As Guerras Saloias

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Bruno Reis Santos (Mantraste)

A primeira vez que andei a cavalo foi num burro na Foz do Arelho, mas o burro estava preso a uma estaca e a única coisa que fez foi andar calmamente em círculos. Fiquei tão satisfeito pelo heroísmo, qual Malhadinhas, que até hoje nunca mais andei a cavalo, para
mim já não há necessidade, porque penso que não existe assim tanta diferença entre um burro e um cavalo. É difícil trocar de cavalo para burro, mas quem só experimentou o burro tem de com isso ficar contentado. Afinal de contas faço parte de uma nação que se contenta com pouco, na qual o pouco até nem é mau, é mais que nenhum e quase tanto como muito e que chega mesmo ao ponto de até os próprios sonhos serem enfezados.
Apesar de sermos portadores por direito de dois braços e duas pernas como qualquer povo deste mundo, e quem não os tem possui pelo menos uma cabeça, então de onde virá este sentimento de que a vida é para os outros?
O orgulho do “no meu tempo era uma sardinha para seis”, dos tempos difíceis, da dureza, da coragem, do sacrifício, não vejo mal nele, pelo contrário, são essas experiências que nos devem tornar melhores, que nos levam a ver a vida de outra forma, a dar o real valor às coisas. Mas com isso não devemos castrar a felicidade, nem a nossa nem a dos outros e o problema é que castramos, sentimos que não a merecemos e esse conceito é educação básica em muitas casas portuguesas. Não sei de onde vem esse síndrome, mas sei que ataca muita gente, gente com talento, com qualidade e que por causa disso nem se dá ao luxo de tentar. Talvez esse síndrome venha dos tempos da outra senhora, que nos educou pobrezinhos e vivemos com essa sina a que chamamos “pureza” bem como um género de culpa cristã, e então quando vemos alguém largar essa cruz fazemos questão de sentir inveja, inveja talvez porque só não a largamos por medo do que os outros vão pensar. Essa inveja é um vírus, um vírus que já usa máscaras há muito tempo, mas são máscaras que não protegem mas que atacam e o vírus espalha-se, temos inveja do vizinho, inveja da aldeia mais próxima, inveja do concelho ao lado, e então onde podia haver união e desenvolvimento passa a haver uma guerra saloia de torrões de areia, cuja única coisa que promove é a ignorância e o esforço inútil, que vai desde a tradicional guerra das partilhas até a uma lagoa ao abandono.
Ao mesmo tempo procuramos sempre a aprovação de quem nos maltrata, a duvidar de nós próprios e a tratar mal quem nos quer bem, porque motivo não havemos de merecer o nosso próprio respeito? Mas ao invés disso passamos a vida a maltratar-nos, a dizer em surdina cá para dentro que não valemos nada, a ver os nossos defeitos à lupa e a banalizar as nossas qualidades – que utilidade isso tem? Temos de estar atentos a estes sentimentos de inferioridade, pois quem se julga inferior a uns também se julga superior a outros, mas isso não passam de conceitos criados nas nossas mentes e enquanto houver espaço para esta divisão não haverá espaço para a igualdade, pois quem pensa assim, separa. E se há por aí alguém superior, não será por usar terno ou ar emproado,
mas sim pela sua conduta e pelo exemplo que passa aos outros.