Rancho Folclórico “Flores da Primavera” do Guisado

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O rancho do Guisado é constituído maioritariamente por jovens |DR

“A introdução de trajes etnográficos motivou o grupo e fez com que alguns elementos levassem o rancho mais a sério”

São do Guisado (Salir de Matos) e são também um dos ranchos com dançarinos mais jovens no concelho. Nasceram em 1980, mas viram a sua actividade interrompida por 15 anos. Em 2004 retomaram as danças e hoje até sobem ao palco com novos trajes, uma mudança recente que foi um ponto de viragem no grupo.
Eis o Rancho Folclórico “Flores da Primavera”, que é actualmente formado por 35 elementos, dos seis aos 70 anos.

Onze de Maio de 1980. Foi neste dia que o rancho do Guisado actuou nas Caldas da Rainha, na Festa das Flores, e foi também a primeira vez que subiu a um palco. Esta data marcou o grupo de tal forma que passou a ser a do seu aniversário. Também o nome do rancho – “Flores da Primavera” – é uma homenagem àquele dia em que a cidade se enchia de carros floridos. Passaram-se 37 anos.

“Foi a partir dessa festa que o rancho passou a ser um grupo organizado, mas antes já existiam ranchos que se juntavam pelo Carnaval. Íamos dançar às Caldas e às localidades da freguesia”, recorda Celeste Henriques, 74 anos, que durante muito tempo foi ensaiadora do rancho. Pertenceu também à tocata. Chamam-lhe a Ti Celeste.
Vestiam umas saias vermelhas com aventais bordados por moças do Guisado, forravam de pano preto chapéus de cartão e pintavam umas riscas coloridas nas camisas brancas. Era assim que as raparigas do rancho iam brincar ao Carnaval.
“Não ensaiávamos quase nada… dançávamos uns viras, um fadinho e o corridinho e às vezes actuávamos antes das ‘Touradas’, teatros que simulavam uma corrida de touros, mas tudo na brincadeira”, conta Celeste Henriques, realçando que o Guisado sempre foi uma terra com muita tradição do teatro e com um espírito brincalhão e festivo.
Quando se lembra desses primeiros tempos, Celeste descreve o rancho como muito amigo e unido. E acrescenta: “onde quer que fôssemos dávamos espetáculo… isto quer dizer, fora do palco! Principalmente às refeições, quando a malta se punha a cantarolar”.
Na altura, Celeste aprendeu a dançar com pessoas mais velhas, como a sua prima ou a sua irmã. Quando as apanhava em casa, pedia-lhes que cantassem umas músicas e ligava o gravador. “Era assim que registávamos tudo”, recorda, revelando que sempre teve gosto em escrever letras para o rancho. “Hoje eles têm um repertório com músicas lindas, mas muitas nem dançam, o que é uma pena”, lamenta Celeste Henriques.
Em 1980 e nos anos seguintes pertenciam ao rancho cerca de 40 pessoas. E em 1983 foi criado o rancho infantil “Rouxinóis da Primavera”. Mas em 1988 ou 1989, não se sabe ao certo, o grupo interrompeu a sua actividade.

