Viroscas: um olhar centenário e humorístico sobre os acontecimentos da cidade em 1915

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FD1Se ainda existisse nas Caldas o jornal satírico “O Viroscas”, este teria celebrado o seu centenário no passado dia de 11 de Outubro. O Conselho da Cidade quis assinalar esta data e convidou Jorge Mangorrinha para dar a conhecer melhor esta publicação.
O Café Central encheu-se de gente curiosa em saber mais sobre esta publicação que só teve 27 números e terminou a 11 de Abril de 1915 por causa de um tiroteio que houve na Praça da Fruta, motivado por razões políticas.

“Olhar desviado” é o que significa Viroscas e, por isso, este semanário “fazia uma leitura do quotidiano caldense pelo desvio do humor e pelo canto do olho”, afirmou o investigador Jorge Mangorrinha sobre este jornal fundado a 11 de Outubro de 1914, por Arnaldo Martins e Jaime Zenóglio. O objectivo desta publicação era, segundo o orador, “distrair os leitores, proporcionando-lhes algumas horas de bom humor”. No entanto, entre as piadas, podia-se também ler notícias sobre as manifestações culturais que aconteciam na então vila das Caldas.
Este era um jornal “imparcial e humorístico” que tinha quatro páginas. Apenas no número 13 (editado a 1 de Janeiro de 1915) este saiu com seis páginas. E como alguns leitores acharam que dois centavos era um preço exagerado, logo a partir do segundo número o custo do semanário desceu para metade. A última página do Viroscas acolhia sempre um anúncio da Tipografia Caldense, onde era impresso, à semelhança, aliás, dos jornais locais O Círculo das Caldas e O Defensor, também da época.
Jorge Mangorrinha contou que este jornal fez parte “de um movimento relevante da imprensa portuguesa e regional, pela existência de jornais satíricos e humorísticos, mas muitos deles com apelo ao desenho e à caricatura, ao contrário de O Viroscas”.
A nível nacional, houve outras publicações contemporâneas do satírico como O Zé (1910-1919) onde se escrevia “ferozmente contra Afonso Costa e tendo a Guerra como tema principal”. Havia também os Fantoches (a partir de 1914), que foi um conjunto de panfletos contra o regime republicano e O Thalassa (1913-1915), “um corajoso semanário assumidamente monárquico e também contra Afonso Costa, que criticava os principais problemas sociais, políticos e económicos”.
Jorge Mangorrinha referiu ainda Os Ridículos (desde 1895), “que era o periódico com veia humorística mais afamado, através do desenho de Silva Monteiro” e o Miau!, (editado em 1915 no Porto), que também fazia da Guerra o seu assunto principal.
Quanto ao Viroscas, “não fazendo apelo ao desenho, fica aquém desses outros, parecendo fazer das suas páginas um meio termo entre o gozo e a notícia, mas muito relevante pelo seu posicionamento imparcial, entre os dois outros jornais caldenses contemporâneos, manifestamente parciais e ideológicos [O Círculo das Caldas e O Defensor]”.

A “bandeira constipada” e o smoking do Isidro

O Viroscas noticiava pequenas notas humorísticas sobre figuras e acontecimentos locais, anúncios em jeito de agenda cultural, visitas de ilustres amigos das Caldas ou partidas de caldenses, charadas.
Logo na primeira página do primeiro número, o atraso do descerramento da bandeira da Associação Comercial, no 5 de Outubro, a propósito da comemoração do 4.º aniversário da República Portuguesa, é satirizado em jeito de carta recebida da própria “serva muito dedicada” bandeira daquela Associação, desculpando-se a própria por estar “muito constipada e proibida pelos médicos de apanhar o ar da manhã, tanto mais que nesse dia estava um nevoeiro bastante cerrado”.
São ainda motivo de referência, neste primeiro número, a disputa entre um jornal caldense e um de Leiria: Defensor e o Radical, respectivamente.
O Viroscas aborda ainda as récitas de teatro da Companhia de Constantino de Matos que se realizavam no Teatro Pavilhão e as sessões cinematográficas no Salão Central da Convalescença. Há ainda um fait divers sobre o smoking que o “Isidro do Clube de Recreio” usava e que constituía um motivo de atracção e de comentários naquela época.
“Estavam certamente sinalizados estes locais como os mais badalados das Caldas”, disse Jorge Mangorrinha. A partir deste número, O Viroscas dá continuidade à sua veia satírica, sendo que os temas locais intercalam com outros mais gerais.

