Praça com Memória quer dar a conhecer a identidade de Óbidos

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João Pedro Tormenta e Carla Gil, responsáveis pelo Arquivo Histórico e serviço de Desenvolvimento Comunitário

A 9 de abril de 1918 começava a batalha de La Lys e, no contingente português que lutou com as forças alemãs nas trincheiras da Flandres, estavam três obidenses. A sua história, bem como as fotografias da época que foram cedidas pelos familiares dos soldados, foi publicada na passada sexta-feira no blog Praça com Memória para assinalar a data. Este é um exemplo prático do que pretende ser o projeto que arrancou em Óbidos recentemente e que junta o Arquivo Histórico ao serviço de Desenvolvimento Comunitário.
“Não queremos que o Praça com Memória seja um site de História, mas que junte vivências e memórias, envolvendo as pessoas”, explica Carla Gil, responsável pelo serviço de Desenvolvimento Comunitário. O objetivo é que a comunidade possa fazer chegar ao Arquivo Histórico fotografias, documentos e outros objetos, que serão depois contextualizados, de modo a preservar essas memórias. “É também uma forma do arquivo interagir com a comunidade e, ao mesmo tempo, enriquecer o seu espólio com vivências e memórias que as pessoas tenham”, acrescenta João Pedro Tormenta, historiador e responsável pelo Arquivo Histórico, que tem recebido alguma documentação, nomeadamente fotografias. A primeira que publicou, data do início do século XX e foi-lhe entregue pelo obidense João Soares. Trata-se de uma foto de família, tirada na Praça de Santa Maria durante uma cerimónia religiosa. “Reconheci logo a bandeira azul e branca, fiz uma conjugação com as atas do princípio do século XX, e como tem o pormenor das obras na torre da igreja de Santa Maria, conseguimos datar a foto de finais da monarquia” conta João Pedro Tormenta, acrescentando que agora continua o trabalho de reconhecimento das pessoas que estão na foto e que “serão os bisavós de muitos obidenses”.
Os objetos são fotografados, contextualizados, mas ficam sempre na posse dos seus proprietários. “No fundo, estamos a criar uma rede de informação comunitária que valoriza o que as pessoas têm e podem também dar aos outros”, remata o historiador.
Todos cidadão que queiram colaborar neste projecto, e que o possam enriquecer, estão convidados a fazê-lo, através do email [email protected], enviando as suas memórias, fotos, ou documentos de família digitalizados, ou textos com memórias familiares.

Artes e ofícios antigos
“Não nos faz sentido ter um arquivo fechado, queremos que as pessoas saibam porque Óbidos tem esta identidade, temos de perceber de onde viemos e o que foi acontecendo”, defende Carla Gil, realçando o sentimento de pertença à comunidade. O próximo tema que querem trabalhar prende-se com as artes e ofícios, dando enfoque a profissões que já deixaram de existir e outras que, com o passar do tempo, foram-se alterando. O arquivo municipal possui todos os registos camarários das profissões antigas, pelo que são agora necessárias as fotografias e as memórias, de forma a “dar vida” a esses registos. A Praça com Memória tem também uma rúbrica, denominada “A minha casa também é um museu”, dedicada ao público mais jovem e que, no futuro, também será trabalhada nas escolas, em que são convidados a fotografar um objeto e falar um pouco sobre ele e a sua importância afetiva. Entre as peças recebidas estão brincos e uma diversidade de peças cerâmicas, que João Pedro Tormenta depois contextualiza historicamente,
O projeto começou recentemente e, nesta altura de pandemia, numa vertente digital (com site e Facebook), mas no futuro os responsáveis gostariam de ir ao terreno e poder obter testemunhos orais. Outro dos objetivos passa por tornar o projeto em “algo expositivo” que se possa mostrar depois às pessoas. “É muito importante conhecer o território, temos caraterísticas próprias que temos de valorizar de modo a também o desenvolver”, conclui Carla Gil. ■

Foto cedida por um obidense, que foi datada do início do seculo XX