A Banda Filarmónica de Santa Catarina actua com a prata da casa

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A maioria dos músicos que compõe a actual formação da banda |Beatriz Raposo

É a única banda do concelho que atravessou a viragem de dois séculos. Com 124 anos de existência, a Sociedade Filarmónica Catarinense (SFC) conta actualmente com a participação de 30 músicos, entre os 11 e os 73 anos.

Por norma, a formação actua sem os chamados “reforços” (músicos profissionais pagos), orgulhando-se de apresentar em palco a prata da casa.
Embora ganhe na corrida da banda mais antiga do concelho, a filarmónica de Santa Catarina perde na categoria dos subsídios camarários. É, das quatro bandas das Caldas da Rainha, a que recebe menos apoio da autarquia.

Quinta-feira, 26 de Maio. Celebra-se o dia do Corpo de Deus, um dos feriados reposto este ano pelo novo governo. Em Santa Catarina também é dia de procissão e da banda sair à rua.
Por volta das 11h00 vão chegando à sede os primeiros músicos, que aproveitam para afinar os instrumentos e ensaiar alguns compassos até que termine a missa. Neste edifício partilhado funciona também o centro de saúde e a junta de freguesia. No primeiro andar ensaia a banda.
As paredes da sala de ensaios estão repletas de fotografias que dão conta dos 124 anos de história da filarmónica. É possível acompanhar a evolução dos tempos: os vários maestros, os músicos e os directores que pertenceram à banda e alguns dos momentos mais marcantes para a colectividade. Como o ano em que a SFC soprou as 100 velas de aniversário e recebeu a Medalha de Mérito Grau Ouro do concelho das Caldas da Rainha.
Na sede-museu da banda estão também expostos instrumentos antigos, que foram sendo substituídos por modelos mais modernos, de melhor qualidade e mais caros. Curiosamente, originalmente os instrumentos eram cinzentos e não dourados, como agora é tendência.
Embora a banda seja a mais antiga do concelho, o reconhecimento dado pela autarquia não se traduz em mais apoios. Quem o diz é António Inácio, presidente da Sociedade Filarmónica Catarinense e clarinetista da banda há quase 40 anos.
“Somos os mais velhos, mas isso apenas significa que nos custa mais a andar, por isso chegamos em último lugar à festa e ficamos com a fatia mais pequena do bolo”, ironiza. “Se calhar recebemos menos porque estamos mais longe ou a estrada tem mais curvas, não percebo as razões e sempre que toco nesse assunto rapidamente desviam a conversa”, acrescenta António Inácio.
A banda de Santa Catarina é subsidiada pela Câmara com cerca de 3000 euros, um valor três vezes inferior ao que é atribuído à Banda Comércio e Indústria das Caldas. Para António Inácio estipular diferentes quantias para as bandas significa colocá-las em diferentes categorias. E mais: segundo o presidente, a banda da SFC é a única do concelho a não cobrar por serviços prestados na sua própria freguesia.
“Nos concelhos de Alcobaça e Óbidos todas as bandas recebem o mesmo, aqui existe um tratamento diferenciado”, conta, frisando que “se tivesse direito ao subsídio de algumas das bandas das Caldas andava muito mais descansado e podia organizar e participar em muitos mais concertos”.
Pela falta de verbas, torna-se difícil subir ao palco com músicos profissionais, que na linguagem das filarmónicas são designados por “reforços”. Por isso, é garantido que a banda actua quase sempre (e apenas) com a “prata da casa”.

