Políticas, rede social e parcerias são essenciais no combate à pobreza

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O debate juntou especialistas e representantes das organizações no auditório da Expoeste

Além de especialistas, debate promovido pelo Conselho da Cidade contou com a apresentação dos resultados de um inquérito feito às entidades sociais

Evitar a “fatalidade” de uma criança que nasce numa família pobre se tornar num adulto e idoso pobre deve ser, para Edmundo Martinho, coordenador da Comissão da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, a chave de uma estratégia nacional de combate à pobreza. O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa defendeu, no “Combate à Pobreza – Como e o que podemos melhorar?”, organizado pelo Conselho da Cidade, que a criança deve ser um dos eixos principais de trabalho e defende que são precisas políticas para ajudar as famílias com filhos pequenos, não só a nível financeiro, como através do acompanhamento escolar e condições de saúde.
Uma das propostas em cima da mesa é a gratuitidade e universalidade no acesso a creches. Edmundo Martinho reconhece que obrigará a um reforço significativo no Orçamento de Estado, mas entende que estas devem fazer parte do “processo de desenvolvimento educativo de uma criança em formação”.
Tendo como foco especial todas as famílias com crianças, o orador defendeu que nenhuma dessas famílias deveria estar abaixo do limiar da pobreza e que a prioridade deve ser encontrar o equilíbrio entre a dimensão das políticas nacionais e a sua expressão local.
Perante uma plateia de cerca de 40 pessoas, a maioria representantes de instituições de apoio social, Edmundo Martinho destacou também o emprego como fator do combate à pobreza, defendendo intervenção ao nível do salário mínimo e a melhoria dos salários por via do aumento das qualificações.
O responsável realçou ainda a importância da rede social enquanto esforço conjugado de todas as instituições, e a necessidade de definição de eixos estratégicos a 10 anos, e não a cada ciclo eleitoral.
“Falta-nos uma estratégia nacional de combate à pobreza, que depois deveria desdobrar-se ao nível de cada território”, disse, acrescentando que a rede social pode ser um instrumento chave, trabalhando para o conjunto da família e não para elementos desagregados.
Também presente no encontro, Célia Roque, diretora do Centro de Emprego Oeste Norte, defendeu a necessidade de se trabalhar cada vez mais em rede e em parceria. “Apenas com emprego será possível criar hábitos saudáveis e quebrar ciclos entre gerações”, disse, realçando que é preciso fazer uma “avaliação exigente, rigorosa, eficiente de toda a solidariedade que é prestada às famílias e às pessoas que dela precisam”.
Apesar de se começar a notar alguma dinâmica económica na região, a responsável está apreensiva relativamente ao futuro, nomeadamente com o fim das moratórias e das prorrogações automáticas dos subsídios de desemprego, e elencou três aspetos que considera essenciais para facilitar a obtenção de emprego. Desde logo, a necessidade de facilitar o apoio à família através de mais estruturas, inclusivamente em horários pós-laboral e fins de semana. A esta dificuldade junta-se também a dos transportes e circulação das pessoas nas zonas limítrofes do concelho, assim como o constrangimento ao nível dos cuidados pessoais e de higiene, por parte de pessoas com condições de habitabilidade reduzidas, que aparecem para as entrevistas de emprego. “Está comprovado que quanto mais tempo se fica desempregado mais difícil é a reintegração no mercado de trabalho”, disse, dando nota da importância do trabalho articulado pelas instituições da rede social onde o instituto de emprego também se inclui.

Diagnóstico da pobreza
O debate foi promovido pelo Conselho da Cidade, a 5 de maio, com o objetivo de encontrar respostas para a resolução do problema que cujas proporções estão a aumentar. A presidente da entidade, Ana Costa Leal, traçou o diagnóstico da pobreza em Portugal, realçando que os efeitos socioeconómicos da pandemia agravaram as condições de vida de muitas famílias. A nível local existe um conjunto de instituições, associações e pequenas organizações que apoiam os carenciados e uma “consciência coletiva das dificuldades que enfrentam, seja no atendimento a cada dia maior, na coordenação entre elas, no acompanhamento das famílias que ajudam e na articulação com as entidades locais”.
Entre os oradores esteve também Marina Ximenes, da direção do Conselho da Cidade, que apresentou o resultado do inquérito respondido por 34 entidades que estão na linha da frente no combate à pobreza. O estudo conclui que as entidades sabem da existência de outras similares, mas não há intercâmbio, reuniões conjuntas ou uniformização dos critérios de assistência.
Consideram que deveria ser a câmara a fazer a reavaliação e haver uma entidade externa de apoio às instituições na organização das entrevistas. “Os beneficiários devem chegar já triados e com os dados atualizados e aferidos”, referiu ainda Marina Ximenes, dando também conta que as instituições defendem a promoção de ações de formação e apoio ao estudo.
“A pobreza não é uma fatalidade e para a vencer é necessária vontade política e empenhamento social”, concluiu António Curado, do Conselho da Cidade, realçando a relevância deste primeiro encontro presencial.■