O chefe do executivo municipal pretende manter pontes de diálogo com as várias forças políticas no concelho, mesmo as que não têm representação

Vítor Marques não esconde o entusiasmo com o novo ciclo à frente da Câmara das Caldas da Rainha. E apesar do acordo com o PS, assegura que pretende manter o diálogo com todas as forças

Na primeira grande entrevista após a tomada de posse, o presidente da Câmara das Caldas da Rainha apresenta as prioridades para o mandato. Explica o que vai mudar na gestão autárquica e que há projetos em curso que são para manter.

Como foram estas duas primeiras semanas nas novas funções?
Muito intensas. Desde o dia 11, em que tomámos posse, a nossa preocupação tem sido tomar contacto com a realidade da autarquia, receber o máximo de informação, falar com todos os departamentos da Câmara. As primeiras indicações que demos foi para dar continuidade ao trabalho, pois não entrámos com uma postura de rotura. Há projetos em curso, as coisas estão a andar e, dentro do que era o nosso programa e a nossa forma de estar, há correções para fazer e algumas já as fizemos. A nossa equipa está instalada, definimos os pelouros e os “subpelouros” com as pessoas que faziam parte da lista e estão a trabalhar connosco. E em janeiro teremos um chefe de gabinete. Não foi possível trazê-lo mais cedo, porque já tinha compromissos. Noto um grande entusiasmo e empenhamento de toda a equipa de trabalho.

Já decorreram duas sessões de Câmara. Como foi o relacionamento com a oposição?
Diria que o PSD ainda não se está a ver nessa posição. O ex-presidente Tinta Ferreira até assinou um documento onde não devia (risos), mas isso é normal, pois foram muitos anos. Acabou por ser um momento engraçado. Ao alertar, ao criticar e a corrigir, os vereadores do PSD e do PS estão a desempenhar a sua função e, se assim for sempre, esse é o caminho. Não queremos yesmen, queremos autarcas com ideias próprias e que as devem apresentar nesse sentido, com cordialidade, elevação e educação. Vamos continuar a querer discutir o futuro com todos, inclusive com aqueles que não estão cá, e vamos esforçar-nos para que isso possa acontecer. É nisso que acreditamos. É um novo paradigma e foi com ele que nos apresentámos ao eleitorado.

E o que espera que suceda na Assembleia Municipal, em que o Vamos Mudar não consegue maioria?
Ao longo de todo este processo tive alguns momentos de ansiedade. Antes de tomar a decisão de avançar, depois de tomar a decisão e no dia das eleições, entre as 17h00 e as 20h00. De resto, tenho tido uma calma tremenda e não tive qualquer ansiedade com a votação da mesa da Assembleia Municipal. O que vai chegar à Assembleia Municipal é o que todos queremos. Mais de metade do teor dos programas eleitorais era igual em todas as candidaturas. Creio que há uma base de entendimento alargada. Além disso, há um presidente de Junta que se mostrou disponível para viabilizar alguns pontos mais importantes, para além de outros presidentes de Junta que têm autonomia e que sabem que devem defender os interesses das populações. Os interesses das populações relevam-se acima dos interesses dos partidos.

Foi por esse motivo que assinou um entendimento com o PS?
Nas conversas com o PS houve três ou quatro assuntos em que não nos entendemos, mas aquilo que dizemos é que há um conjunto de fatores que são convergentes. Com isto não quer dizer que o PS vá votar sempre a favor das nossas propostas. É um entendimento tão natural que, para nós, nem fazíamos questão de estar escrito.

E com o PSD? Fazia sentido estabelecer um acordo?
Estávamos disponíveis. Na reunião que tivemos com o PSD, transmitiram-nos que fariam oposição tout court. Sabemos que são pessoas com muita experiência e que certamente trariam valor acrescentado para a governação. Continuo a entender que são pessoas com muita experiência e que trazem mais valias para as reuniões do executivo.
O que está pensado para o termalismo nas Caldas, agora que há esse acordo com o PS?
Queremos dar continuidade ao trabalho que está a ser feito e colocar a funcionar a musculoesquelética, cuja obra está a decorrer. Este é um processo que o anterior executivo contratualizou e a obra está atrasada, mas gostaríamos de abrir essa parte do hospital em maio. Se não houver mais atrasos, os prazos permitem-nos pensar que isso é possível. A contratação dos funcionários é algo que vamos começar a tratar. Estamos numa fase de avaliação de propostas, pois precisamos de um plano de negócios para perceber qual o investimento que temos de fazer para rentabilizar o negócio.

E quem vai ficar à frente do Hospital Termal?
Essa é uma área de atuação em que pretendo envolver-me pessoalmente, juntamente com a minha adjunta [Sara Oliveira]. Temos uma empresa que presta serviços à autarquia e teremos de avaliar muito bem o processo.

Relativamente à gestão do CCC, à Expoeste e ao Centro da Juventude? O que vai mudar?
No caso das associações, admitimos um cenário a duas velocidades. No caso da Expoeste, gostaríamos de chegar a acordo com a AIRO para gerir aquele recurso, o que levaria à extinção da ADIO. O que queremos da ADJ é que se foque na juventude e que não se disperse, como até aqui, na juventude e em eventos, mas que fique integrado no município. Quanto à CulturCaldas, queremos que abarque tudo o que seja produção de eventos, que se realizem no CCC e não só, havendo partilha de meios. Seria a única das três associações a manter-se em atividade. As lideranças? Ainda não temos ideias fechadas. Mas estamos num ciclo novo e, portanto, há necessidade de fazer algumas alterações. É algo demasiado óbvio para nós e também para as pessoas em causa. Mas admito que isto seja feito a duas velocidades.