Guerra do Ultramar parou a banda

António Leão entrou para a banda no ano em que disparava a Guerra do Ultramar. Dois anos depois, em 1963, foi chamado a cumprir serviço militar. “Tal como eu, toda a malta nova foi enviada para a guerra, o que, juntamente com a emigração, roubou muitos elementos à banda, que acabou por interromper a actividade”, recorda o percussionista.
Só em 1976, pela iniciativa de Silvino Heliodoro (músico militar reformado) é que a banda voltou a pegar nos instrumentos. Pouco tempo depois seria criada a Escola de Música (onde actualmente aprendem gratuitamente 18 alunos). “Lembro-me que quando a banda ressurgiu foi um enorme sucesso. Entrou muita juventude, pela primeira vez as raparigas, e tínhamos bastantes serviços”, diz António Leão.
Aos 73 anos, António toca pratos, bombo e maracas. Sem vergonha o instrumentista assume-se apaixonado pela banda e embora não saiba ler as partituras, garante que o essencial aprendeu de ouvido. Para memorizar os instrumentos que deve utilizar em cada tema, António leva para os ensaios um caderno onde aponta (por códigos) o nome dos instrumentos correspondentes às designações das peças.
Recordando a cerimónia em que recebeu do município uma medalha de mérito pelos seus 50 anos de músico na SFC, António Leão conta que tem emoldurado – em casa e na sede da banda – o recorte da fotografia publicada da Gazeta das Caldas que noticia esse acontecimento. “A verdade é que é a banda que me dá anos de vida e me faz sentir um rapaz novo. Provavelmente se parasse era pior, assim mantenho-me activo”, diz, realçando, contudo, que já não tem o mesmo ritmo dos seus colegas, principalmente nos serviços de peditório (onde a banda toca muitos quilómetros, muitas vezes a pé).

Conciliar a banda com o ensino articulado

A maioria dos jovens músicos da banda também estuda música na escola, assegura António Inácio. Ao complementarem o ensino articulado com a banda filarmónica “evoluem mais enquanto instrumentistas”. É inclusive através de campanhas nas escolas de Santa Catarina que a filarmónica consegue captar muitos músicos. Ainda assim, “continua a ser o facto de um miúdo trazer outro amigo e por aí adiante o que mais contribui para a chegada de novos músicos”, remata o presidente, alertando que hoje em dia, além da música, há outras actividades muito aliciantes.
“Já chegámos a ter aqui crianças que frequentavam tanto a banda como o futsal. Mas como no futsal passado pouco tempo estão a jogar e aqui leva algum tempo até que se estreiem nos ensaios da banda, alguns optam pelo que é mais imediato”, lamenta António Inácio.
Lucas Pina, 12 anos, é o baterista da banda e confirma: “por pertencer à filarmónica estou um passinho mais à frente nas aulas de música da escola, sinto-me mais preparado”. Para Lucas, a banda é a combinação perfeita entre música e boas amizades. “Mesmo entre novos e velhos a relação é muito boa e eles estão sempre prontos a ajudar-nos”, conta.
Laura Paciência também diz que “não é por ser o elemento mais novo da banda que me sinto inferior a alguém. Pelo contrário, quando tocamos somos todos iguais”.
Já João Morgado, que entrou para a banda aos seis anos e se estreou em concerto aos 11, revela que a primeira actuação fica sempre na memória como um dos espectáculos mais marcantes dos instrumentistas.
“Vê-los crescer enquanto músicos e pessoas é muito gratificante”, confessa o maestro Manuel Alves, salientando que hoje “o ensino da música é mais intensivo, mas ao mesmo tempo mais interessante para os músicos porque se tocam temas ligeiros que são mais agradáveis”.
Na opinião de Manuel Alves, actualmente a relação maestro-músico é mais aberta do que há anos atrás (quando a maioria dos maestros vinha de bandas militares), o que permite que os ensaios sejam mais animados. “Esse ambiente de divertimento é depois o ideal para se trabalhar bem e com motivação”, acrescenta.

Trompete

20928_1 copiarO Trompete é um instrumento de sopro da classe dos metais também conhecido como Pistão, feito em metal contêm uma campânula que é responsável pela amplificação do som, contêm pistos que alteram o caminho de passagem do ar pelos tubos do trompete aumentando ou diminuindo a distância percorrida pelo ar no interior do instrumento, contêm um bocal onde o trompetista posiciona os lábios e pela vibração dos lábios e a velocidade do ar para o interior do instrumento o som é produzido.