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Entre o Tempo e a Liberdade

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Manuel Bandeira Duarte
Designer e artista

Nas últimas crónicas abordei o tempo subdividido à semelhança do ato de ilustrar: o que nos atravessa, o que fixamos no traço e o que deixamos respirar na cor. Hoje, termino este percurso regressando ao tempo enquanto memória coletiva, aquela que, para além de nos pertencer, foi a que herdámos, reconstruímos, voltamos e voltaremos sempre a contar.

A ilustração que acompanha este texto nasce deste lugar e surge de uma fotografia captada a 1 de Maio de 1974, na antiga Câmara Municipal das Caldas da Rainha, transportando consigo a força de um instante vivido em liberdade.

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Reinterpretei-a, anos depois, através do meu olhar, devolvendo-lhe cor como quem devolve pulsação ao passado. Mais do que um exercício visual, foi um gesto de escuta à cidade, às pessoas e ao silêncio que as imagens antigas nos guardam.

Há, neste trabalho, uma inevitável consciência do tempo: o da fotografia original, o da ilustração e o do presente em que a observamos. Entre esses momentos, constrói-se uma ponte feita de memória e interpretação. A cor surge, aqui, como elemento essencial, ou seja, não apenas para destacar, mas para sentir. O vermelho, em particular, impõe-se como símbolo da liberdade, da conquista e da vida que se afirmava na rua.

Hoje, dois dias antes de mais um primeiro de Maio, somos chamados a recordar. Não apenas o que aconteceu, mas tudo o que continua a significar. Relembrar não como um gesto nostálgico, mas como um exercício de consciência, de perceber o caminho feito para melhor sustentar o que ainda aí vem.

Também nas Caldas, o 16 de Março de 1974 permanece como prenúncio, como um sinal de uma mudança que já se desenhava. Enquanto criador, regresso a todos estes momentos com o mesmo princípio que tem guiado o meu trabalho: observar, interpretar e registar. Se o traço define e a cor revela, então a memória liga. E talvez seja aí que o tempo ganha maior sentido, quando deixa de ser apenas passado e passa a ser presença ativa no que somos e no que projetamos.

Ilustração baseada em Fotografia Original: Fundo da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha capturada, na época, pela Foto Franco.
Ilustração Original: Manuel Bandeira Duarte

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