhecimento, de experiência e de desenvolvimento cerebral, uma vez que o adulto é capaz de estabelecer os limites nas relações familiares e nas relações dos membros desse sistema com o ambiente externo. A criança é convidada a se envolver no processo, na medida da sua prontidão psicológica e maturação cognitiva, mas a decisão final é dos pais e nunca da criança, por não estar pronta para tomar certas decisões.

    O segredo está no equilíbrio. Estabelece limites claros ao teu filho e exerce a tua autoridade, com conexão, empatia e acima de tudo com muito amor.
    Com amor.

  • Habemus Presidente

    Tal como AJ Seguro, sou beirão, frequento as Caldas da Rainha há mais de 80 anos, casei e tenho filhos caldenses. Saí daqui para o ensino Superior e agora moro no Concelho. A eleição do dr. António José Seguro para a Presidência da República, só por si, não representará benefícios imediatos para a Região do Oeste, mas, e só por isso, poderá trazer influência acrescida; assim:

    1- A Região Oeste que engloba a faixa territorial desde Peniche a Alcobaça, passando por Rio Maior e Bombarral e fechar de novo no mar de Peniche à Nazaré, além da população residente, tem fluxos enormes de população sazonal por virtude das suas excelentes praias; ora, só este factor, como acontece no Algarve, exige que no centro deste “território”-Caldas da Rainha-, haja instalações hospitalares apropriadas que protejam os residentes e a população flutuante.
    2- A Lagoa da Foz do Arelho, nos concelhos de Peniche e Caldas da Rainha, é das maiores bacias de água salgada da Europa! Todavia tem sido desprezada pelos técnicos e temos observado um assoreamento lento, mas constante, do seu leito com a destruição da sua biodiversidade! Não é com máquinas da construção civil com “aberturas da Lagoa” para o mar que se resolve esta importantíssima questão
    3- Depois temos a Fruta e a Olaria Caldense que só por si, são tremendos ex-libris!

    Duarte Silva

  • Oeste: luta, memória e futuro

    Oeste: luta, memória e futuro

    António José Correia
    Ex-Autarca

    Na minha última crónica dei nota da presença da Comunidade Intermunicipal do Oeste na Bolsa de Turismo de Lisboa. Hoje, e porque acompanhei, posso afirmar com convicção: o Oeste esteve à altura do desafio — e foi mais longe.

    A participação na BTL, complementada pela presença na Nauticampo, confirmou a dinâmica da Estação Náutica do Oeste, coordenada pela Oeste CIM. Em ambos os eventos, o território apresentou-se de forma integrada, mobilizando empresas, entidades públicas e parceiros.

    Na BTL, no stand do Turismo Centro de Portugal, moderei um painel promovido pela Rede das Estações Náuticas de Portugal, com a participação de várias estações náuticas, incluindo a do Oeste e a sua empresa parceira “Surfers Cove” que está a construir uma piscina de ondas no concelho de Óbidos. Mais de 20 parceiros empresariais da Estação Náutica do Oeste marcaram presença, a que se juntaram empresas da fileira enogastronómica, transformando o stand da Oeste CIM num verdadeiro espaço de negócios, com agendas preenchidas com buyers e DMCs de vários mercados internacionais.

    Foi também neste contexto que dinamizou o debate “Do oceano à onda controlada”, onde Peniche voltou a afirmar a sua visão integrada para o surf. Já na Nauticampo, o Oeste marcou presença no espaço das Estações Náuticas da região Centro, com seis parceiros empresariais, participação em debates e a apresentação do Campeonato do Mundo de e-foil, a realizar em junho, na baía de São Martinho do Porto.

    Mas março trouxe-nos também memória — e emoção.

    Assinalaram-se os 50 anos da marcha do povo de Ferrel contra a instalação de uma central nuclear. Participei nessa marcha, a 15 de março de 1976. Como muitos, senti que estávamos a defender muito mais do que um território — estávamos a proteger o nosso mar, a nossa terra, a nossa segurança, a nossa identidade e o nosso futuro.

    Mais tarde, já como Presidente da Câmara de Peniche, tive a honra de dinamizar as comemorações dos 30 e dos 40 anos desse momento maior de cidadania. Agora, aos 50 anos, voltou a sentir-se essa força coletiva.

    As comemorações, organizadas pela Junta de Freguesia de Ferrel e pela associação “Rabeca”, com o apoio do Município de Peniche, tiveram uma adesão extraordinária. Destaco, com emoção, a recriação da marcha pelos alunos da Escola Básica de Ferrel — um testemunho vivo de que a memória continua a fazer caminho.

    Num dos debates, partilhei este momento com José Luís Almeida e Silva, que, enquanto diretor da Gazeta das Caldas, acompanhou e apoiou essa luta, contribuindo para lhe dar uma dimensão regional e nacional.

    E talvez, algures entre o passado e o presente, ecoe ainda a voz de Fausto Bordalo Dias, lembrando-nos — como em Rosalinda — que há caminhos que se fazem com coragem, de olhos postos no mar e no futuro.

    Hoje, olhando para trás, tenho uma convicção profunda: o nosso mar não seria o mesmo se aquela decisão tivesse sido outra. E, com ele, também o desenvolvimento de Ferrel e do concelho de Peniche teria sido diferente.

    Para além da agricultura, o crescimento do turismo, a afirmação internacional do surf e a valorização do território — tudo isso tem raízes nessa escolha coletiva.