Tiroteio “acaba” com O Viroscas

O semanário vai terminar após os tumultos que se verificaram a 2 de Abril, nas Caldas. “Houve troca de tiros ao cimo da Praça da República, depois de uma procissão bastante concorrida nessa Sexta-feira de Paixão, entre sujeitos ligados ao Partido Democrático e ao Partido Republicano Evolucionista, resultando num morto afecto a este último partido”.
Por causa deste facto, foram enviados para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, alguns nomes afectos ao Partido Democrático, como Custódio Maldonado Freitas e José dos Santos Germano (partindo os disparos mortais deste último), bem como outros correligionários como Amândio de Carvalho, António Alves Cunha, Branco Lisboa, Etelvino dos Santos, Joaquim José de Sousa, José Rodrigues, Salvador Sousa de Figueiredo e António Lopes de Oliveira. “Este último foi o fornecedor das bombas encontradas na redacção de O Defensor, jornal local afecto ao Partido Democrático”, contou o convidado.
Jorge Mangorrinha contou que “o povo, supondo que o líder dos distúrbios fosse o farmacêutico Custódio Maldonado Freitas, se dirigiu à sua farmácia, intimando-o a abandonar as Caldas”, mas Maldonado Freitas subiu ao telhado, “alimentando uma luta que se seguiu com bombas de dinamite e tiros”, disse. O grupo de cidadãos acabou por entrar na farmácia e na redacção de O Defensor, “provocando estragos”. Quanto ao farmacêutico, “foi descoberto no dia seguinte dentro de uma chaminé num prédio vizinho, pelas forças militares e da Guarda Republicana, que se deslocaram às Caldas”, contou.
Depois destes acontecimentos, um outro jornal caldense, O Círculo das Caldas, “noticia-os imputando culpas ao radicalismo dos membros do Partido Democrático”. Por seu turno, O Defensor demorou mais de um mês a ressurgir. A 2 de Maio refere que tal se deve à “Obra da Ditadura”, ou a “infâmia, longamente meditada e preparada pelos delapidadores e usufruidores dos dinheiros públicos que infestam Caldas da Rainha”, saudando “o amigo querido e o batalhador indomável”, referindo-se naturalmente a Custódio Maldonado de Freitas.
Quanto ao satírico O Viroscas, “tem uma posição essencialmente de repúdio às atitudes de parte a parte, saindo em defesa do bom nome da então vila. Mas nem o seu bom humor expresso noutras páginas e noutro tipo de notícias suportaria esses acontecimentos. Acabaria de seguida”, contou Jorge Mangorrinha.

“Hoje há espaço para uma edição humorística”

Questionado pela Gazeta das Caldas sobre se haveria hoje espaço para um jornal humorístico caldense, Jorge Mangorrinha acha que sim e que a publicação “teria que ter as características de O Viroscas, satirizando o quotidiano caldense com humor inteligente, mantendo uma posição imparcial perante as questões políticas, ou melhor, sabendo fazer a distinção entre a notícia e a opinião, algo que nem sempre se sabe fazer”.
De qualquer modo, o arquitecto, ex-vereador da Câmara das Caldas e líder do fugaz CLIC (Cidadãos de Livre Iniciativa Caldense), se existisse uma publicação humorística acha que se deveria incluir o desenho, porque “foi efectivamente o desenho que melhor expressou o humorismo jornalístico nos outros periódicos da época, em Portugal e não só”.
Na sua opinião, fazer jornalismo “com uma imprescindível dose de humor é mais inteligente do que muitas outras atitudes que esta escrita específica por vezes utiliza”, disse.
Para o convidado, O Viroscas foi essencialmente um jornal de olhar satírico ”sobre a pequena realidade, mas sensível às identidades locais como âncoras para o progresso”.
Jorge Mangorrinha referia-se à questão termal, “tema absolutamente estruturante nas Caldas na época, e perfeitamente actual um século depois, embora o adiamento do desenvolvimento termal tenha perdido, localmente, valor económico”.

Natacha Narciso

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