Quando Caldas da Rainha foi a capital do reino no Verão de 1742

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Depois de Salir de Matos e da Praça da Fruta, Carlos Querido está a investigar a fundo a vinda do rei D. João V para as Caldas no século XVIII

Após ter despachado o expediente do reino, o Rei D. João V, a 10 de Maio de 1742, sentiu-se mal. “Sobreveio-lhe um estupor que o privou dos sentidos e ficou ileso da parte esquerda e com a boca à banda”. Este infeliz acontecimento está na origem das 13 deslocações que o rei fará à vila das termas, em busca da cura nas águas mais famosas do reino.
É o que nos explica Carlos Querido, juiz desembargador e colaborador da Gazeta das Caldas, autor de várias obras de história local e que agora – no seu tempo livre (sempre escasso) – se dedica à investigação relativa à estadia do rei e da corte nas Caldas da Rainha durante o Verão de 1742.
O autor vai estar no CCC no próximo domingo, 13 de Maio, pelas 17h00, para um colóquio sobre esta temática, que irá dar origem a um futuro livro que tem os factos da história local durante o século XVIII como pano de fundo.
Naquele Verão de 1742 “toda a corte foi notificada para comparecer na vila termal. À frente segue o arquitecto João Frederico Ludovice para organizar o alojamento da família real e da corte e o cardeal da Cunha para benzer as estradas”, conta a sinopse sobre este “levantar do véu” de um autor que já surpreendeu ao ter analisado historicamente a Praça da Fruta no seu último livro.
São igualmente conhecidas as suas crónicas que tratam de temas relacionados com a sua terra natal – Salir de Matos – e com histórias relacionadas com a justiça, publicadas e coleccionadas por muitos leitores deste semanário. Conta-nos Carlos Querido que da sua investigação constam já vários relatos da época que referem, não só a viagem do rei (Folheto de Lisboa) até à região Oeste, acompanhado pela sua comitiva mais intimo entre eles, o príncipe herdeiro D. José, os infantes D. Pedro e D. António, frei Gaspar da Encarnação, um padre jesuíta, um médico, um cirurgião e um criado com funções de estribeiro menor”.
Já nas Caldas, conta o autor com base nestes relatos, que os  aposentos do rei e da rainha situavam-se do lado nascente e poente da ermida de S. Sebastião, onde começa a Rua do Cabo da Vila. “O rei, o príncipe e o infante D. Pedro ocupam as casas do Dr. António Moreira de Lima”, enquanto que “a Rainha e a princesa do Brasil ocupam as casas do desembargador João de Proença”.
Há vários elementos da corte e da família real que ficam nas quintas dos arredores. Por exemplo, o infante D Manuel “herói reconhecido e celebrado nas cortes europeias por ter lutado ao serviço do príncipe Eugénio e do Imperador da Áustria”, acomodou-se na Quinta da Foz que pertencia então a Filipe de Alarcão Mascarenhas Sotomaior, que foi governador e capitão general na ilha da Madeira. O infante D. António – irmão mais próximo do rei – hospeda-se na Quinta dos Pinheiros, que pertence a José da Serra Moraes.

Esplendor real e obras que mudam a feição da vila termal

Segundo as pesquisas do autor, o esplendor do rei projectou-se naquela época nas cerimonias litúrgicas que se realizaram na Igreja Nossa Sra. Do Pópulo, “as esmolas generosas que distribui a esmo para a prosperidade do clero e salvação da sua alma e nas obras que hão-de mudar definitivamente a face da vila termal: a reedificação do Hospital a construção de três chafarizes, dos Paços do concelho, cadeia e açougue da vila”.
Imagine-se então que seria a vila  que vivia “da sua água e do seu barro”, com a presença real e de toda a corte naquele Verão de 1742, tendo-se então tornado na capital do reino. São estes dias que serão recordados por Carlos Querido no próximo domingo, 13 de Maio, no CCC.
À Gazeta das Caldas, o autor diz que tudo começou por causa de uma conferência sobre a água que deu ao Clube Soror Optimist e que lhe abriu o interesse por este novo tema de trabalho relacionado com a história local.
Carlos Querido terá muito para contar e personagens para dar a conhecer no seu livro, através de um narrador de 1750 que vivia nas Caldas ao tempo da estadia real. Este último compromete-se a relatar com factos verdadeiros e terá o intuito  de ajudar os leitores a “compreender o estranho tempo em que vivi e o rei que ontem morreu”.

Natacha Narciso

nnarciso@gazetadascaldas.pt