    Entre a afirmação do Oeste nos mercados internacionais e a celebração da sua memória, há um traço comum: a participação das pessoas.
    Ontem como hoje, é essa participação que constrói o território.E é com ela — e com o mar sempre presente — que continuamos a projetar o nosso futuro.

  • Arquivos e Mulheres

    Arquivos e Mulheres

    Joana Beato Ribeiro
    Arquivista

    Sou mulher e feminista, acredito na igualdade entre todos e penso que esta faz ainda mais falta num mundo sem equidade. À minha volta, as mulheres sempre foram o centro! Criaram-me, ainda que a presença masculina fosse igualmente constante – quem tem acompanhado estas crónicas já o terá percebido. De entre estas mulheres de que falo, há uma que, especialmente, me moldou: a minha avó Josefa. A sua vida de pobreza, o seu testemunho da ausência de quase tudo aquilo a que hoje nem atribuímos valor e, principalmente, o carinho que colocou no muito que me ensinou e o gosto com que me incentivou a apostar nos conhecimentos que ela própria não possuía, fizeram-me apaixonar pelas letras. Este foi um caminho sem volta e ainda bem!

    Djaimilia Pereira de Almeida, no seu ensaio “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo” (2023), fala do privilégio deste tempo em que vivemos, comparando-o (também) com o tempo da sua avó. “Nunca antes na História uma mulher como sou podia aspirar um destino semelhante ao que vivo. (…) nunca antes tinha sido para mim tão absolutamente avassaladora a noção de que o meu destino ser-me-ia absolutamente impedido, caso eu não tivesse nascido quando eu nasci.”

    A autora fala da sociedade atual, em que a mulher tem um lugar renovado, mas quase nunca foi assim, mesmo no longo século XIX (usando a caraterização de Hobsbawm), em que começa a afirmar-se o indivíduo, enquanto ser único, dotado das suas qualidades, instrução e não somente herdeiro de um estatuto social ou familiar. É desta conjuntura que, em grande medida, nasceu uma tipologia de arquivo de que gosto: o do indivíduo. E este, ladeado pelo programa de modernização do Estado que criou, por exemplo, os arquivos nacionais, modificou a paisagem informacional das nações.

    No entanto, nesta paisagem nacional, ainda hoje, a presença feminina é residual. Não sou eu que o digo, mas Zélia Pereira na sua Tese de Doutoramento sobre a situação dos arquivos pessoais em Portugal.

    Nas minhas investigações, tenho procurado invocar sempre as mulheres, até porque estão irrevogavelmente presentes. Ao inaugurar, em novembro passado, a exposição “Casas de Bem-Fazer”, enumerei algumas senhoras caldenses responsáveis pelo funcionamento do Lactário-Creche Rainha D. Leonor. E posso dar conta do toque feminino presente no arquivo pessoal do médico Fernando da Silva Correia, por exemplo, referindo a ação da sua irmã e assistente social Filomena Correia na conservação e organização da sua biblioteca em 1960.

    A Garota Não diz-nos: “Que mulher é essa, que não se dobra nem parte, mas que se esconde na sombra do seu próprio medo?” Eu, no mês da Mulher, desejo que esta continue sempre a assinar novos documentos, que seja plena na vida, na ação e na opinião!

  • Proteger os insetos polinizadores

    Proteger os insetos polinizadores

    Teresa Lemos
    Coordenadora do GEOTA

    Os insetos polinizadores desempenham um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas e na sobrevivência de muitas espécies de plantas. Abelhas, borboletas, besouros e outros insetos transportam pólen entre flores enquanto procuram alimento, permitindo que as plantas se reproduzam. Apesar de muitas vezes passarem despercebidos, estes pequenos seres são responsáveis por um processo essencial para a vida na Terra: a polinização.

    Grande parte dos alimentos que consumimos depende diretamente do trabalho dos insetos. Estima-se que cerca de 80% das culturas utilizadas para consumo humano necessitam de polinizadores para se reproduzirem. Frutas, legumes e sementes existem em grande parte graças à atividade diária destes animais.

    Ao permitirem a reprodução das plantas, os insetos polinizadores ajudam a manter o funcionamento dos ecossistemas. As plantas realizam a fotossíntese, absorvendo dióxido de carbono da atmosfera e libertando oxigénio, essencial para a vida. Num contexto de alterações climáticas e aumento dos níveis de carbono, garantir a sobrevivência das plantas — e consequentemente dos polinizadores — torna-se ainda mais importante.

    Estes insetos também contribuem indiretamente para a cadeia alimentar. As plantas são a base da alimentação de muitos herbívoros, que por sua vez sustentam os carnívoros. Sem a ação dos polinizadores, muitas plantas não se conseguiriam reproduzir, o que teria um impacto profundo nos ecossistemas.

    Apesar da sua enorme importância, os insetos polinizadores enfrentam atualmente várias ameaças, provocadas sobretudo pelas atividades humanas. A destruição de habitats devido à expansão urbana e agrícola reduz os locais onde estes insetos podem viver. A agricultura intensiva e o uso de pesticidas também afetam diretamente estas espécies, podendo provocar a sua morte ou contaminar o ambiente em que vivem. A poluição, as espécies exóticas invasoras e as alterações climáticas agravam ainda mais esta situação.

