A Máscara – imagem de um novo rosto

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João Bernardes e Silva
professor

As empresas trabalham de forma cuidada a sua imagem perante o público-alvo. Logos, spots publicitários, cor, lettering, …, tudo é pensado ao mais ínfimo pormenor para deixar uma marca impressiva nos seus clientes.
A pandemia que nos tem acompanhado nestes últimos dois anos não precisou de fazer este esforço para ganhar uma imagem de marca – a máscara. A sua presença é tão significativa que já não conseguimos imaginar muitos dos nossos conhecidos sem a máscara. Esta já faz parte integrante da sua “fácies”. Parece um exagero, mas tornou-se natural. Estranhamos a frequência com que nos surpreendemos quando alguém tira a máscara na nossa presença e observamos o seu rosto como algo que nos deixa perante um desconhecido. Sentimos que o seu verdadeiro rosto é composto pela máscara. Sem esta passa a ser alguém que desconhecemos.
Nesta nova realidade, o peso do olhar de cada um avoluma-se. Perdemos a capacidade de avaliar as emoções do outro pelo enrugar do seu rosto, pelo sorriso dos seus lábios, pela tristeza de um rosto contraído, pelo esgar de uma dor. Resta-nos o olhar para tentarmos interpretar o que vai no seu sentir.
Falamos de emoções e daquilo que transmitimos. Somos seres de afetos e à máscara faz diferença. Isolamo-nos atrás dela, escondemos o que nos vai na alma e a solidão ganha espaço.
Precisamos de tirar a máscara, de assumir o verdadeiro eu na plenitude das suas diferentes matizes. Temos de olhar, de sentir, de perceber as emoções. Mas… a pandemia não permite. Ainda não chegou o momento. Terá de haver um momento!
Aí, vamos olhar para os rostos. Já não são os mesmos. Dois anos fazem muita diferença. Mas a realidade também mudou. Surpreendemo-nos.
Não é motivo para tristeza, mas para acreditar num futuro que nos traz sempre algo de inesperado. Assumimos a voz do poeta no momento em que afirmamos que “todo o mundo é composto de mudança. Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança”.