E quanto aos Serviços Municipalizados? Fala-se da entrada de Luís Miguel Patacho para o conselho de administração…
Aceitámos a proposta do PS e, nesse sentido, o vereador Luís Patacho, que será ainda o nosso representante no agrupamento de escolas e na Associação Europeia das Cidades Históricas e Termais, vai integrar a administração dos SMAS, que será dirigido por mim e terá o vice-presidente Joaquim Beato também como vogal. Devo dizer que nos tem agradado imenso a forma como os SMAS têm evoluído nos últimos anos e, por isso, há condições para continuar a melhorar.

Como é que o novo executivo olha para o projeto do alargamento do Museu da Cerâmica?
Já temos o dossiê, mas não conhecemos muito bem o processo, até porque quando foi apresentado o presidente da União das Freguesias de Caldas – Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório não foi convidado. Há um sentimento forte dos caldenses relativamente ao setor da cerâmica, à ampliação do palacete e estamos interessados em criar as condições financeiras, com recurso a fundos europeus, para o fazer. Até porque no próximo ano vamos ter menos receitas. Nesse sentido, vamos ter de ser muito criteriosos. Para nós é importante fazer obra, mas mais importante é manter os equipamentos que temos.

E relativamente à frente lagunar da Foz do Arelho?
Tive a oportunidade de assistir à apresentação no Inatel, um pouco à pressa, de um projeto que era para ser feito em seis meses e demorou quatro anos para ser apresentado. O projeto tem de ser revisto a diversos níveis. Gostávamos de ver o projeto desenhado de outra forma, não sabemos se a APA permite, nomeadamente manter os restaurantes nas arribas, mas entendemos que o projeto, tal como está, é pouco dignificante para a Avenida do Mar. Além disso, é um investimento de vários milhões de euros e tem de ser repensado. Parece-nos mais urgente intervir no cais.

E o Museu do Humor?
Tive oportunidade de há três anos ter falado com o anterior presidente da Câmara e transmiti-lhe uma ideia, que mantenho: nós temos um edifício muito bem localizado, a precisar de obras e que está ocupado por duas entidades que não estão bem servidas e podem ser relocalizadas, por exemplo, no Bairro Azul. Falo do edifício do GAT e propus que pudesse albergar um museu ligado ao cartoon. Não fecho a questão no humor ou no cartoon. ■

“Praça da Fruta terá de ser um espaço mais eclético”

Autarca anuncia intervenção em duas fases no tabuleiro. Haverá uma consulta aos vendedores nos próximos dias para ser tomada decisão

Vítor Marques quer intervir na Praça da Fruta e, nesse sentido, pretende consultar “quem lá trabalha”. O presidente da Câmara das Caldas anuncia uma “requalificação em duas fases”. “Uma será mais rápida, que pode passar só pela alteração de toldos e outra mais musculada. Não sei se será um Céu de Vidro, mas aquele espaço terá de ser mais eclético e ter outras utilizações”, salienta o chefe do executivo municipal, que lamenta a forma como foi eleito o Conselho Executivo da OesteCIM.
“Este órgão é composto por um elemento do PS, outro do PSD e outro da CDU, mas a CDU tem uma Câmara e os independentes têm duas. O paradigma mudou e lamento que os partidos não o percebam”, frisa o antigo presidente de Junta, reconhecendo que se “protagonismo é Caldas perder uma vice-presidência, então perdemos protagonismo”.
Recuando ao processo que desencadeou no surgimento do movimento Vamos Mudar, Vítor Marques garante que sempre acreditou na vitória eleitoral. “Acreditava que podia ganhar. Se não acontecesse, não havia problema. E apenas senti ansiedade na decisão de avançar. Esse momento foi brutal, porque não era só um ato político, tinha uma análise de dimensão familiar que o tornava muito mais complexo”, salienta o presidente da Câmara, revelando a “aposta” que fez junto do núcleo duro da candidatura. “A minha projeção indicava um 3-3-1 e nós com mais um voto”, diz Vítor Marques, para quem “o PSD nunca acreditou que podia perder”. “Assumiram, a determinado momento, que podiam perder a maioria, mas nunca acreditaram que podia perder a Câmara. E mesmo no dia das eleições só acreditaram quando as urnas se abriram e se souberam os primeiros resultados”, sublinha o autarca, para quem se “provou que, afinal, a cidade pode ter uma grande importância” no desfecho eleitoral. “A cidade cresceu em termos populacionais e as freguesias perderam força. O PSD desvalorizou este dado”, sublinha o líder do Vamos Mudar, que recusa, ainda, ter protagonizado uma vitória individual.
“A minha liderança tem um peso grande, mas não foi uma vitória individual. Só com as pessoas é que aqui cheguei”, diz Vítor Marques, que se revê na manchete da Gazeta na edição pós-eleições, em que foi classificado como o presidente do povo. “Gosto de estar com as pessoas, desde o sem-abrigo, ao sr. Dr”, sublinha o chefe do executivo municipal, que iniciou “um projeto de quatro anos, renovável a oito anos”. “Sinto este cargo como uma espécie de comissão de serviço”, remata. ■

Para o novo presidente da Câmara, o PSD nunca acreditou que podia perder as eleições