    Perante este cenário, torna-se essencial proteger os insetos polinizadores. Reduzir o uso de pesticidas, nunca pulverizar flores abertas, permitir que as “ervas daninhas” dos relvados e dos nossos jardins floresçam, preservar habitats e plantar espécies autóctones são algumas das medidas que podem ajudar. Ao proteger estes pequenos insetos, estamos também a proteger os ecossistemas e a garantir a produção de alimentos no futuro.

  • Ética e responsabilidade jornalística em tempos polarizados

    Ética e responsabilidade jornalística em tempos polarizados

    David Vieira
    Técnico de Comunicação

    Vivemos tempos de ruído e de divisão. A velocidade da informação, a força das redes sociais e a lógica da emoção têm substituído, muitas vezes, o espaço da reflexão. O jornalismo, que sempre foi o mediador entre o acontecimento e o cidadão, vê-se hoje confrontado com o desafio maior de resistir à pressa e à polarização. E, mais do que nunca, é preciso voltar a falar de ética e de responsabilidade.

    A ética jornalística não é um acessório, nem uma lista de boas intenções. É o fundamento de um jornalismo que se quer livre e credível. Como defende Paulo Faustino no livro “Ética e Responsabilidade Social dos Media”, os meios de comunicação não são apenas empresas inseridas num mercado competitivo. São instituições sociais com deveres éticos perante o público. A liberdade de informar implica responsabilidade. Ouvir. Verificar. Contextualizar. E respeitar.

    O lucro e a sobrevivência económica não podem ser desculpa para abdicar do rigor ou para transformar o jornalismo num mero produto. A ética, lembra o autor, não é um adorno moral, mas o coração da credibilidade e da confiança pública.

    Ser ético no jornalismo é saber resistir ao ruído e manter a integridade quando a tentação é ceder ao imediatismo. É confirmar antes de publicar. É ouvir todas as partes. É perceber que o impacto de uma notícia mede-se não apenas pelo número de partilhas, mas pela sua utilidade pública. A ética é o antídoto contra a desinformação e o sensacionalismo.

    Num contexto de polarização crescente, em que as opiniões se transformam facilmente em certezas absolutas, o jornalismo deve ser um espaço de equilíbrio. O contraditório, de que já falei noutros artigos, é um dos seus pilares. O jornalista não é um militante, nem um adversário. É um mediador. E é nessa mediação que reside a sua força.

    A imprensa regional, pela proximidade que tem com as comunidades, deve ser exemplo dessa responsabilidade. É nela que a ética se faz todos os dias. Na escolha das palavras, na atenção às pessoas e na verdade dos factos. É ela que mostra que o jornalismo pode ser um serviço público, mesmo sem o ser formalmente.

    Num tempo em que tudo parece urgente, a ética lembra-nos o que é importante. E o importante é não desistir de fazer jornalismo. Com responsabilidade. Com consciência. Com verdade.

  • Meio século depois recordamos o 16 de março e Ferrel

    Meio século depois recordamos o 16 de março e Ferrel

    Zélia Oliveira
    Diretora convidada

    Na semana em que tomou posse um Presidente da República que vive nas Caldas da Rainha, esta edição da Gazeta noticia a chegada de António José Seguro a Belém e assinala também dois momentos relevantes da história da cidade e da região: os 52 anos do Golpe das Caldas e os 50 anos da luta da população de Ferrel contra a central nuclear.
    Fomos ver como a Gazeta noticiou o 16 de março de 1974 ao longo dos anos através de uma fita do tempo e comparámos o que escreveu o jornal sobre a saída em falso antes do 25 de Abril e depois da revolução. A diferença é como comparar o dia e a noite.

    O artigo de Joana Tornada, uma das primeiras a estudar e a escrever sobre o Golpe das Caldas, enquadra o que aconteceu em 16 de março e que depois ajudou a impulsionar o 25 de Abril.

    Nos 50 anos de Ferrel (concelho de Peniche), falámos com protagonistas da “luta” que opôs a população ao governo de então, que ali queria construir uma central nuclear. E aqui, mais uma vez, a Gazeta das Caldas teve um papel essencial, ao dar eco à luta popular, mas também a envolver-se, através da organização de debates e do festival “Pela vida e contra o nuclear”. Atualizamos ainda a informação sobre o nuclear com a visão de dois especialistas em ambiente.

    Três assuntos que mostram o papel da Gazeta das Caldas atualmente e ao longo do tempo numa altura em que o jornal assinala o seu centenário.

    Face à atual crise no setor só posso apelar a que a Gazeta se mantenha a escrever noticias da cidade e da região. Num mundo onde floresce a desinformação, um jornal cumprir a sua missão de informar é um valioso património.

  • As Cidades  e os Nomes

    As Cidades e os Nomes

    Paula Ganhão
    Gestora de Projetos

    Há cidades que reconhecemos pelo som. Basta ouvi-las pronunciadas para que uma imagem se forme. Antes de conhecermos as ruas, já carregamos uma ideia do que ali há. O nome antecede o lugar.

    Em As Cidades Invisíveis, Italo Calvino descreve cidades que vivem tanto na palavra que as designa como na matéria que as sustenta. O nome não é apenas rótulo; é interpretação. Molda a expectativa, orienta o olhar, condiciona a experiência.

