Fotógrafa retratou mais de uma centena de caldenses à janela

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Susana Valadas tem o projeto Coração de Boi onde se dedica a vários temas, incluindo uma série de auto-retratos

Artista dedica-se a vários projetos desde fotografia de moda até à cozinha sustentável

Susana Valadas assinou uma série de retratos à janela, captados desde o primeiro confinamento obrigatório causado pela pandemia de covid-19. A autora, formada em Som e Imagem na ESAD, contou à Gazeta das Caldas que aquele trabalho a ajudou a combater o seu isolamento.
No início, quando dava um passeio pela cidade, passava por casas dos amigos e ligava -lhes para virem à janela para os fotografar. E foi assim que o projeto arrancou.
“Pelo caminho encontrava outras pessoas que, do interior das casas, espreitavam pela janela para o mundo exterior”, disse a autora que foi retratando dezenas de caldenses, tendo partilhado histórias com algumas.
Começou pela rua onde vive e, depois, foi alargando a cobertura do projeto a outras zonas da cidade e chegou aos 110 retratados.

A compilação dos retratados à janela que a autora gostaria de editar em livro

Mais tarde, decidiu imprimir as fotos em pequeno formato, reciclou envelopes com janela e voltou a percorrer os mesmos caminhos, a pé ou de bicicleta, para entregar cartas. “Quis devolver algo de físico àquelas pessoas que me permitiram fazer o seu retrato”, disse a caldense, que deixava no envelope um carimbo com o seu endereço de Facebook de forma a dar-lhes acesso a toda a série de retratos feitos.
Para a autora, esta série “nunca teve o seu fim”. “Continuo sensível a quem espreita pela janela, é como se um radar tivesse ficado ligado e identifico uma janela com gente sempre que ando pela rua”, explica Susana Valadas, que gostava que este trabalho fotográfico pudesse ter formato físico através de uma edição.

Um dos envelopes que Susana Valadas ofereceu a quem participou no projeto. Deu-lhes acesso às suas redes sociais para conhecer a “comunidade” dos diferentes retratados

A autora tem parcerias com designers de moda e ilustradoras com preocupações ambientais e de sustentabilidade. Entre os vários projetos que desenvolve também retrata a rua onde vive, captando diferentes momentos da vida urbana. Susana Valadas pertence ao Grémio Caldense, associação que mantém programação cultural regular na cidade. Na sua opinião, as Caldas “tem tudo para dar “cartas na vertente cultural só que falta a ligação entre os agentes culturais e instituições”. Também falta um acolhimento diferente às artes, setor que considera “frágil” e que acha que “não pode ser tutelado e acolhido aquilo que agrade a mais pessoas”. Para a jovem, também “a vida noturna é negligenciada” na cidade “mesmo antes da pandemia”. A artista também se dedica ao auto-retrato e fá-lo através do projeto Coração de Boi, que surgiu “com uma necessidade identitária” que representasse os vários interesses que possui. “Tem muita rudeza e sensibilidade dentro de si, sou eu enquanto fotógrafa, artista e cozinheira”, rematou a caldense que se dedica a fazer pratos vegans e vegetarianos.■

Perfil

Susana Valadas
Artista, fotógrafa e cozinheira

Terminou o curso de Som e Imagem em 2014, vertente de imagem, na altura por estar mais interessada na área de realização.
O seu projeto final de curso “São”- um documentário sobre a sua mãe, uma operária fabril – integrou a seleção “Verdes Anos” no Doclisboa desse ano. Ficou contente por ver o trabalho reconhecido e projetado numa sala de cinema. Susana Valadas, 38 anos, além dos retratos à janela também faz fotografia de moda. É membro do Grémio Caldense e é a fotógrafa dos eventos deste coletivo. E é também cozinheira de pratos sustentáveis. ■