Valter Vinagre: “uma exposição que é uma homenagem à Gazeta, à cidade e às pessoas que a constroem”

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“Retratos e outras histórias I”, assim se intitula a exposição de Valter Vinagre que será inaugurada amanhã, 14 de Janeiro, pelas 16h00, no Museu do Ciclismo. Gazeta das Caldas publica a segunda parte da entrevista ao fotógrafo relativa à exposição. Desta fazem parte imagens que Vinagre captou entre 1985 e 2001 e que fazem parte do arquivo da Gazeta das Caldas.
Com esta iniciativa, há a intenção do semanário e do autor em homenagear “a cidade e as pessoas que a constroem”.

GAZETA DAS CALDAS: Do que trata esta exposição?
VALTER VINAGRE: É um novo olhar do fotógrafo sobre o arquivo da Gazeta das Caldas, com tempo para olhar e decidir dentro daquelas imagens que eu tinha, quais seriam as mais adequadas para apresentar. Incide com o período em que trabalhei na Gazeta das Caldas – de 1986 a 2001, altura em que saí da cidade. Trata-se de uma escolha pessoal, com pena pois há gente que não está pois desapareceu-me uma parte do arquivo ou por critérios do ponto de vista estético.

GC: Há uma forte componente de retratos nesta mostra. Porquê esta opção?
VV: Apostar só nos retratos seria redutor e complicado. Como tal, comecei a olhar para todo aquele arquivo e percebi que tinha ali uma fase importante, ligada à minha aprendizagem. Achei que era uma boa maneira de me ajudar a pensar e de dar a ver às pessoas como eu medrei dentro de um trajecto de aprendizagem. Como tal achei que era importante pontuar a exposição com outras coisas que não apenas o retrato.
São perto de 70 retratos e há muitos de pessoas que já morreram. Nem todo os que eu queria estão presentes e não é por inimizade ou exclusão ideológica. Foi seguida uma linha de coerência estética.
Estão presentes muitos médicos, investigadores, professores, comerciantes, escultores, ceramistas, artistas e profissionais das mais diversas áreas, ligados também a variadas instituições e a iniciativas locais.

GC: Que outras imagens incluiu?
VV: Estão presentes alguns locais chave desde a Mata, o Parque, o Café Central, a Padaria Teixeira até à Casa de Cortiça, antes de ter sido dizimada por um incêndio.
Marcam presença algumas profissões que desapareceram – marca presença a última lavadeiras das Caldas e um latoeiro. E momento ligados a alguns edifícios importantes e a eventos como o Carnaval caldense e a espectáculos de rua.
Há igualmente imagens de tascas que entretanto desapareceram. Há momentos também da Revolta dos Agricultores do Oeste, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro.
Com esta mostra faço uma homenagem à Gazeta, à cidade e às pessoas que a constroem.

GC: Quais foram os critérios para a escolha?
VV: Não quis usar o olhar de história local, preferi o critério estético, além de haver uma linha condutora de todo o trabalho. Creio que dou a perceber que quase tudo o que eu estou a fazer hoje, já estava aqui.
Há um momento em que avançamos para um caminho e, neste caso, mais do que um projecto o que fiz foi um mergulho no arquivo da Gazeta, onde tive que ver o que tinha para mostrar.
Espero não melindrar ninguém com ausências…Além do mais perdi um bom lote de negativos que perdi irremediavelmente numa inundação de uma das minhas casas. Só agora tive consciência de que tenho falhas no meu arquivo…
Também quis fugir da notícia. Fiz a primeira escolha sozinho e fui optando, assumindo a responsabilidade de todos os riscos. Só nas escolhas finais pedi opinião de um amigo e da minha mulher, a São. De 1600 fui reduzindo para 300 e destas para 91. Para 15 anos, até não são muitas…

GC: Como trabalhou durante vários anos para várias entidades como a Câmara e a Gazeta, sentiu-se fotógrafo da cidade?
VV: Nunca me vi como fotógrafo da cidade, apesar de aqui trabalhar e produzir…Eu era o mesmo fotógrafo que sou hoje.
Aqui há muitas vivências – quando vou para um projecto tenho um ponto de partida e há imagens que vêm ter contigo, de forma intuitiva.
Há coisas que estão lá e se é de rua, quando estás a passar, elas estão lá, à tua espera.
Este é um trabalho diferente do que eu fazia na Gazeta das Caldas, onde aliás foi um importante espaço de aprendizagem, sempre tive espaço de liberdade e para arriscar. Cheguei inclusivamente a ter laboratório de revelação, nas instalações da redacção. A Gazeta foi uma verdadeira escola para mim.

GC: Há algo na cidade que o incomode?
VV: Sim, há…. A ruína daquilo que falhou…As lojas fechadas e um certo ar de abandono que se instalou nalgumas das suas zonas. Quando olho hoje para a cidade das Caldas da Rainha, mais de metade daquilo que foi importante à época está fechado! Creio que a cidade Caldas ainda não se recompôs do choque económico causado pela crise.

O fotógrafo que se iniciou na Gazeta das Caldas

Conheci o Valter Vinagre quando ele chegou às Caldas a seguir à Revolução de Abril e quando iniciou o seu trabalho na Câmara Municipal ainda nos tempos da Comissão Administrativa.
Depois acompanhei toda a sua vida caldense até ao início deste século, tendo com ele partilhado a sua experiência na Gazeta das Caldas, durante bastantes anos e a partir do momento em que o jornal passou para o off set e a inserir fotografias. Passámos a tê-lo como associado na Cooperativa Editorial Caldense, então criada, e como colaborador na fotografia, que de imediato se percebeu que tinha um toque especial nos trabalhos que apresentava para publicar.
Chegámos a dispor de um laboratório fotográfico na própria redacção para fazer as revelações nas suas horas livres dos trabalhos que realizava.
Atravessou assim quase duas décadas, até se reformar da sua actividade profissional na autarquia, colocando neste período nas nossas páginas as suas reportagens fotográficas, que muitas vezes partilhavam a força com o próprio texto.
As quase centena de trabalhos que hoje se apresentam nesta exposição, é uma primeira iniciativa que explora o manancial imenso do seu espólio caldense e regional.
As opções desta apresentação suscitam ainda mais interesse para o que poderá ser trazido a público numa segunda experiência expositiva, integrada naquilo que iniciámos em 2015, comemorando os 90 anos da Gazeta das Caldas.
Santos de casa não fazem milagres, diz o povo cínica ou inteligentemente, mas parece ser facilmente aplicável a este caso.
Valter Vinagre é já hoje um fotógrafo de reconhecida qualidade e mérito artístico na capital do país e no estrangeiro, facto a que não deve ser alheio a sua partida para a terra grande e para as grandes dimensões de público.
Já o dissemos em relação a outro artista caldense – Ferreira da Silva -, que o facto de ter teimado em não abandonar as raízes, limitou a sua dimensão e notoriedade a nível nacional e internacional.
Caldas da Rainha é uma cidade difícil, que reconhece melhor os pergaminhos dos estranhos que a qualidade dos originários, teimando em criar dificuldade para que afirmem as suas conquistas e reconhecimentos fora quando regressam.
José Malhoa e Raul Proença, só depois de mortos, é que tiveram na sua cidade de partida, o justo tributo.
Gazeta das Caldas quer evitar este comportamento menos correcto e testemunhar o seu reconhecimento e estima por este parceiro de caminhada, que partindo de condições difíceis, demostra que com persistência e força de vontade se pode ir longe.
O nosso reconhecido agradecimento por esta exposição. JLAS