    Por isso os nomes nunca são neutros. Escolhem o que lembrar e o que deixar na sombra. Fixam figuras, suavizam episódios, eternizam datas. Repetimo-los como se fossem naturais, esquecendo que alguém os decidiu, num contexto específico e com intenção precisa. Dar nome é exercer influência — é traçar um enquadramento antes mesmo de a realidade falar por si.

    Se isto sempre foi assim, hoje ganhou outra escala. As cidades passaram a ser pensadas como marcas num mercado competitivo. Surgem “residences”, “gardens” e “villages” onde antes havia bairros. Fala-se de “territórios de excelência” e “destinos inteligentes”, como se a escolha da palavra pudesse antecipar a qualidade da experiência. A linguagem aproxima-se da publicidade e a identidade transforma-se em estratégia.

    Instala-se então uma inversão discreta: escolhe-se primeiro a palavra e espera-se que a realidade a acompanhe. Em vez de descrever o que existe, o nome projeta o que se quer que seja visto. A cidade começa a viver na vitrina do discurso — sempre pronta, sempre polida, sempre à espera de ser admirada.

    É aqui que a distância se abre. Fala-se de criatividade — mas criam-se realmente condições para ela? Invoca-se a sustentabilidade — mas alteram-se práticas? Proclama-se inclusão — mas corrigem-se desigualdades? Quando o nome chega antes da realidade, deixa de descrevê-la — passa a ocupá-la.

    No entanto, há outra camada que resiste. A cidade das alcunhas. A praça que continua a ser “a do peixe”, mesmo que a placa diga outra coisa. O café que mantém o nome antigo apesar da nova gerência. Esses nomes não nasceram de uma estratégia nem foram afinados em campanhas. Foram construídos pelo uso. E é nessa repetição espontânea que a cidade se reconhece — não como produto, mas como experiência partilhada.

    Talvez o problema não esteja na mudança dos nomes, mas na ilusão de que a transformação se esgota na palavra. Uma cidade transforma-se quando muda práticas e escolhas — não apenas quando se limita a mudar a forma como se apresenta.

    No fim, a questão é menos semântica do que ética: quando pronunciamos o nome da nossa cidade, estamos a descrevê-la — ou a promovê-la?

  • O Traço  do Tempo

    O Traço do Tempo

    Manuel Bandeira Duarte
    Designer e artista

    Na crónica de fevereiro escrevi sobre o tempo que nos atravessa. Sobre a urgência que nos comprime os dias e a necessidade de recuperar espaço e momentos para respirar, criar e habitar o presente. Hoje volto a essa duração, mas através do gesto que o fixa.

    Enquanto ilustrador, encontro na cidade um território inesgotável. As minhas propostas criativas partem muitas vezes do quotidiano caldense: fachadas discretas, varandas antigas, árvores que contam histórias e ruas onde a memória se mistura com o presente. Desenhar é uma forma de medir o tempo. Não o cronológico, mas o vivido, aquele que é o atual e que se torna, com o passar do instante, uma memória em forma de registo.

    Grande parte desse trabalho nasce através da caneta de tinta-da-china. A sua origem transporta-nos à China antiga, onde o negro profundo era obtido a partir do carvão e da fuligem que, quando misturados com aglutinantes naturais, permitiam a criação de manuscritos e pinturas tradicionais, relatando a história e eternizando o próprio tempo. Ao longo dos séculos, a tinta-da-china atravessou oceanos, geografias e culturas, mantendo uma característica essencial: a intensidade absoluta do traço.

    É com essa intensidade que procuro retratar o tempo. O preto não admite hesitação. Mesmo com um pré-esboço a carvão, o traço a tinta-da-china é direto, definitivo, quase irreversível. Obriga a decidir, a assumir a interpretação do que os olhos veem, do que o coração sente e do que o gesto criou. Cada linha carrega o seu próprio ritmo, intenção e emoção. Desenhar torna-se, assim, um exercício de atenção e também de expressão: uma forma silenciosa de organizar pensamentos e aliviar o peso dos dias.Creio que, desde sempre, convivi com ambiente criativo. No espaço familiar, muito por influência do meu avô, aprendi que o desenho é mais do que representação: é caráter. Talvez por isso o traço, para mim, tenha uma fórmula de identidade.

    Há canetas de diferentes espessuras, e recorro a elas como quem escolhe palavras. As mais finas captam pormenores sensíveis; as mais espessas reforçam contornos, criam sombra e dão intensidade. O traço pode ser ritmado, quase musical, evidenciando texturas delicadas ou estruturas firmes. No papel, habitualmente de cento e vinte gramas, o ritmo do traço traduz o tempo da observação e o tempo da execução.

    E, mais tarde, há o momento final. O momento da assinatura. Feita também com tinta-da-china, num gesto único, sem remendo. Breve, eficaz e audaz. É o instante em que decido que a obra está concluída (pelo menos à minha medida). O traço revela quem somos e a assinatura torna-se o nosso bilhete de identidade.

  • Mais do que uma data

    Mais do que uma data

    Fátima Ferreira
    Diretora

    No domingo assinala-se mais um Dia da Mulher. Nesta edição partilhamos o testemunho de mulheres que são um exemplo na política, na agricultura, nas empresas e também nas artes.

    Mas existem muitos mais.

    Nas últimas décadas, as mulheres entraram em força no ensino superior, nas profissões qualificadas, na ciência, nas empresas, na administração pública, mas ainda assim, a distância entre o que as mulheres fazem e o que lhes é reconhecido continua grande. No trabalho, muitas enfrentam salários mais baixos, dificuldades em progredir na carreira, preconceitos subtis que as empurram para funções de “apoio” e não de chefia.