REACTIVAÇÃO EM 2004

Passados 15 anos, Celeste Henriques e Conceição Serra (que também foi ensaiadora do rancho do Guisado) resolveram reactivar o “Flores da Primavera”. “Ficou sempre o bichinho de voltarmos e assim foi”, afirma Celeste, revelando que se dirigiram à escola primária para arranjarem pares suficientes para formar um rancho infantil. Estávamos em 2004.
Curiosamente, Davide Rebelo, o actual ensaiador e responsável do rancho, estava lá nesse dia. “Lembro-me que ensaiámos na cave do salão da Associação do Guisado. Eu nunca tinha dançado na vida, mas naquele dia gostei muito e houve qualquer coisa que me fez ficar… até hoje”, diz o jovem de 22 anos.
Actualmente, alguns dos elementos do rancho “Flores da Primavera” são precisamente os miúdos que se iniciaram no grupo infantil e que entretanto cresceram. Mas o rancho continua a ser maioritariamente jovem, pode mesmo ser considerado infanto-juvenil, pois só na tocata se encontram pessoas com mais idade, até aos 70 anos. É que a dançar, o elemento mais velho tem apenas 24 anos.
Celeste Henriques diz com orgulho que os viu crescer. A muitos deles. E embora já tenha deixado o rancho, continua a acompanhá-lo em algumas actuações e confessa que permanece o carinho. “Sinto os seus sucessos como se fossem os meus”, realça, dando os parabéns ao menino Davide pelo trabalho que tem desenvolvido com o grupo.
Há cinco anos que o dançarino é também ensaiador e apresentador do rancho. Isto depois da antiga responsável, Conceição Serra, ter saído. “Escolheram-me porque acreditavam que estava pronto e porque tinha maior habilidade para a dança”, conta, acrescentando que aos 18 anos ver-se coordenador de um grupo composto por pessoas com feitios tão diferentes foi uma responsabilidade que o assustou.
 “O meu grande medo era saber que tinha que me impor a pessoas que tinham a minha idade, que eram meus amigos e que tinham começado no rancho na mesma altura que eu… e depois também tinha que saber lidar com pessoas com mais do dobro da minha idade”, revela.
Mas aos poucos, Davide Rebelo diz que o foram ouvindo. Os ensaios tornaram-se mais sérios – inicialmente o jovem nem conseguia impor a sua voz, tal era brincadeira – e o rancho evoluiu.
Celeste Henriques concorda. “Não há dúvida que estão melhores, dançam muito mais direitinhos, enquanto antigamente não havia tanto essa preocupação”, conta.

