Otelo, um arquétipo do Zé Povinho que desaparece…

0
170

Otelo Saraiva de Carvalho, o principal estratego e operacional da revolução do 25 de Abril de 1974, faleceu no passado domingo, deixando, como era previsível, um ror de reações contraditórias e não unânimes. Contudo, mesmo os mais recalcitrantes não negam o papel que teve na data fundadora da democracia portuguesa depois de 48 anos de ditadura.
Homem contraditório e controverso, aliás como é o Zé Povinho português, com atitudes generosas e de uma grande modéstia, mescladas por momentos de um grande deslumbramento pelo papel que teve e podia vir a ter com maior relevo durante o pós 25 de Abril, mostrando bem como uma personagem simples pode atingir um destaque sem limite.
O papel que desempenhou no período pós-PREC, quando alegadamente se juntou de forma direta aos movimentos mais radicais, mostrando uma absoluta ingenuidade das consequências que lhe podiam trazer e lhe trouxeram, culminou a sua desgraça junto da imagem inicial que logrou ter e desempenhar.
Foi daqueles que nunca descuraram o papel insubstituível que o Golpe falhado das Caldas de 16 de Março de 1974 teve para o sucesso do 25 de Abril, recordando ainda que foi na reunião de Óbidos de 1 de dezembro de 1973 que foi guindado para responsável operacional para a preparação estratégica do ataque à mais antiga ditadura resistente no mundo ocidental.
A História aliás já fértil na interpretação do que foi a Revolução Portuguesa, ainda se ocupará melhor em analisar e avaliar o papel que desempenhou e especificamente na sua deriva, que depois veio a corrigir, mantendo-se fiel mais tarde às amizades com todos aqueles que se mantiveram leais aos princípios fundadores do Movimento dos Capitães.
Tal como Zé Povinho, é uma figura que mistura audácia, altruísmo, como pequenos traumas na sua vida concreta e quotidiana, permitindo-lhe derivas e afirmações que logo a seguir pode desmenti-las ou assumi-las, como destino e acaso de um Homem, que ultrapassou o desejo de ser ator teatral a que se viu negado pelo pai mais autoritário e incompreensivo.
Penso que será entendido no futuro como um verdadeiro português nas suas contradições e na circunstância do seu tempo. Repouse em Paz pois ajudou decisivamente a acabar com a Guerra que castigou Portugal quase década e meia e em que ele também participou e conheceu profundamente! ■