    Mais mulheres ocupam cargos de responsabilidade em autarquias, mais vozes femininas se fazem ouvir no debate público sobre política, igualdade, violência de género, conciliação entre vida pessoal e profissional. E, se hoje falamos mais sobre estes temas, é porque muitas mulheres se organizaram, denunciaram injustiças, criaram redes de apoio, romperam o silêncio.

    O Dia da Mulher é, por isso, uma data para celebrar, mas também para “incomodar”. Para lembrar que, apesar das conquistas, há caminhos por percorrer: na igualdade salarial, na partilha justa das tarefas domésticas, na representação em espaços de decisão, na eliminação de todas as formas de violência e discriminação.
    Gazeta das Caldas, na sua missão de informar e de compromisso com a comunidade, continua a assumir o papel não apenas de noticiar, mas também de dar visibilidade e ligar histórias locais a debates globais. Ao mostrar o rosto e a voz das mulheres da nossa região pretendemos ajudar a combater estereótipos e a construir uma imagem mais justa do que é ser mulher hoje. Que este Dia da Mulher seja mais do que uma data no calendário, mas também um reconhecimento diário de que o futuro se escreve, cada vez mais, também no feminino.

  • Posto de Combustível em São Cristóvão

    Posto de Combustível em São Cristóvão

    Por Jorge Mangorrinha

    Está iminente a demolição do antigo posto de combustível no lugar de São Cristóvão, no limite do concelho das Caldas da Rainha. A cidade conheceu forte desenvolvimento nas décadas de 40–60, pelo que este posto, agora encerrado, se integra no território ligado às antigas Estradas Nacionais e ao crescimento rodoviário. A sua implantação reflete a lógica típica da época, ou seja, o recuo em relação à via pública, uma área de manobra e a presença destacada na paisagem.

    Os antigos postos de combustível apresentam características arquitetónicas e simbólicas muito próprias, refletindo a ideologia nacionalista e a estética oficial da época. Durante o Estado Novo, o combustível era estratégico para o desenvolvimento industrial e para a mobilidade crescente. Empresas como a SACOR (Sociedade Anónima Concessionária de Refinação de Petróleos em Portugal), fundada em 1937, tiveram papel central na distribuição de combustíveis. O regime valorizava a ordem, a autoridade e a identidade nacional, valores estes que também se refletiam na arquitetura pública e comercial.

    Os postos combinavam linhas simples e geométricas (influência modernista) ou elementos do estilo “Português Suave” promovido pelo regime (uso de azulejos, telhados tradicionais, galo em ferro no topo do telhado, esculturas). Este posto nas Caldas da Rainha inclui-se na segunda das vertentes estéticas, incluindo uma área para restaurante. Na sua dimensão simbólica, os postos não eram apenas funcionais, porque representavam modernidade e progresso tecnológico, expressavam controlo estatal indireto sobre setores estratégicos e integravam a estética disciplinada e nacionalista do regime. A imagem transmitia estabilidade, ordem e eficiência — conceitos centrais do Estado Novo.

    Alguns postos da antiga SACOR e de outras companhias sobreviveram, embora muitos tenham sido demolidos ou adaptados. Após o 25 de Abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, várias infraestruturas foram nacionalizadas e mais tarde integradas na Galp Energia.

    À escala europeia em regimes autoritários ocidentais, enquanto Portugal adotou uma estética mais discreta e tradicionalista, Espanha privilegiou uma imagem mais institucional e a Itália destacou-se pela vanguarda arquitetónica e experimentalismo.

    Concluindo, nesse tempo, os postos eram pensados como pequenas “estações de modernidade” integradas na paisagem urbana ou nas novas estradas nacionais. Vários destes edifícios perderam a função original, mas este que refiro manteve-se, embora pouco cuidado. Presentemente, são estudados como exemplos de arquitetura utilitária do século XX, expressões da estética oficial do regime, marcos da modernização rodoviária portuguesa, embora raramente classificados.

    Urge que a Câmara Municipal das Caldas da Rainha analise este caso como mais uma iminente perda patrimonial e se entenda com o proprietário, a quem eu transmiti este meu ponto de vista aquando do meu exercício de vereador (2001-2005), dando uma perspetiva diferente de intervenção no local. E a casa não veio abaixo.

  • Quo Vadis… Caldas?

    Quo Vadis… Caldas?

    Por Rui Gonçalves

    Com base nos orçamentos municipais para o ano de 2026, importa fazer uma análise comparativa relativamente à capacidade de investimento dos municípios, neste caso, de Caldas da Rainha.

    Os orçamentos dependem dos impostos gerados pela dinâmica económica e se essa dinâmica existe e é maior, o orçamento é superior, se ela é menor, ele é inferior. Para que possamos fazer essa comparação de forma realista e conclusiva, o número “milagroso” a considerar é o orçamento municipal “per capita”. Para que o objetivo seja mais realista, justo e credível, tomamos como termos de comparação municípios da mesma região. Neste caso, considerámos os vinte e dois municípios que compõem as Comunidades Intermunicipais do Oeste e de Leiria, região onde está inserido o concelho de Caldas da Rainha e ainda o confinante município de Rio Maior e a realidade deixa-nos no mínimo apreensivos, ou mesmo alarmados. Temos orçamentos para 2026 que nos esclarecem sobre a falta de capacidade de investimento municipal, razão pela qual Caldas da Rainha fica cada vez mais para trás, enquanto outros avançam.