NOVOS TRAJES, NOVAS DANÇAS, OUTRA POSTURA

Sem querer mudar tudo de uma vez só, David Rebelo começou por acrescentar temas ao repertório e modificar algumas coreografias. Para isso, contou com a ajuda do caderno da Ti Celeste, onde estavam escritas muitas canções que nunca chegaram a ver a luz do palco. “Laranjinha”, um tema que fala da história de amor entre uma doce laranja e um ácido limão, foi dos primeiros que o jovem introduziu novamente no rancho.
“Fi-lo porque a música marcou-me muito enquanto andava no rancho infantil, sempre gostei muito da letra e melodia, mas foi daqueles temas que apesar de ensaiarmos nunca levávamos às actuações, o que me deixava triste”, afirma Davide, acrescentando que a maior parte das músicas do rancho abordam temas como o trabalho no campo, os namoricos e os bailes de antigamente. Mas quase nunca as palavras transmitem mensagens directas: é entre metáforas e ironias que se encontram os significados das canções.
De forma a manter cativado o grupo – e porque cansa dançar sempre as mesmas músicas – o jovem faz questão de todos os anos introduzir novidades ao repertório.
Mas o verdadeiro ponto de viragem do rancho “Flores da Primavera” começou o ano passado, com a alteração dos trajes. Até à data, os elementos é que compravam os tecidos a seu gosto e pagavam a uma costureira para que fizesse o fato. Não havia nenhum critério e as pessoas nem se davam conta do que estavam a representar em palco.
Com o dinheiro angariado após três anos a participar no Carnaval das Caldas, o rancho do Guisado já tinha fundo de maneio para introduzir novos trajes.
“Talvez por também dançar noutros grupos [Barrantes e Fanadia] fui ganhando uma noção diferente daquilo que deveria ser um rancho. Na minha opinião, hoje em dia, devemos recriar o antigamente não só através das danças como dos trajes e utensílios”, explica Davide Rebelo, que viu vários documentos na internet sobre os fatos típicos da Estremadura e também contou com a ajuda do acordeonista do grupo (ensaiador no rancho do Arelho) que já tinha feito várias pesquisas sobre o folclore e etnografia desta região.
“Além disso, também fui observando outros ranchos em festivais. Se estivermos atentos reparamos que há detalhes que fazem a diferença”, acrescenta, explicando que foi recolhendo informação de várias fontes para depois saber que tipo de tecidos comprar.
Actualmente o grupo do Guisado tem praticamente todos os trajes completos. Os elementos já sobem ao palco vestidos de noivos, domingueiros ou com os fatos de trabalho. Outra aposta do rancho foram os utensílios. Aos brinquedos (como o peão, o papagaio, as bonecas de trapos e a corda) que já faziam parte do rancho infantil de 2004, acrescentaram-se o alguidar da lavadeira, o crivo com milho da rapariga da eira e o pau de junco que os homens usavam para proteger as suas namoradas nas festas. Há agora também ferramentas de trabalho como a enxada, o ancinho e o forcado.
E como reagiu o rancho a esta mudança? Davide Rebelo confessa que de início as pessoas ficaram um pouco reticentes, mas à medida que foram chegando os primeiros trajes, a desconfiança transformou-se em entusiasmo. “O impacto foi tal que houve elementos que estavam a pensar em sair do rancho e só ficaram porque quiseram acompanhar esta nova fase do grupo”, conta o ensaiador, frisando que com a introdução dos novos trajes “cada um passou a perceber melhor aquilo que representava e, por isso, alterou para melhor a sua postura”. É que antes a maioria dos jovens via no rancho um hobbie – uma brincadeira – enquanto agora o encaram com maior sentido de dever e responsabilidade.
“Continua a haver tempo para brincar, mas em cima do palco e nos ensaios é preciso levar as coisas a sério”, sublinha Davide Rebelo, que procura criar um roteiro turístico sempre que o rancho actua fora para que o grupo possa fazer um pequeno passeio à cidade mais próxima da localidade onde se realiza espectáculo. Normalmente o autocarro vai cheio com dançarinos, acompanhantes e pessoas do Guisado que aproveitam a ocasião para fazer uma pequena excursão.
Relativamente à actuação mais marcante do grupo, Davide Rebelo elege a participação do rancho “Flores da Primavera” no concurso “Rancho do Coração” do programa Portugal do Coração, da RTP. “Mas gosto de pensar que todas as actuações são importantes à sua maneira, pois todas são uma aprendizagem”, realça Davide Rebelo, que procura trabalhar nos ensaios os erros que possam existir durante os espectáculos. E mesmo que em palco as coreografias não sigam a 100% o som do acordeão é também preciso que os elementos saibam como reagir nessas situações para que o público não se aperceba do engano.
Quando estão em palco, Davide Rebelo afirma que o grupo é unido e cada elemento sabe bem o seu papel. Fora dele, falta ainda um espírito de maior compromisso. Principalmente quando o rancho organiza dois festivais por ano – um em Maio e outro em Dezembro – era necessário que os mais jovens colaborassem como fazem os elementos mais velhos.
“Como ainda são tão novos às vezes não têm bem noção do trabalho e das responsabilidades que estão envolvidas na organização dos festivais…”, explica Davide Rebelo. Celeste Henriques recua uns anos e lamenta que hoje a juventude não colabore tanto. “É curioso que antigamente acontecia o contrário, eram os próprios jovem quem tinham muitas das iniciativas do rancho”, afirma.

37 anos de história…

11 de Maio de 1980: Início oficial do Rancho Folclórico “Flores da Primavera”
1983: Criação do Rancho Infantil “Os Rouxinóis da Primavera”
1988/1989: O rancho interrompe a sua actividade
2004: Reactivação do rancho com um grupo infantil
2011: Gravação de um CD
2012: Participação no passatempo “Rancho do Coração” do programa Portugal no Coração da RTP
2016-2017: Introdução dos trajes etnográficos