    Os vizinhos de Alcobaça têm cerca de 1.300,00€ de orçamento “per capita”, Pombal, por acaso com o mesmo número de munícipes que Caldas da Rainha, tem cerca de 1.380,00€, mas podemos comparar também com a Marinha Grande com 1.400,00€, ou Torres Vedras, com valor praticamente igual, mas se formos à Batalha, ou a Porto de Mós, este valor sobe para mais de 1.700,00€ e os nossos confinantes de Rio Maior, têm a “módica” quantia de 2.000,00€ e agora a péssima notícia, é que Caldas da Rainha se queda pelos irrisórios 970,00€, sendo o orçamento “per capita” mais baixo de toda a região e isto não é de agora, porque se fosse estávamos nós bem, vem sendo assim desde há décadas e a diferença é cada vez maior, porque Caldas perdeu a capacidade de outros tempos. Menos 35% de orçamento, considerando os mais aproximados, é muito dinheiro e muito atraso. E qual é a diferença?

    Todos eles são concelhos bastante mais “industrializados” do que Caldas, o elementar em estratégias de desenvolvimento territorial, é que o investimento privado alavanca o investimento público, é o primeiro que dinamiza a economia, cria emprego e gera recursos e por sua vez impostos, para “sustentar” o orçamento municipal e capacitar o investimento público do município. E do investimento privado, o turismo atrai pessoas, sim, pois claro, mas é a indústria que atrai e factor fundamental, fixa pessoas e oferece rendimentos superiores e este é o problema.

    Desde a queda da indústria cerâmica em que Caldas alicerçava a sua dinâmica económica e da extinção do termalismo (o turismo caldense), o concelho perdeu a sua importância estratégica e a capacidade política para influenciar, sendo atualmente um gigante de pés de barro, que vive orgulhosamente de memórias e águas passadas sem capacidade de se desenvolver, não se percebeu a necessidade de procurar investimentos alternativos e essa devia ser a principal tarefa e preocupação de um município, captar investimento. Desde há décadas que não existe uma estratégia de desenvolvimento, porque a visão tem sido sistematicamente curta, mandato após mandato. Quando repetidamente ouvimos dizer que Caldas da Rainha “é um concelho de comércio e serviços”, não existe ideia mais errada e empobrecedora, o comércio e os serviços, servem o mercado que existe, o comércio não é alavanca, é, sim, alavancado e basta ver a conhecida “rua das montras” e envolvente, onde ainda resistem algumas lojas de qualidade, sabe-se lá com que sacrifício, misturadas com cada vez mais “lojas dos trezentos”, chamemos-lhes assim de forma simpática, incomparável com a mesma rua de há 30 / 40 anos, essa sim a rainha do comércio da região.

    E vemos algo a mudar ou com perspetivas de inverter esta catástrofe anunciada? Pois não vemos. Os orçamentos municipais há muitos anos que ignoram ostensivamente uma estratégia de captação de investimento, enquanto outros, apesar de muito mais avançados do que nós, percebem o óbvio e investem ainda mais. Por exemplo, Alcobaça, ali ao lado, continua a investir em 2026, dois milhões no alargamento da zona industrial de Pataias e duzentos mil euros para projetos de expansão das zonas industriais do Casal da Areia e da ALEB – Benedita, apesar da sua recente construção percebe-se a necessidade do alargamento, pensando o futuro. Por outro lado, em Rio Maior, está prevista a expansão dos parques industriais já existentes e como resultado das políticas de atração, foi anunciado um investimento privado de trinta e dois milhões de euros. Em Pombal, faz-se igualmente a expansão da zona industrial.

    Os territórios desenvolvem-se a partir da indústria e do turismo e sejamos realistas, Caldas não tem um nem outro.

  • Os jovens e a crise habitacional – um testemunho

    Os jovens e a crise habitacional – um testemunho

    Por Mágui Lage

    Sou uma jovem portuguesa de 27 anos, formada em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico (IST), uma das mais prestigiadas universidades de engenharia em Portugal e com reconhecimento internacional, que atrai estudantes de toda a Europa e do mundo pelas suas competências académicas e pela reputação que lhe é atribuída em rankings educacionais e na empregabilidade dos seus diplomados.
    Durante a minha formação, tive a oportunidade de fazer dois programas Erasmus — um na TU Delft, uma das principais universidades tecnológicas da Europa, e outro no Politécnico de Milão, também altamente considerado no espaço académico europeu — experiências que enriqueceram a minha visão profissional e aumentaram a minha qualificação.

    Terminei o curso com média de 18 valores e hoje trabalho numa das maiores empresas de energia em Portugal, com um salário que está acima da média salarial nacional. Contudo, mesmo com esta formação e um emprego estável na capital, a verdade é que continuo a não conseguir comprar uma casa própria.

    Portugal enfrenta uma crise habitacional profunda e estrutural que se traduz, acima de tudo, numa discrepância brutal entre o aumento dos preços da habitação e o ritmo de crescimento dos rendimentos das famílias. Os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, no segundo trimestre de 2025, o preço mediano das casas vendidas em Portugal atingiu cerca de 2 065 € por metro quadrado, um aumento de 19% face ao ano anterior, e continuou a subir nos dados mais recentes para mais de 2 100 € por metro quadrado no terceiro trimestre de 2025.

    Estes números escondem realidades ainda mais gritantes quando olhamos para as grandes áreas urbanas onde o mercado está mais pressionado: em Lisboa, por exemplo, os valores médios por metro quadrado podem ultrapassar os 5 800 €, e no Porto rondam os 3 900 € por metro quadrado, ambos recordes históricos que continuam a escalar. Comparativamente, na região Centro — onde se inclui uma cidade como as Caldas da Rainha, de onde sou natural e onde vivo — o preço por metro quadrado ronda os 2000 €, abaixo dos valores de Lisboa ou Porto, mas ainda assim inacessível para muitos jovens trabalhadores.

    Este aumento dos preços não pode ser explicado apenas por dinâmicas naturais de mercado. Uma parte significativa da escalada resulta da especulação imobiliária e do crescente financiamento da habitação. Grandes empresas e investidores com elevada capacidade económica adquirem imóveis em grande quantidade, mantêm-nos fora do mercado ou libertam-nos apenas anos mais tarde, a preços drasticamente inflacionados. Paralelamente, a venda de imóveis a estrangeiros — em particular a cidadãos que vêm para Portugal viver a reforma ou períodos prolongados de lazer, com um poder de compra muito superior ao rendimento médio nacional — exerce uma pressão adicional sobre a oferta disponível. Estes compradores conseguem pagar valores que a maioria dos portugueses não consegue acompanhar, criando no mercado a perceção de que “há sempre comprador”, o que incentiva sucessivos aumentos de preços. A própria lógica da intermediação imobiliária, em que a venda de uma única casa pode representar o rendimento anual de um trabalhador português comum, contribui para este ciclo inflacionista, afastando ainda mais a habitação da sua função social.

    Os dados mais recentes do Eurostat mostram que o salário médio anual de um trabalhador a tempo inteiro em Portugal era de cerca de 24 818 € em 2024, valor significativamente abaixo da média da União Europeia e que apesar de ter crescido face aos anos anteriores permanece baixo quando comparado com o custo habitacional. Por outro lado, a média de rendimento mensal líquido por adulto equivalia a cerca de 1 418 € em 2024, outro indicador que evidencia como os rendimentos das famílias simplesmente não acompanham a escalada dos preços imobiliários.

    Embora trabalhe em Lisboa, com salários característicos dos centros urbanos maiores, continuo a viver nas Caldas da Rainha, numa tentativa de conciliar melhores rendimentos com custos de habitação relativamente mais baixos. Sempre que trabalho presencialmente demoro duas horas de deslocação em hora de ponta para chegar ao escritório, esforçando-me ao máximo por equilibrar o custo de vida com a ambição legítima de um dia poder comprar uma casa. Esse esforço, porém, ainda não é suficiente para que eu consiga adquirir uma casa própria — nem nas Caldas da Rainha onde os preços são mais baixos — porque os valores por metro quadrado continuam tão altos que as prestações de um crédito habitação transformam-se num peso financeiro insustentável quando somadas às despesas básicas do dia a dia.

    Apesar de políticas recentes que tentam apoiar os jovens, como a isenção de imposto de selo e de IMT para a primeira habitação e créditos habitação com garantias públicas — medidas que teoricamente facilitam o acesso — essas soluções não atacam o problema de raiz: simplesmente não há oferta suficiente de casas acessíveis e, mesmo quando há, os preços sobem a um ritmo muito mais rápido do que os rendimentos das famílias. A oferta continua insuficiente face à procura, e os mercados imobiliários das regiões mais procuradas entram num ciclo vicioso em que preços mais altos afastam compradores e pressionam ainda mais os rendimentos.

    Esta realidade tem um impacto profundo no tecido social e no futuro de uma geração inteira. A habitação é um direito básico e deveria ser um dos pilares da estabilidade e autonomia de qualquer adulto. Mas se, mesmo com formação superior, experiência internacional e emprego estável, continua a ser impossível comprar casa sem depender da família ou de um parceiro para contrair crédito conjunto, então algo está profundamente errado nas políticas públicas e no modelo económico que temos hoje em Portugal.

    O resultado direto desta falha sistémica não é apenas um sonho adiado de independência — é uma saída massiva de jovens talentosos em busca de oportunidades e condições de vida dignas noutros países. A emigração entre jovens com formação superior tem aumentado, com cerca de 30% (no ano passado) a escolher viver e trabalhar no estrangeiro porque “em Portugal é simplesmente demasiado difícil” construir uma vida própria, com estabilidade e habitação digna.

    Uma política que não protege os seus jovens mais qualificados, inteligentes e competentes, e que acaba por estimular a sua saída para o estrangeiro, é uma política pobre. Ao empurrar para o estrangeiro quem tem mais competências, o país está a promover um empobrecimento intelectual das suas instituições e do seu tecido produtivo, com consequências profundas no médio e longo prazo. Esta perda não é compensada na mesma medida nem com a mesma qualidade, apesar da importância inegável da imigração estrangeira, que hoje é essencial para o funcionamento do país. Reconhecer essa realidade não invalida o facto de estarmos a falhar gravemente na retenção do nosso próprio talento, beneficiando, em última instância, decisores políticos de visão curta e um modelo que se contenta com o empobrecimento estrutural do país.

    Chegámos a este ponto não por acaso, mas como resultado de anos — e até décadas — de políticas públicas insuficientes, adiadas ou excessivamente focadas no curto prazo. Os sucessivos governos falharam em antecipar o impacto do financiamento da habitação, do crescimento do turismo, da atração de investimento externo sem contrapartidas sociais e da ausência persistente de uma política de habitação robusta, estruturada e de longo prazo. A habitação foi tratada mais como um ativo financeiro do que como um direito fundamental, e hoje pagamos esse preço coletivo.

    Resolver este problema exige mais do que medidas pontuais ou benefícios fiscais temporários. Exige um aumento sério da oferta de habitação acessível, através da construção pública e cooperativa, da reabilitação do edificado devoluto, de incentivos claros ao arrendamento de longa duração a preços compatíveis com os rendimentos nacionais e de um planeamento urbano que não empurre sistematicamente os trabalhadores para fora dos centros onde trabalham. Exige também políticas salariais que permitam aos rendimentos acompanhar o custo de vida real e uma regulação do mercado que coloque limites claros quando o interesse público está em causa.

    Nenhuma destas mudanças acontece sem responsabilidade política — e essa responsabilidade começa na participação cívica informada. Todas as eleições contam, não apenas como um momento simbólico, mas como uma oportunidade concreta de avaliar percursos, comparar propostas e exigir coerência a quem se candidata a governar. É compreensível que o desgaste, o desencanto e a sucessão de falhas políticas tenham afastado muitas pessoas da vida pública. No entanto, o afastamento não resolve esse problema: apenas reduz o escrutínio e enfraquece a democracia.

    Votar, por si só, não transforma a realidade de forma imediata, mas é uma das poucas ferramentas ao alcance dos cidadãos para influenciar decisões, premiar escolhas responsáveis e penalizar erros repetidos. A democracia só cumpre o seu papel quando os cidadãos se mantêm informados, participam com espírito crítico e responsabilizam quem governa pelas consequências reais das suas decisões — não quando se resignam, nem quando delegam essa responsabilidade em discursos fáceis que prometem respostas simples para problemas complexos.

    Se continuarmos a aceitar que trabalhar, estudar, contribuir e cumprir regras não chega para garantir uma vida digna, então estamos a normalizar um fracasso coletivo. A habitação não pode continuar a ser um privilégio reservado a poucos. É tempo de transformar indignação em escolha política, porque o futuro do país — e de uma geração inteira — depende disso.

     

  • Uma Cultura de Segurança é hoje uma necessidade Básica de Defesa para a Sociedade Civil que urge implementar

    Uma Cultura de Segurança é hoje uma necessidade Básica de Defesa para a Sociedade Civil que urge implementar

    António Marques
    Técnico de Turismo

    Em Portugal os desastres Climáticos, foram ao longo de muitas décadas, tratados como verdadeiros estados de exceção e esquecidos o mais depressa possível, levando mesmo os poderes instituídos a tentar esconder as suas consequências, nomeadamente as vítimas mortais, como foram os casos do Ciclone de 1941 ou das Cheias de Odivelas em 1967.

    Hoje não é possível manipular os resultados porque o poder da comunicação não o permite e isso acarreta consequências em relação ao Futuro.

    As principais Instâncias Ambientais de todo o Mundo, afirmam agora que Portugal está incluído entre os Países do Sul da Europa, como um dos mais vulneráveis aos Impactos Climáticos.

    Situações devastadoras, Tempestades e Cheias que acabámos de sofrer, não esquecendo os Incêndios e os Sismos, são passíveis de se vir a repetir com mais frequência e deste modo as nossas vidas quotidianas serão alteradas e postas em causa.

    As Mudanças Climáticas já não representam na atualidade um “Assunto Abstrato” e possuem subitamente uma força de “Realidade Concreta” a que temos de dar a maior atenção de forma Prospetiva.

    Os recentes impactos, ainda em fase de tratamento, análise e orçamentação, apontam para valores que no total vão ultrapassar os Seis Mil Milhões de Euros, sobretudo em Sectores da Agricultura, da Indústria, das Infraestruturas, das Comunicações e da Energia.

    O conjunto de tempestades recentes, pôs a nu as nossas vulnerabilidades e centenas quando centenas de Estradas foram interrompidas e muitas destruídas, infraestruturas (como o viaduto da A1 em Coimbra), gravemente danificadas e atividades, sociais, comerciais, industriais e de abastecimentos interrompidas, entre tantas outras situações que puseram em causa o regular funcionamento do País que terá que fazer frente às consequências económicas inerentes.

    No passado nem sempre foi assim porque “As ocorrências Climáticas Extremas” surgiram espaçados no tempo, mas hoje apresentam-se em períodos mais curtos, pressionando toda a Sociedade e os Poderes Públicos.

    A olho nu podemos afirmar que não se trata de uma simples vulnerabilidade Climática, mas sim de uma Agressiva Realidade Mensurável.

    Isto obriga-nos a estar permanentemente atualizados e a uma implementação de medidas reais para nos defendermos.

    Proteger o País das ameaças e dos riscos internos e externos deverá constitui-se como uma das mais altas Prioridades Nacionais.

    Portugal não possui uma Cultura de Segurança.

    Perante os quadros carregados de ameaças climáticas, Portugal

    Obriga-se a implementar com urgência Uma Cultura de Segurança por ser uma necessidade Básica de Defesa para a Sociedade Civil.

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